UOL Notícias Internacional
 

30/01/2005

Esperando por violência, iraquianos se preparam para votar

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá, Iraque
Funcionários eleitorais preparavam no sábado os locais de votação para a primeira eleição nacional neste país em mais de 50 anos, enquanto soldados americanos e iraquianos se posicionavam por todo o país em preparação a uma possível onda de violência dos rebeldes, que prometeram sabotar a votação de domingo.

A polícia e os soldados iraquianos, apoiados em vários locais por tropas americanas, levantaram barreiras nas principais cidades das regiões norte, sul e central do Iraque, afastando praticamente todos os veículos e pedestres das ruas. Helicópteros de ataque e caças americanos sobrevoavam as cidades, e os funcionários eleitorais cercaram os locais de votação, a maioria escolas, com cercas de arame farpado.

As autoridades iraquianas previram que 8 milhões dos 14 milhões de eleitores aptos votarão no domingo, um comparecimento de cerca de 57%. Mas com os rebeldes ameaçando matar os iraquianos que votarem e explodir os locais de votação, e com a maioria dos líderes da minoria sunita do país pedindo o boicote, tal declaração, feita pela Comissão Eleitoral Independente iraquiana, parece mais uma manifestação de esperança do que uma previsão.

O comparecimento e uma realização tranqüila da eleição são considerados como um grande teste da meta do governo Bush de plantar um governo democrático no coração do Oriente Médio, e para suas esperanças de estabilizar este país e eventualmente levar para casa 155 mil soldados americanos. Bush, em seu discurso semanal de rádio no sábado, disse que espera que os rebeldes farão todo o possível para impedir a votação, porque eleições livres "exporão a falta da visão deles para o Iraque".

A eleição é um dos vários marcos pretendidos pelos líderes iraquianos e autoridades americanas para estabelecer um Estado democrático aqui, após a destruição do governo de Saddam Hussein na primavera de 2003. Os eleitores iraquianos elegerão uma assembléia nacional de 275 membros, que ficará incumbida de redigir a Constituição permanente do país. Após tal tarefa, que será concluída em outubro, os eleitores escolherão uma assembléia nacional com mandato pleno em dezembro.

Os eleitores iraquianos também elegerão legislativos provinciais, e os curdos no norte votarão em candidatos para o governo regional que foi estabelecido após a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991.

Com soldados e policiais ocupando as ruas, o país passou por um dia relativamente tranqüilo no sábado. Um homem-bomba matou cinco pessoas, incluindo uma criança, em um ataque contra um prédio da polícia na cidade de Khanaqin, próxima da fronteira iraniana. Um combate entre soldados iraquianos e rebeldes ocorreu na Rua Haifa, uma das vias mais perigosas no centro de Bagdá. Os rebeldes atacaram pelo menos sete locais de votação de Dohuk, no norte, até Basra, no sul.

Os líderes do país, alguns dos quais, como o primeiro-ministro Ayad Allawi, também candidatos, se mantiveram estranhamente silenciosos, não emitindo nenhum apelo de última hora para que os iraquianos votem. Tal tarefa foi deixada a cargo da Comissão Eleitoral Independente iraquiana, cujos milhares de funcionários têm trabalhado desde o outono passado nos preparativos.

"Tudo está pronto, a segurança está implementada e todo o material foi levado aos centros de votação", disse Fareed Ayar, um funcionário da comissão eleitoral. "Agora nós estamos pedindo para que o povo iraquiano vote."

As eleições abrem caminho para a ascensão da maioria xiita do Iraque ao poder político pela primeira vez na história do país. Governados há muito tempo pela minoria sunita, os xiitas devem comparecer em grande número no domingo, estimulados em parte pela proclamação do grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais poderoso líder xiita do país, de que votar é dever religioso de todo xiita iraquiano.

O entusiasmo para votar entre os xiitas encontra o extremo oposto na minoria sunita iraquiana, cuja maioria dos líderes pediu pelo boicote das eleições. Apesar de alguns líderes iraquianos esperarem que os sunitas participarão em grande número em algumas partes do país, os líderes sunitas disseram no sábado que a combinação de apatia e intimidação, particularmente nas províncias de maioria sunita de Anbar e Nineva, provavelmente manterá a maioria dos eleitores em casa.

Ghazi Al Yawar, o presidente do Iraque e chefe de uma grande tribo sunita, disse no sábado que ele espera que a maioria dos sunitas não votará, mas que ainda assim o governo espera que a maioria dos eleitores registrados vá às urnas.

