UOL Notícias Internacional
 

29/01/2005

Israel reduz ações militares na Palestina em resposta aos esforços de paz de Abbas

The New York Times
Steven Erlanger

Em Jerusalém
Rina Castelnuovo/The New York Times

Palestinos aguardam para atravessar barreira mantida por soldados de Israel na Faixa de Gaza
Na resposta mais significativa de Israel até o momento às novas políticas palestinas contra a violência, as forças armadas do país ordenaram nesta sexta-feira (28/01) que seu exército suspenda as operações ofensivas na Faixa de Gaza e as reduzam acentuadamente na Cisjordânia.

O exército foi ordenado a suspender a prisão e morte de militantes palestinos procurados a menos que representem uma ameaça imediata à vidas israelenses, a remover um número não especificado de bloqueios de estrada na Cisjordânia, para facilitar a circulação, e a reabrir todas as três passagens para a Faixa de Gaza.

As ordens do chefe do Estado-Maior das forças armadas, o general de exército Moshe Yaalon, foram dadas horas depois da polícia palestina ter concluído sua disposição por toda Gaza, encarregada de deter ataques contra assentamentos e civis israelenses.

As medidas levaram o primeiro-ministro Ariel Sharon a comentar na noite de terça-feira: "As condições agora estão propícias para permitir que nós e os palestinos obtenhamos um avanço histórico nas nossas relações".

Yaalon ordenou que o exército suspenda as operações "pró-ativas" em Gaza, para permitir que as forças de segurança palestinas se posicionem "e assumam a responsabilidade pela cessação dos ataques terroristas".

Qualquer operação para matar militantes terá que ser autorizada pelo próprio Yaalon com base em "uma ameaça imediata de células terroristas ativas", ou o que os israelenses chamam de "bombas ativadas".

As ordens atendem em parte aos pedidos do novo presidente palestino, Mahmoud Abbas, que tem tentado negociar um cessar-fogo de longo prazo com os grupos militantes palestinos como a Jihad Islâmica e o Hamas.

Como sinal de um desafio potencial a Abbas, o Hamas se saiu muito bem nas eleições municipais realizadas na quinta-feira em Gaza, refletindo a revolta popular com o que é visto como a corrupção na Autoridade Palestina e um amplo apoio ao histórico do Hamas de luta contra os israelenses.

Tanto o Hamas quanto a Jihad Islâmica estão exigindo um acordo de cessar-fogo formal de Israel e a libertação de centenas de prisioneiros palestinos -resultados que poderão vir de uma reunião entre Abbas e Sharon, que poderá ocorrer antes de meados de fevereiro, disseram autoridades israelenses.

Muhammad Dahlan, um aliado de Abbas, ex-chefe de segurança em Gaza e uma figura poderosa na nova liderança, saudou o anúncio de Israel.

"É uma medida encorajadora que deverá facilitar a conclusão de um acordo de cessar-fogo", disse ele. O ministro da Defesa de Israel, Shaul Mofaz, deverá se encontrar com Dahlan no domingo para coordenar os esforços de segurança e para discutir a transferência da responsabilidade aos palestinos em algumas das cidades da Cisjordânia. Será o primeiro encontro de nível ministerial em quase dois anos.

"Eu conheço Dahlan há 15 anos", disse Mofaz em Londres. "Há uma química entre nós."

Nos próximos dias os Estados Unidos deverão anunciar um comitê de coordenação de autoridades israelenses, palestinas e americanas para lidar com as queixas de ambos os lados de violações dos acordos de segurança, disse um alto funcionário israelense na sexta-feira.

O comitê representará uma volta do papel de mediação americano, abandonado após o fracasso dos acordos de Oslo e o fim do governo Clinton. A idéia de um comitê foi apresentada a israelenses e palestinos por William J. Burns, o secretário-assistente de Estado para assuntos do Oriente Próximo, e representará outro passo visando afastar os israelenses do processo unilateral de tomada de decisão.

"Sharon percebeu que se a Autoridade Palestina tomar tais medidas, ele não poderá perder a oportunidade oferecida para a construção de um melhor relacionamento", disse um alto funcionário israelense. "Esta é a primeira vez em anos que o exército está dando uma resposta positiva aos palestinos.

Nós sabemos que Arafat se foi, que Abbas é um líder diferente e que ele deve ser encorajado por nós, e seu povo precisa ver os resultados tangíveis de sua eleição."

