UOL Notícias Internacional
 

28/01/2005

George W. Bush promete retirar as tropas americanas do Iraque se o novo governo pedir

The New York Times
Elisabeth Bumiller,

David E. Sanger e

Richard W. Stevenson

Em Washington
O presidente Bush disse em uma entrevista nesta quinta-feira (27/01) que ele retirará as tropas americanas do Iraque caso o novo governo, que será eleito no domingo, lhe pedir para fazê-lo, mas que espera que os primeiros líderes eleitos democraticamente no Iraque vão querer que os Estados Unidos permaneçam como ajudantes, não como ocupantes.

"Eu ouvi as vozes das pessoas que presumivelmente estarão em posições de responsabilidade após estas eleições, apesar de que nunca se sabe", disse Bush. "Mas parece que maioria da liderança de lá entende que haverá a necessidade de tropas da coalizão pelo menos até que os iraquianos sejam capazes de lutar."

Ele não disse quem ele espera que sairá vitorioso nas primeiras eleições competitivas no Iraque em uma geração. Mas ao ser perguntado se, como questão de princípio, os Estados Unidos retirariam suas tropas do Iraque caso isto fosse requisitado pelo novo governo, ele disse: "Sim, absolutamente. Este é um governo soberano -ele é independente".

Alguns membros do governo fizeram promessas semelhantes, mas esta foi a primeira vez que Bush a fez.

Em uma conversa de 40 minutos no Escritório Oval com correspondentes do The New York Times, Bush, sentado diante da lareira, falou sobre uma série de assuntos que pretende abordar em seu discurso do Estado da União, na próxima semana. Mas o Iraque claramente predominava em sua mente, e ele disse que com a eleição de domingo, "nós estamos assistindo a um fato histórico, um que mudará o mundo". Esta tem sido a mensagem de Bush em uma série de entrevistas que tem dado nos dias que antecederam e se seguiram ao seu discurso de posse, em 20 de janeiro.

Ele posteriormente inseriu o Iraque em um plano mais amplo para a democratização do Oriente Médio. "Eu considero duas das maiores ironias da história o fato de que haverá um Estado palestino e um Iraque democrático mostrando o caminho para os povos que desejam desesperadamente ser livres", disse o presidente. Ele elogiou particularmente Mahmoud Abbas, o novo líder palestino, como um homem que "tem a vontade do povo ao seu lado, e isto inspira os líderes".

Na política doméstica, Bush se esquivou da pergunta sobre se concordava com uma decisão judicial de instância inferior que proíbe homens e mulheres gays da Flórida de adotarem crianças, dizendo não estar ciente dela. Mas ele disse que apesar das "crianças poderem receber amor de casais gays", ele acredita que "estudos mostraram que o ideal é quando a criança é criada por uma família casada, com um homem e uma mulher". Ele disse que seu plano para reformar o Seguro Social será a peça central de seu discurso do Estado da União na próxima semana, e reconheceu que sua abordagem exigirá decisões politicamente difíceis do Congresso.

Ele também sugeriu, três dias depois de dizer em um comício da "Marcha da Vida" que podia ver "vislumbres" de uma nação na qual cada criança é "bem-vinda à vida e protegida pela lei", que está resignado por ora com a continuidade da realização de abortos e que seu papel será mostrar liderança moral em vez de promover novas iniciativas específicas antiaborto.

"Eu acho que a meta deve ser convencer as pessoas a valorizarem a vida", disse Bush. "Mas eu entendo plenamente que nossa sociedade está dividida quanto ao assunto e que haverá abortos. Vocês sabem, esta é a realidade. Me parece que meu trabalho é convencer as pessoas a tomarem as decisões certas na vida, a compreenderem que há alternativas ao aborto, como adoção, e é o que continuarei fazendo."

Ele foi breve em sua resposta sobre seu relacionamento com o Black Caucus, a associação dos congressistas negros, um grupo com o qual se encontrou na quarta-feira e ao qual convidou apenas uma vez à Casa Branca em seu primeiro mandato. Ao ser perguntado sobre o motivo do grupo atualmente composto de 43 membros democratas afro-americanos do Congresso ter recebido apenas um único convite no primeiro mandato, Bush respondeu: "Ah, sabe como é, eu não sei. Foi simplesmente a forma como aconteceu".

Ele disse estar trabalhando "para apresentar políticas que acho que serão benéficas para todas as pessoas, incluindo os afro-americanos, e é o que continuarei fazendo".

Mas ao mesmo tempo em que reconhecia que o Iraque está em um momento chave de sua história, Bush pareceu mais tranqüilo do que estava em agosto, a última vez em que foi entrevistado pelo "The Times", em um vestiário, durante uma parada de campanha no Novo México. Ele riu quando perguntado sobre sua confissão na quarta-feira, durante uma coletiva de imprensa, de que não tinha lido o artigo escrito por Condoleezza Rice, sua nova secretária de Estado, para a revista "Foreign Affairs" em 2000, que estabelecia sua política externa.

"Eu não sei como vocês acham que é o mundo, mas muita gente não fica sentada lendo a 'Foreign Affairs'", disse Bush, rindo. "Eu sei que isto é chocante para vocês."

O presidente reconheceu que muitos iraquianos ainda consideram os Estados Unidos como uma força de ocupação, mas parou perto de endossar a visão de um crescente número de republicanos, de que o próprio tamanho da presença americana no Iraque está agravando a violência ao apresentar aos rebeldes um grande alvo.

