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26/01/2005

Oscar 2005 distingue as estrelas dos bons atores

The New York Times
Stephen Holden

Crítico de cinema
Fico pensando se eu era o único cinéfilo a sofrer da fadiga do Oscar, mesmo antes de os prêmios serem anunciados na manhã desta terça (25/01). Depois dos Globos de Ouro, dos prêmios populares People's Choice, e mais os prêmios dos críticos e dos sindicatos especializados, qualquer apostador mais informado poderia misturar todas essas informações e sair com uma lista certeira de 95% dos indicados nas categorias principais.

Essa quantidade de informações é exemplificada pela campanha promocional de "Menina de Ouro" (Million Dollar Baby), que alardeia o fato de o filme estar nas listas dos 10 mais de 200 críticos. É um número exaustivo, sugerindo que os prêmios da Academia estão ficando tão sobrecarregados de estatísticas quanto o beisebol.

O problema mais gritante que perturba os Oscars é que, quando há muitos prêmios de melhores do ano, ainda mais um logo depois do outro, eles começam a se embaralhar.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que entrega as famosas estatuetas, tentou diminuir esse problema ao encurtar sua temporada nos últimos dois anos, antecipando sua cerimônia para o final de fevereiro, saindo daquela tradicional época de final de março. Mas as campanhas promocionais implacáveis ainda lembram os duelos políticos eleitorais, sem muitas surpresas.

Aí começa a acontecer uma espécie de bocejo coletivo. Uma reportagem de capa essa semana no "Variety", tradicional tablóide do show-bizz, traça um retrospecto de como há muito tempo está despencando a audiência de todas as transmissões de entrega de prêmios, incluindo os Oscars. Há um consenso de que esse formato precisa desesperadamente de uma chacoalhada.

Em relação à disputa do Oscar desse ano, a animação poderá depender de onde você estiver sentado nos Estados Unidos. Para os sabichões da Costa Leste e da Costa Oeste, que sempre assistem aos filmes primeiro, o jogo está quase no final, faltando só o desfecho. Mas no interior do país, "Menina de Ouro" e "Sideways, Entre Umas e Outras", dois dos cinco indicados ao prêmio de melhor filme, ainda não entraram em grande circuito.

São boas notícias para os distribuidores desses filmes, que deverão aproveitar os benefícios dessas indicações. Seus desempenhos nas bilheterias deverão, por sua vez, afetar suas possibilidades de vitória. Os que são obcecados com esse jogo de possibilidades podem procurar o site Goldderby.com para análises minuto-a-minuto.

Gostem ou não, a "prognosticagem" infinita e repetitiva é um negócio essencial para a devoradora mídia de entretenimento, que se alimenta dos prêmios da Academia durante quatro meses a cada ano. É por isso que o carpete vermelho foi inventado. A moda, com toda aquela excitação em torno das celebridades fashion, preenche os espaços vazios.

Para que aconteçam surpresas verdadeiras, os palpiteiros terão que espalhar fofocas e controvérsias de agora até dia 27 de fevereiro, quando os prêmios serão entregues --como as que você já vai digerindo enquanto lê essas linhas.

O rumor mais quente pode ter a ver com a exclusão, na categoria de melhor ator, de Paul Giamatti, que foi eleito melhor intérprete pelo Círculo de Críticos de Cinema de Nova York e cujo rosto está na atual capa da revista Newsweek.

Isso será interpretado tanto como tapas na cara de críticos metidos como também um sinal de que "Sideways, Entre Umas e Outras" pode estar se afogando, perdendo suas chances.

Você também pode ter certeza de que nesse próximo mês o reencontro de Hilary Swank e Annette Bening na disputa do prêmio de melhor atriz, cinco anos depois de elas terem competido com as interpretações em "Meninos não Choram" e "Beleza Americana", será uma daquelas histórias infindáveis.

Eu só agradeço pela exclusão tanto de "A Paixão de Cristo" quanto de "Fahrenheit 11 de Setembro" da disputa pelo prêmio de melhor filme, o que nos poupará da banalidade daqueles clichês sobre preferências nos Estados vermelhos [republicanos, partido de Bush] e Estados azuis {democratas, de Bill Clinton e John Kerry].

Mas, se dermos um passinho para trás, podemos perceber que algumas tendências já duradouras persistem no critério das indicações. Permanece uma defasagem entre os estúdios de Hollywood e o que restou do movimento do cinema independente. Na categoria de melhor filme, a balança pende para o lado de Hollywood, já que apenas um dos cinco indicados, "Sideways, Entre Umas e Outras", não tem estrelas no elenco.

Três desses indicados, "O Aviador", "Ray" e "Em Busca da Terra do Nunca", são cinebiografias que seguem fórmulas já consagradas. O quarto, a "Menina de Ouro" de Clint Eastwood, é, orgulhosamente, um híbrido de filme de boxe com dramalhão, à moda antiga. A indicação de Eastwood para melhor ator e melhor diretor assinala a força da "Menina de Ouro".

A lista de indicadas para melhor atriz é mais ambígua, com Catalina Sandino Moreno ("Maria Cheia de Graça") e a favorita da crítica, Imelda Staunton ("Vera Drake") representando a corajosa independência. Se Annette Bening vier a vencer, como alguns prevêem, será devido à popularidade dela em Hollywood.

O sinal mais encorajador que encontro na razoável relação entre as indicações com a qualidade em geral é o nível cada vez mais alto das interpretações. Esse ano temos tantos candidatos a melhor ator que a limitação das cinco vagas acabou despachando concorrentes notáveis.

Num ano menos abarrotado, não apenas Giamatti mas também Liam Neeson em "Kinsey", Jeff Bridges em "The Door in the Floor" e Javier Bardem em "Mar Adentro" teriam grandes probabilidades de serem escolhidos.

A atuação para as telas, como tantos outros elementos no cinema, se transformou numa espécie de ciência, onde treinadores de dialetos e artistas da maquiagem são freqüentemente essenciais para a criação dos desempenhos estelares.

É só lembrar de Nicole Kidman, com seu nariz protético, como Virginia Woolf em "As Horas", e também da melhor atriz no ano passado, Charlize Theron, como a sórdida serial killer em "Monster."

Johnny Depp, indicado esse ano por "Em Busca da Terra do Nunca", e Cate Blanchett, indicada à melhor atriz coadjuvante em "O Aviador", são verdadeiros camaleões que se dissolvem em suas personagens, como legítimos descendentes de Meryl Streep e Dustin Hoffman, que aperfeiçoaram essa espécie de alquimia.

Jamie Foxx, favorito esse ano ao prêmio de melhor ator por "Ray", pode ser considerado outro integrante dessa turma.

Sempre houve uma lacuna nos filmes entre a capacidade de interpretar e o fatídico estrelato hollywoodiano. Esse ano está dando para distinguir bem as duas coisas. E, para nós que apreciamos a qualidade, temos então boas notícias. Provam indicações de Jamie Foxx, Johnny Depp e Cate Blanchett Marcelo Godoy

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