A perspectiva de um amplo boicote por parte dos sunitas e outros levanta a possibilidade de que os resultados das eleições serão considerados ilegítimos. Alguns iraquianos disseram que, neste caso, as eleições empurrarão o país na direção de uma guerra civil em grande escala.

Havia sinais agourentos de que o domingo poderá ser violento e caótico. A polícia em Bagdá relatou que 11 viaturas da polícia foram roubadas nos últimos 10 dias, levantando a possibilidade de que os rebeldes poderão realizar ataques contra os locais de votação -como prometeram- utilizando um dos poucos tipos de veículos que serão autorizados a circular livremente nas ruas no domingo. Homens mascarados também foram avistados recentemente retirando coletes à prova de bala da polícia dos locais de atentados com carros-bomba, e as agências de segurança têm alertado os jornalistas e outros a ficarem atentos a falsas barreiras guarnecidas por rebeldes disfarçados.

Apesar dos milhares de soldados e policiais nas ruas, a segurança ao redor de muitos dos locais de votação parecia inadequada e improvisada. Muitas das barricadas consistiam apenas de pouco mais que uma fileira de tijolos, latas e caixas de papelão.

O comparecimento incerto dos eleitores iraquianos parecia ser a questão mais irritante, assim como a mais importante, pairando sobre as eleições. A votação de domingo ocorre após um período incomumente truncado de campanha, no qual muitos dos mais de 7.400 candidatos políticos do país estiveram assustados demais para se apresentarem em público ou até mesmo para se identificarem, particularmente nas regiões norte e central do país, onde a insurreição é mais forte.

Rebeldes mataram candidatos. Eles distribuíram panfletos dizendo que lavarão as ruas com o sangue dos eleitores. Muitos eleitores disseram que irão às urnas sabendo muito pouco sobre aqueles em quem votarão.

Sob tais circunstâncias, tentar prever o comparecimento do eleitor, ou mesmo o interesse no processo democrático, parece fútil. Mas parece traçar as linhas étnicas e sectárias.

No bairro de maioria xiita de Sadr City, por exemplo, muitos iraquianos, particularmente os seguidores de Al Sistani, disseram que enfrentarão as bombas e os disparos para votar.

"Eu votei sob Saddam -era uma farsa e agora estou pronto para uma eleição de verdade", disse Mohsin Abdul Ruda, um lojista de 50 anos que vice na rua na qual uma escola de meninas servirá como o local de votação no bairro. "Todos no bairro votarão."

Enquanto ele falava, três altas explosões ecoaram nas proximidades.

"Não há medo", disse Ruda, acenando sua mão. "Apenas os covardes terão medo de votar."

Do outro lado da cidade, na escola secundária Obqa Ibn Nafi, os iraquianos passaram grande parte do dia realizando os preparativos finais para a votação em uma sala de aula adaptada. Quatro cabines de votação de papelão estavam viradas contra a parede, e havia duas urnas de plástico transparente para os votos. Na lousa estavam instruções da aula de geografia da semana passada.

Aqui também os funcionários eleitorais previam um bom comparecimento, mesmo entre os sunitas do bairro.

"Estas pessoas que estão tentando impedir a eleição, elas são agentes do diabo", disse Ziad Mohi, um dos funcionários eleitorais. "Mas as pessoas virão mesmo assim."

Grande parte do otimismo vinha das ruas de Basra, onde a situação relativamente melhor da segurança permitiu aos candidatos estimular o entusiasmo pela eleição.

No mercado na Rua Independência chamado de "Dois Cavalos", o proprietário, Jouad Latif, e seus clientes disseram que desafiarão a violência e votarão. "Inshalla", ou "Deus permita", disse Latif, "nós iremos ao centro de votação".

Tanto ele quanto um de seus clientes, Majit Jumma, disseram que votarão na Lista da Coligação dos Iraquianos Unidos, uma chapa altamente religiosa conhecida como o partido da vela acesa devido ao seu logotipo, por ser apoiado pelos clérigos locais.


Apesar de toda a sua determinação em votar, Latif disse que verificará as ruas antes de decidir se levará toda a sua família junto ou se irão um de cada vez. Ainda assim, ele disse que não ficará em casa.

"Minha mãe é uma mulher de 80 anos, mas ele votará", disse Latif. George El Khouri Andolfato

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