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27/01/2005

Prática do sumô ganha espaço nas ruas do Brasil

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
Paulo Fridman/The New York Times

Leonardo se prepara para mais lutas, em um galpão industrial de São Paulo
Como a maioria dos brasileiros de sua idade, Leonardo Soares dos Santos adora jogar futebol com os garotos de seu bairro. Mas, aos domingos, ele prefere o que alguns de seus amigos chamam depreciativamente como "um bando de japoneses vestindo fraldas".

Leonardo, que tem apenas 13 anos mas um corpo de um jovem robusto de 18, é um dos numerosos brasileiros de todas as idades e etnias que se reúnem religiosamente uma vez por semana em um ginásio em um velho bairro industrial de São Paulo para praticar sumô.

"Meus amigos sempre tiram sarro de mim", disse Leonardo, que devido à sua pele escura é afetuosamente conhecido no mundo do sumô como Brigadeiro, o nome de um popular doce de chocolate daqui. "Mas eles não entendem nada de sumô. As pessoas acham que é um esporte violento, mas não é."

Se este parece um cenário estranho, possivelmente bizarro para o sumô, é preciso lembrar que o Brasil é o lar da maior população japonesa fora do Japão, com mais de 1,5 milhão de descendentes de japoneses. Além disso, o sumô se tornou tão estabelecido aqui que o país está até mesmo exportando alguns de seus lutadores mais talentosos para o Japão: em 1990, Luiz Go Ikemori se tornou uma celebridade instantânea quando venceu o Campeonato Colegial Nacional de Sumô do Japão, o primeiro brasileiro a fazê-lo.

Leonardo disse que tomou contato pela primeira vez com o sumô há três anos, quando um japonês idoso o avistou brincando na rua e, impressionado com seu físico robusto com tão pouca idade, perguntou se ele gostaria de tentar.

Como a maioria dos brasileiros que não é descendente de japonês, ele não conhecia quase nada sobre sumô na época, muito menos que existia no Brasil. Assim, quando ele concordou em tentar, ele ficou ainda mais surpreso ao descobrir que não era o único brasileiro não-japonês que estava aprendendo o esporte.

"Eu achei que só encontraria japoneses", ele lembrou.

Mas se ele tivesse começado a lutar sumô cinco anos antes, é o que poderia ter acontecido. Até meados dos anos 90, o sumô no Brasil era praticado quase exclusivamente pelos imigrantes japoneses e seus filhos. Mas atualmente cerca de 70% de todos os aficionados de sumô no país são brasileiros sem sangue japonês, em grande parte devido aos esforços da associação local de sumô para popularizar o esporte entre o público.

Ao realizar lutas de sumô em praças e outros locais públicos para que todos vejam, "nós conseguimos ensinar muitas pessoas a apreciarem nosso esporte", disse Oscar Morio Tsuchiya, o vice-presidente da Confederação Brasileira de Sumô, que tem mais de 2 mil membros em todo o país e organiza anualmente um campeonato nacional para lutadores amadores.

Uma das artes marciais mais antigas no Japão, acredita-se que o sumô tenha surgido há mais de 1.500 anos como uma cerimônia que visava agradar aos deuses da religião xintoísta. Ele foi trazido ao Brasil há quase um século pelos imigrantes japoneses, que começaram a imigrar para o país sul-americano no início dos anos 1900 em busca de trabalho, inicialmente nas plantações de café e eventualmente na agricultura em geral.

Muitos dos imigrantes acabaram se estabelecendo em colônias inteiramente japonesas no interior, a maioria em Estados do sul como São Paulo e Paraná, onde prosperaram como agricultores e estabeleceram escolas para ensinar suas tradições natais. Usando sacos de café como mawashis, as tradicionais tangas vestidas pelos lutadores de sumo, as primeiras lutas de sumô no Brasil foram realizadas anualmente nestas colônias em homenagem ao imperador do Japão em seu aniversário. E em 1914, foi realizado o primeiro campeonato brasileiro oficial em Guatapará, no interior do Estado de São Paulo.

"Eles fizeram tudo o que puderam para cultivar a cultura japonesa, porque eles pretendiam voltar para o Japão algum dia, e a prática do sumô era uma grande parte disto", disse Célia Oi, a diretora executiva do Museu da História da Imigração Japonesa, em São Paulo.

"Mas poucos acabaram voltando", acrescentou Oi, que também é autora de um popular guia da cultura japonesa em São Paulo, que tem um vibrante bairro japonês chamado Liberdade.

Herança cultural

Hoje, o sumô é uma forma dos nipo-brasileiros mais velhos ensinarem gerações mais jovens sobre sua herança cultural. Nas lutas semanais realizadas aqui aos domingos, por exemplo, o esporte é praticado em sua forma mais pura. Vestindo nada além de tangas, os lutadores de todas as formas e tamanhos recitam cantos tradicionais de sumô japoneses, passando por todos os rituais pré-luta que estiveram associados ao esporte por séculos.

Apesar da intensidade, o sumô ainda é apenas um hobby para a maioria. Mas para alguns poucos, ele também pode ser uma passagem para uma carreira profissional altamente remunerada no Japão.

"Desde pequeno o sumô tem sido uma grande parte da minha vida, mas se você quiser lutar profissionalmente, você tem que ir para o Japão", disse Fernando Yoshinobu Kuroda, 28 anos, natural de São Paulo, que recentemente voltou ao Brasil após uma estadia de 12 anos no Japão, onde chegou até a primeira divisão da liga profissional de sumô.

Atualmente, Kuroda, que era conhecido pelo nome de batalha Waka-Azuma quando lutava profissionalmente, passa a maior parte do seu tempo cuidando do restaurante japonês que abriu recentemente no centro da cidade japonesa de São Paulo. Mas aos domingos, ele se esforça para ir até o ginásio onde os entusiastas de sumô da cidade se encontram, para fazer sua parte para manter a tradição viva.

"Para mim, o sumô é mais do que apenas um esporte", disse ele. "É uma forma de preservar nossa cultura. Assim, eu sinto que deve vir aqui para ensinar aos garotos o que eu aprendi no Japão." O esporte é adotado também por quem não descende de japoneses George El Khouri Andolfato

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