Sharon também reconhece que a paz é popular, disse outro funcionário israelense, notando que uma grande manifestação contra o plano de Sharon de retirar os colonos de Gaza está marcada para segunda-feira.

"Sharon precisa de medidas da Autoridade Palestina para convencer os israelenses de que os colonos estão errados", disse o funcionário. "Todos aqui querem que esta calma continue e estão animados com Abbas, e não querem que isto seja arruinado pelos colonos. Sharon vê a direita contra ele, mas uma contratendência das ruas o ajudaria."

O envolvimento americano, coordenado com o Egito, tem sido importante para o recente aquecimento, apesar de frágil, das relações entre palestinos e israelenses.

A nova secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, parte na próxima semana para a Europa, Israel e Cisjordânia após se reunir com um conselheiro de Sharon, Dov Weissglas, em Washington. O presidente Bush disse que quer ver um Estado palestino independente quando deixar o cargo.

A eleição de Abbas, que se opõe à violência contra Israel e pede por negociações, deu a Washington mais argumento para estimular Israel a responder às preocupações palestinas. O vice de Burns, David M. Satterfield, disse em um discurso em Washington que Israel deve cumprir suas obrigações segundo o plano chamado de roteiro para a paz e encerre as atividades dos colonos nos territórios ocupados, porque elas impedem a aplicação do princípio de dois Estados para dois povos.

Ele expressou satisfação com as ações de Abbas, mas disse que Abbas deve confrontar todos aqueles que continuam no caminho do terrorismo. "A oportunidade existe para seguir adiante, mas o sucesso continua sendo uma proposta incerta", disse Satterfield.

Autoridades israelenses também pediram cautela, dizendo que Sharon insistirá para que Abbas desmonte o Hamas e a Jihad Islâmica, confisque suas armas e destrua suas fábricas de foguetes antes de iniciar quaisquer negociações políticas. Abbas quer atrair os militantes, não combatê-los. Assim, o atual otimismo pode naufragar.

Ainda assim, foi um dia bastante movimentado. Em outro gesto israelense para Abbas, Jihad Massimi, um membro das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa e um ex-comandante de política em Nablus, foi libertado de uma prisão israelense a pedido da Autoridade Palestina.

Sharon também deverá aceitar uma recomendação do exército para remover dois altos funcionários de segurança palestinos da lista dos mais procurados de Israel: Taufik Tirawi, comandante das forças de inteligência palestinas na Cisjordânia, e Rashid Abu Shubak, um aliado de Dahlan que o sucedeu como chefe da segurança preventiva em Gaza.

Também espera-se que Israel permitirá a retomada da pesca em águas profundas na costa de Gaza. Em Gaza, o Hamas venceu em 10 das 25 cidades e aldeias da faixa, conquistou o controle de sete dos conselhos locais, incluindo três dos maiores, e 77 das 118 cadeiras em disputa. A facção Fatah de Abbas conquistou três conselhos e 39 cadeiras, e os independentes conquistaram três cadeiras. O comparecimento dos eleitores foi de mais de 80%.

A votação reflete o amplo apoio em Gaza ao Hamas, que fornece à população empobrecida ajuda, serviços de saúde, escolas e creches --serviços que a caótica Autoridade Palestina não conseguiu prestar.

Mas um alto oficial militar israelense disse que os resultados não são particularmente importantes, dada a influência dos clãs locais que apoiaram chapas de candidatos. A votação esteve mais ligada a assuntos locais do que com questões de política nacional, disse o oficial.

Mais importante serão as eleições legislativas por toda a Cisjordânia e Gaza em 17 de julho.

Na sexta-feira, em Beit Hanun, no norte de Gaza, Enshira Hamad, cujo marido é um policial da Autoridade Palestina e cujo filho, Luai, de 25 anos, foi morto em combate contra Israel, disse que ela votou no Hamas.

"Eles não são corruptos, e não há nepotismo", disse ela. "Eles escolheram o caminho do Islã. Eles me ajudaram durante esta intifada, financeiramente e com alimentos. Eles não diferenciam. Se você for Fatah, pobre ou mártir, eles lhe ajudarão."

Em dezembro, em 26 eleições para conselhos na Cisjordânia --que tem 350 conselhos-- o Fatah conquistou 12, o Hamas conquistou oito e os independentes os demais. Ocorrerão mais eleições locais nos próximos meses. Forças do país suspendem a prisão e a morte de palestinos George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host