"A pergunta fundamental que também acho que muitos iraquianos entendem -assim como eu- é como fazer para assegurar que os cidadãos iraquianos vejam as tropas americanas como ajudantes, não como ocupadoras", disse Bush. "O fato da presença da coalizão ser vista como uma força de ocupação permite que os rebeldes, os radicais, continuem a passar para as pessoas a imagem de que o governo realmente não é o governo delas, e que o governo é cúmplice na ocupação de seu país."

"Eu considero isto razoável", disse ele. "Eu também considero isto como uma esperança de que há um sentimento nacionalista, o 'Este é o meu país'. Para mim isto é um sinal positivo."

Mas Bush também notou "um certo realismo entre a liderança, pelo menos aqueles com quem falei, que dizem: 'Olha, há muito mais trabalho a fazer antes que estejamos prontos para andarmos por conta própria'". Ele disse que a recente proposta do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, de colocar partes mais calmas do país inteiramente nas mãos das tropas iraquianas era "certamente uma opção", mas que ainda não a discutiu com seu forte aliado.

Bush esteve acompanhado na entrevista por importantes assessores, que permaneceram em silêncio o tempo todo. Entre eles estavam Dan Bartlett, o conselheiro da presidência; Nicolle Devenish, a diretora de comunicações da Casa Branca; e Scott McClellan, o secretário de imprensa da Casa Branca.

O presidente se recusou a falar mais detalhadamente sobre seus planos para o Seguro Social, mas estava bem mais aberto sobre seus planos para o Oriente Médio. Por volta dos 35 minutos de entrevista, quando Bush parecia estar chegando ao fim de seus comentários sobre o futuro de israelenses e palestinos, McClellan interveio e disse: "Obrigado", indicando que a entrevista estava encerrada.

Mas Bush disse com firmeza: "Eu ainda não acabei", e continuou a descrever como as eleições iraquianas farão parte de uma onda inicial de democratização no Oriente Médio.

O presidente, que tem viagem marcada para a Europa no próximo mês, rejeitou a sugestão de que as relações com a Europa, particularmente com França e Alemanha, estão extremamente desgastadas após o racha em torno da guerra no Iraque. "Eu acho que estamos trabalhando bem em locais como o Afeganistão", disse ele. "Nós trabalhamos bem juntos no Haiti."

Ele acrescentou que "obviamente, nós tivemos um desentendimento em torno do Iraque", mas que os relacionamentos estão bem e apresentam o potencial de melhorar. "Eu aguardo ansiosamente para trabalhar com eles", disse ele.

Em uma discussão posterior sobre os poderes da presidência, Bush divergiu de comentários anteriores do vice-presidente Dick Cheney, de que uma das metas do governo era restaurar o poder do Executivo.

Ele disse que não ouviu os comentários de Cheney e que não sabia do que ele estava falando, mas disse que considerou os poderes da presidência "adequados" quando assumiu em 2001.

"Eu não lembro de nenhum exemplo onde tenha dito, 'Nossa, eu gostaria de ter mais poder'", disse Bush. "Eu senti que tinha bastante para exercer meu trabalho."

Ao ser perguntado se ao final de oito anos ele desejaria deixar a presidência mais poderosa do que como a encontrou, ele respondeu: "Eu não acho que vocês gostariam de uma presidência mais fraca".

Sobre se o governo adotava padrões menos rígidos para interrogatórios de suspeitos de terrorismo fora dos Estados Unidos, ele disse: "A tortura nunca é aceitável", acrescentando, "nem entregamos pessoas para países que praticam tortura".

Sobre sua posição de limitação da pesquisa de células-tronco a um punhado de colônias, ou linhagens, existentes, o presidente disse estar satisfeito com a forma como sua política está funcionando, mesmo enquanto Estados como a Califórnia promovem pesquisa privada que poderá aumentar a demanda por linhagens adicionais.

Ele disse que a "destruição da vida para criar vida não é ética" e que "quer isto aconteça no setor privado ou no setor público, isto não muda a ética".

Ele refletiu sobre as cerimônias de posse da semana passada, dizendo ter ficado "profundamente comovido com a presença do ministro-chefe Rehnquist (da Suprema Corte) no palanque", em um momento em que Rehnquist está lutando contra uma forma grave de câncer na tireóide.

"Foi, ao meu ver, um momento muito poderoso quando ele se esforçou e leu o juramento com verdadeira convicção em sua voz", disse Bush. "Eu fiquei muito emocionado com o fato dele ter se dado a este trabalho. Eu também achei que foi um sinal muito importante, em termos de continuidade do governo."

Posteriormente ele reconheceu que há certo risco quando o presidente dos Estados Unidos pede às pessoas que se levantem contra a tirania, porque os americanos poderão não estar dispostos ou capazes de intervir e ajudar um levante contra um governo repressor.

"Eu também levo em consideração o fato de que se as pessoas se erguerem em uma sociedade totalitária, elas poderão ser mortas", disse ele. "Assim, é tendo isto em mente que eu falo. Eu estou ciente dos riscos inerentes do confronto do movimento democrático com a vontade de tiranos que nunca respondem pelos seus atos. E este é o motivo de às vezes demorar para minar o poder da tirania."

Mas um presidente, ele disse, "muitas vezes não tem a chance de programar o timer" das revoluções democráticas. O que ele pode fazer, ele disse, é "falar claramente e estar ciente de que certas atividades podem apoiar tiranos e dar aos tiranos uma legitimidade que não merecem". Presidente dos Estados Unidos concede entrevista exclusiva ao NYT George El Khouri Andolfato

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