UOL Notícias Internacional
 

29/01/2005

Apatia de xiitas iraquianos pode provocar abstenção alta nas eleições no país

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá, Iraque
Lynsey Addario/The New York Times

Guarda protege autoridade curda que tenta ir a Kirkuk; o trânsito entre as províncias foi restrito
Faltando menos de 48 horas para as eleições nacionais daqui, Nasir Al Saedy, um dos clérigos xiitas mais populares da cidade, apareceu perante uma multidão de 20 mil iraquianos e não proferiu nenhuma palavra sobre as eleições.

Al Saedy falou de fé, humildade e do poder de Deus. Mas sobre as eleições de domingo, as primeiras aqui em mais de 30 anos, nada. Para a multidão de iraquianos que veio até a Mesquita Al Muhsin para escutá-lo, o silêncio de Al Saedy foi alto e claro. E prenunciou um comparecimento de eleitores pouco animador em muitas partes do Iraque.

"Se Deus permitir, eu não vou votar", disse Ziad Qadam, um desempregado de 27 anos, após as orações de sexta-feira na Mesquita Al Muhsin, em Sadr City. "Nossos líderes religiosos não disseram para votarmos."

Al Saedy é um acólito de Muqtada Al Sadr, o clérigo xiita rebelde, e seu sermão na sexta-feira pareceu responder a pergunta sobre a posição de Al Sadr na nova ordem democrática do país.

Al Sadr, que liderou uma série de levantes contra as forças americanas no ano passado, tem enviado sinais conflitantes sobre suas intenções políticas. Nos meses que se seguiram após os americanos terem esmagado sua revolta, Al Sadr lançou discretamente um grupo de candidatos para a Assembléia Nacional, ao mesmo tempo em que dizia para seus seguidores que planejava boicotar as eleições.

Líderes xiitas acreditam que por alguns meses Al Sadr tem praticado um jogo duplo; apoiando candidatos políticos por um lado, e por outro insinuando um boicote para seus seguidores, como parte de uma estratégia calculada para maximizar sua força política.

Até agora, os líderes xiitas que vinham tentando atrair Al Sadr e seu vasto número de seguidores ao processo democrático esperavam que ele diria aos seus seguidores para desistirem da rebelião e votarem.

O silêncio de Al Sadr, e de seguidores leais como Al Saedy, sinaliza que ele decidiu apostar contra a eleição. Al Sadr aparentemente quer os benefícios de fazer parte do processo democrático, ao mesmo tempo em que o condena publicamente para seus seguidores que não o apóiam.

A reticência em relação às eleições de domingo na mesquita xiita de Al Sadr foi repetida do outro lado da cidade em um grande templo sunita: a Mesquita Uum Al Qura, quartel-general da Associação dos Sábios Muçulmanos, o grupo sunita que também pediu para que os iraquianos fiquem em casa no dia da eleição.

Lá, o sermão foi sobre fé e responsabilidade, sem nenhuma palavra dedicada às eleições de domingo.

De muitas formas, a apatia dos seguidores de Al Sadr é mais preocupante para os líderes iraquianos e autoridades americanas. Animados com a derrota militar do Exército Mahdi de Al Sadr no verão, eles estavam confiantes de que Al Sadr se deslocaria para o centro político. Nos sermões nas mesquitas por todo o Iraque, ele tem zombado continuamente de tais expectativas.

Al Sadr, que tem apenas 30 anos, comanda um número imenso de seguidores em todo o país, particularmente nos cortiços xiitas em Basra e Bagdá. O eleitorado xiita representa a maioria dos eleitores no Iraque, e os líderes xiitas esperam que estes eleitores, incluindo os seguidores de Al Sadr, ajudem a colocá-los pela primeira vez no poder político do país.

Nem mesmo os pedidos do mais alto líder religioso do país, o grão-aiatolá Ali Al Sistani, que declarou que votar era um dever religioso de todos os iraquianos, parece ter sensibilizado Al Sadr e seus fiéis.

"O aiatolá Sistani tem suas posições políticas, e nós temos as nossas", disse Ahmed Al Kauai, um clérigo que assistiu ao sermão da sexta-feira em Bagdá. "Nós não votaremos."

Por todo o Iraque, o assunto das eleições dominou os sermões em muitas mesquitas, enquanto prosseguia a violência visando atrapalhar a votação. O governo iraquiano e as forças americanas aumentaram seus esforços para proteger os iraquianos que votarão no domingo.

Por todo o dia, jatos americanos sobrevoaram as cidades, de prontidão para atacar os rebeldes. A primeira noite das três de toque de recolher teve início às 19 horas, enquanto soldados iraquianos começavam a fechar as principais vias públicas em muitas cidades, na esperança de conter o que temem que será uma nova onda de carros-bomba.

Na manhã de sexta-feira, um par de carros-bomba atingiu o bairro de Doura, no sul de Bagdá. No primeiro, a polícia abriu fogo contra um carro que se aproximava, fazendo com que se incendiasse, mas a explosão que se seguiu matou quatro policiais. Mais tarde, um segundo carro-bomba explodiu perto de uma escola que será usada como local de votação.

