UOL Notícias Internacional
 

29/01/2005

Estado mais rico da Bolívia busca independência

The New York Times
Juan Forero

Em Santa Cruz, Bolívia
Líderes do Estado afluente de Santa Cruz, motor econômico do país, comemoraram importante vitória em sua luta pela autonomia regional, na sexta-feira (28/1), com a nomeação de uma assembléia provisória para preparar uma estrutura legal que traga maior independência. O movimento pela autonomia, nascido de protestos públicos neste mês contra aumentos nos preços do combustível, foi a última crise a abalar o governo cronicamente fraco do presidente Carlos Mesa.

Para acabar com os protestos constantes desde o aumento dos preços do diesel subsidiado, no dia 30 de dezembro, o governo de Mesa concordou com duas das principais demandas feitas pelos líderes do movimento pela autonomia. Uma permite que os eleitores escolham o governador do Estado, atualmente nomeado pelo presidente.

A outra adianta para junho um referendo pelo qual os habitantes dirão se querem a autonomia, que provavelmente será aprovado. Apesar de não anular completamente o aumento do preço do diesel, como tinham exigido os líderes, Mesa abaixou-o ligeiramente. No final da tarde de sexta-feira, dezenas de milhares de pessoas se reuniram para celebrar em um comício.

"Estamos contentes porque satisfizemos os desejos das pessoas. Hoje, nós tivemos uma vitória histórica e a derrota de um Estado centralizador", disse Carlos Dabdoub, neurocirurgião e ex-ministro da saúde, à frente do movimento pela autonomia.

Por enquanto, as concessões do governo desarmaram o que tinha se tornado a mais séria crise nos 15 meses de presidência de Mesa, autor e jornalista que lutou para satisfazer a maioria nacionalista das terras altas, antiglobalização, e os líderes pró-capitalismo aqui das planícies do Estado de Santa Cruz.

No entanto, alguns analistas políticos advertiram que, ao ceder, Mesa fortaleceu os líderes de Santa Cruz, que querem maior independência regional, e os líderes da população indígena, que querem a nacionalização de firmas estrangeiras e menos reformas de mercado.

"É um governo que cedeu a todas as pressões", disse Álvaro Garcia, sociólogo em La Paz, capital, que foi assessor do mais temível líder indígena do país, Evo Morales. "É um governo que está apenas interessado em sobreviver, então reage à pressão. Isso é perigoso."

O equilíbrio frágil ainda pode fracassar. O predecessor de Mesa, Gonzalo Sanchez de Lozada, foi forçado a sair em meio a protestos violentos, em outubro de 2003. A possibilidade do governo frágil de Mesa colapsar alarma os EUA, que se preocupam que o caos no país signifique uma revitalização do tráfico de drogas. É igualmente uma preocupação para outros países andinos, também abalados por violentos protestos contra a globalização nos últimos anos.

A última concessão de Mesa foi feita depois que sua decisão de aumentar o preço do diesel em 23% e da gasolina em 10% gerou greves em El Alto, cidade indígena. Mesa cortou os aumentos de combustível e cancelou um contrato que o Estado tinha com uma empresa francesa distribuidora de água malquista em El Alto.

Os moradores de Santa Cruz, entretanto, não se acalmaram. Aumentaram suas próprias greves contra o aumento dos combustíveis, de olho em um prêmio maior: forçar o governo a apressar o movimento para a autonomia fiscal e política.

"Não acreditamos no governo central", explicou Branko Marinkovic, gerente geral de um conglomerado familiar e líder de uma federação empresarial.

Até agora, Mesa conseguiu segurar ao máximo a violência e manter seu país unido, negociando com os grupos políticos divergentes e dogmáticos. O presidente continua popular e aplacou as forças antiglobalização mais determinadas aprovando, no ano passado, um referendo que poderá criar uma lei dando ao Estado muito maior controle da indústria de gás e de petróleo.

No entanto, Eduardo Gamarra, boliviano diretor do Centro de Caribe e América Latina da Universidade Internacional da Flórida em Miami, disse que Mesa continua cronicamente fraco e incapaz de fazer decisões duras. Com poucos aliados no Congresso Boliviano e sem forte influência sobre as forças de segurança, o governo de Mesa parece cada vez mais paralisado, disse Gamarra.

"Ele espera as coisas ficarem muito ruins porque não quer usar a força e não quer insultar ninguém", disse Gamarra, que fala com Mesa de vez em quando. "Então, ele é empurrado contra a parede e se rende."

Depois da concessão de Mesa ao Estado de Santa Cruz, comitês cívicos nos Estados de La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosi, todos com grandes comunidades indígenas, encaminharam propostas para eleições diretas para governador, que atualmente é nomeado. Enquanto isso, grupos opostos à autonomia ou aliados às organizações que cultivam coca prometeram aumentar seus protestos.

Aqui, nesta cidade de 1,4 milhão de habitantes, na beira da Amazônia, a revolta contra Mesa cresceu. Líderes civis observam com preocupação enquanto grupos de índios revoltados vencem batalha após batalha, tornando a maioria indígena uma força temível.

Alguns dizem que Mesa desviou-se tanto para a esquerda para agradar a oposição que a Bolívia se dirige para uma ruína econômica.

"São abertamente comunistas", disse Marinkovic, referindo-se a membros do governo de Mesa. "É assim que começa, devagar. Não se faz revoluções bolcheviques. Faz-se pouco a pouco."

Muitos aqui discordam dessa afirmativa, ao menos em público. Os empresários de Santa Cruz dizem temer que os movimentos indígenas de esquerda possam, com o tempo, dominar a Bolívia e ditar os termos no Estado ferozmente independente.

Essa sensação levou os habitantes do Estado, chamados crucenos, a procurarem maior controle sobre suas finanças e governo. Santa Cruz é sub-representada no Congresso e paga mais em impostos do que recebe do governo central.

Os crucenos darão um grande primeiro passo na direção da autonomia em junho, quando devem aprovar o referendo.

Devem também votar para governador, a ser aprovado e nomeado por Mesa. Dessa forma, os crucenos poderão escolher seu líder sem contrariar a constituição.

A estrada para maior autonomia continuará longa e complicada, já que os regulamentos e leis que governam os impostos e os gastos terão que ser modificados. Entretanto, o atual governador, Carlos Hugo Molina, reconheceu a direção que Santa Cruz estava tomando e renunciou na quinta-feira.

"Não quero ser um obstáculo", disse em conferência com a imprensa. Aumento no preço dos combustíveis detonou clamor por autonomia Deborah Weinberg

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