Os rebeldes começaram a atacar as escolas por todo o país, já que serão usadas como locais de votação. Os guerrilheiros provocaram explosões em três escolas em Bejii, uma cidade predominantemente sunita no norte do Iraque, informou a agência de notícias "The Associated Press" na sexta-feira.

Em Ramadi, soldados americanos encontraram os corpos de quatro homens iraquianos, todos com um tiro na cabeça, que acreditam ser membros da guarda nacional iraquiana. Os oficiais disseram não saber se os homens encontrados na sexta-feira são os mesmos quatro que foram seqüestrados na cidade no dia anterior. Os americanos os encontraram espalhados na estrada na vizinha Tamin, a sudoeste do centro da cidade.

Os líderes iraquianos reivindicaram um grande sucesso em seu esforço para desbaratar o grupo liderado pelo terrorista jordaniano Abu Musab Al Zarqawi. Eles disseram que capturaram três importantes membros do grupo de Al Zarqawi, incluindo Salah Suleiman Al Loheibi, descrito como o chefe do grupo para operações em Bagdá.

Qassim Daoud, ministro de Estado para segurança nacional, disse aos repórteres que Al Loheibi se encontrou mais de 40 vezes com Al Zarqawi nos últimos três meses. Os dois outros homens capturados foram Anad Mohammed Qais, descrito como conselheiro militar de Al Zarqawi, e Ali Hamad Yassin Al Issawi.

Barem Saleh, o vice-ministro das Relações Exteriores, disse que seu governo está próximo de capturar ou matar o próprio Al Zarqawi.

"Nós estamos próximos de eliminar Al Zarqawi, e nós nos livraremos dele", disse Saleh aos repórteres.

Al Zarqawi, que recebeu o crédito por vários ataques sangrentos contra as forças americanas e civis iraquianos, declarou que a experiência democrática do Iraque é uma afronta ao Islã. Em uma mensagem postada na Internet nesta semana, ele alertou os iraquianos a ficarem distantes dos locais de votação, os chamando de "centros de ateísmo e vício".

Mesmo assim, fora as garantias dos líderes iraquianos, não se sabe quão importantes realmente são os militantes, ou se a captura deles diminuirá a insurreição. Os líderes iraquianos já alegaram antes ter capturado importantes membros do grupo de Al Zarqawi, mas sua campanha assassina persiste.

Cinco soldados americanos morreram na sexta-feira em três ataques separados, três quando o comboio em que estavam atingiu uma bomba de estrada a oeste de Bagdá. Outro soldado ficou ferido neste ataque.

Os rebeldes começaram a empregar bombas mais sofisticadas contra os veículos americanos; neste mês, uma bomba de estrada matou sete americanos que estavam viajando em um veículo blindado de transporte.

Uma bomba de estrada matou outro soldado americano e feriu outros três ao sul de Bagdá. Na sexta-feira, outro soldado americano morreu baleado no norte da cidade, disseram as forças armadas.

O destino de outros dois soldados americanos, a tripulação de um helicóptero Kiowa que caiu ao sul de Bagdá, é desconhecido, assim como a causa da queda. A queda do Kiowa ocorre dois dias depois da queda de um helicóptero Super Stallion dos marines, a oeste de Bagdá, que resultou na morte dos 31 soldados a bordo.

Mas se as eleições ficaram de fora do sermão na Mesquita Al Muhsin, elas encheram outras mesquitas ao redor de Bagdá na sexta-feira, às vezes de forma surpreendente.

Na Mesquita Bouratha, no norte de Bagdá, o xeque Jalal Al Sajhir, que também é um candidato xiita à assembléia nacional, disse aos seus seguidores para irem às urnas no domingo, independente do medo.

"O dia de nossa vitória será o domingo", disse Al Sajhir para cerca de 1.000 pessoas reunidas diante dele. "Nós vamos mostrar aos terroristas que seus carros-bomba não são mais fortes que nossa crença."

Al Sajhir pediu para as mulheres iraquianas votarem, e que vençam não apenas seus temores da violência, mas também seus maridos.

"Dêem suas vozes, mesmo se isto for recusado por seus maridos", disse Al Sajhir.

E mesmo alguns clérigos sunitas pediram aos seus seguidores para votarem. Rompendo com a maioria dos clérigos sunitas, que pedem pelo boicote das eleições, um clérigo de uma das mesquitas mais antiamericanas na cidade disse aos seus seguidores para votarem no melhor candidato.

"A Assembléia Nacional acontecerá", disse o xeque Moayed Al Adami, imã da Mesquita Abu Hanifa no bairro sunita de Adhamiyah, segundo a agência de notícias "France Press".

Al Adami pareceu se referir à perspectiva de domínio xiita, o que, ele sugeriu, só poderá ser combatido indo às urnas.

"Nossos direitos foram lesados", disse Al Adami. "As eleições devem beneficiar a todos e não a apenas um grupo ou partido." Clérigos nem citam o pleito nas apinhadas cerimônias religiosas George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host