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30/01/2005

EUA deveriam aprender lição com o Império Britânico

The New York Times
Anna Bernasek

Em Nova York
Em 1897, a Grã-Bretanha comemorou o jubileu de diamante da rainha Vitória com cerimônias grandiosas, festas luxuosas e desfiles que se estenderam por quilômetros. Tudo isso foi um tributo a uma monarca que reinou durante 60 anos, mas também uma celebração do poderio mundial e do sucesso ímpar da Grã-Bretanha. Nunca antes um império fora tão rico ou vasto, abrangendo um quarto da população e do território mundiais. Mas 50 anos depois o Império Britânico desapareceria.

Nenhuma memória sobrevive para comparar os discursos, as paradas e as comemorações que cercaram a posse do presidente Bush com as da época da rainha Vitória. Mas o tom triunfante do presidente em seu discurso de posse foi apenas um entre um número crescente de fatores que lembram as sombras de antigos impérios.

Hoje os Estados Unidos são o líder mundial inconteste em comércio e força política e militar. Como tal, enfrentam muitas das mesmas questões que preocuparam nações poderosas séculos atrás.

Obviamente, não estão destinados a passar exatamente pela mesma experiência que a Grã-Bretanha imperial ou a União Soviética, por exemplo. Mas a história das grandes potências, particularmente na era moderna, oferece lições que vale a pena se considerar para navegar no futuro.

Economistas e historiadores há muito tempo reconhecem a importância do equilíbrio nas prioridades de gastos de um país. Ao longo do tempo, essas decisões de gastos ajudam a determinar a trajetória da prosperidade e do poderio de uma nação. Um país pode enfrentar problemas, por exemplo, se consumir demais em gastos militares e privar sua economia de investimentos. Se esse padrão se prolongar, a economia desse país não será produtiva o suficiente para suportar novos gastos militares; em última instância, os militares vão enfraquecer e seu poder, declinar.

Em um livro de 1987, "The Rise and Fall of the Great Powers" [Ascensão e queda das grandes potências], Paul Kennedy, um professor de história de Yale, formulou o conceito desta maneira: "Sem um equilíbrio aproximado entre as exigências concorrentes de defesa, consumo e investimento, é improvável que uma grande potência mantenha sua posição por muito tempo".

O Império Britânico foi esmagado por seus gastos insustentáveis na Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Para a União Soviética, a Guerra Fria mostrou-se um excesso insuportável para sua economia planejada.

Hoje os Estados Unidos enfrentam opções difíceis entre as exigências concomitantes de segurança, consumo e investimento. No exterior, a guerra do Iraque se prolonga dolorosamente, enquanto outros conflitos potenciais espreitam no Irã e em outros lugares. Internamente, a privatização da Previdência Social poderia custar cerca de US$ 2 trilhões. E no comércio global são crescentes a ameaça externa à força de trabalho e a concorrência pelos lucros empresariais. Novas companhias sediadas na Ásia e outros lugares poderão um dia rivalizar com nossas corporações mais bem-sucedidas. Essa perspectiva torna premente a necessidade de mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento e educação. Colocando-se tudo isso contra o pano de fundo das dívidas já substanciais do país, fica claro que há necessidade de decisões duras.

Quanto àquelas lições práticas: para começar, nada dura para sempre. O eventual declínio dos Estados Unidos em termos relativos é inevitável. Mas administrar uma mudança gradual é profundamente mais desejável do que sofrer uma queda repentina.

Niall Ferguson, um professor de história de Harvard que escreveu extensamente sobre o Império Britânico, coloca desta maneira: "Existe uma grande diferença entre declinar nos próximos cinco anos e nos próximos 500 anos". "Creio que os americanos não gostariam de passar pelo que os britânicos passaram."

Evitar um declínio rápido tem a ver com escolher as próprias batalhas. Segundo Ferguson, as guerras entre quase iguais podem ser particularmente destrutivas. Se a Grã-Bretanha tivesse usado sua influência para evitar a Primeira Guerra Mundial, seu declínio posterior teria sido muito menos abrupto. Mas mesmo que fosse impossível evitar a guerra com a Alemanha, parece que a Grã-Bretanha superestimou seriamente suas probabilidades de alcançar uma rápida vitória estratégica. É um bom lembrete de que as ações militares estão entre as mais arriscadas que um país pode empreender. Até agora, as guerras contra o Iraque e o Afeganistão, países muito mais fracos, provavelmente não prejudicaram seriamente a posição dos Estados Unidos. Mas concluir o conflito no Iraque não se mostrou tão fácil quanto sugeriam as estimativas anteriores, e abrir uma frente no Irã ou em outro lugar poderia acrescentar dificuldades significativas.

Administrar um declínio potencial também exige saber o que a concorrência pretende. Isso não quer dizer que uma potência global não possa traçar seu próprio caminho, mas se ela ficar muito fora do ritmo dos rivais emergentes o equilíbrio de poder pode mudar.

Por exemplo, se os Estados Unidos continuarem a ser os maiores gastadores militares do mundo, enquanto seus rivais usam seus recursos para o crescimento econômico, as atuais vantagens americanas vão encolher com o tempo.

É claro, quando se trata de rivais o futuro é notoriamente difícil de prever. Durante anos, muitos comentaristas disseram que o Japão era a principal ameaça comercial. E muitas pessoas previram que o país logo eclipsaria os Estados Unidos. Isso não aconteceu. Hoje a China é provavelmente a mais popular candidata a próxima grande potência econômica e militar. Muitas estimativas sugerem que a economia chinesa poderá superar a americana dentro de 40 anos.

A história mostra que em longo prazo a política econômica tende a ser tão importante quanto a militar, quando se trata da segurança nacional de um país. Em curto prazo, os gastos militares podem ser sustentados por empréstimos (Grã-Bretanha) ou medidas autoritárias (União Soviética), mas no final as armas pertencem às economias que podem comprá-las.

Na verdade, uma grande potência que ignora sua economia pode se tornar seu próprio pior inimigo. Segundo Kennedy, quando as grandes potências foram ameaçadas de declínio, tenderam a aumentar seus gastos em segurança; em conseqüência disso, privaram suas economias dos investimentos necessários. Essa estratégia de curto prazo não pode ser sustentada, e às vezes a queda é abrupta.

No fim, os enormes empréstimos da Grã-Bretanha para pagar as duas guerras mundiais foram simplesmente demasiados para sua economia. No final da Segunda Guerra, a dívida externa britânica chegava a US$ 40 bilhões, praticamente o tamanho de toda a sua economia em 1948. "Os britânicos perderam seu império porque faliram", disse Ferguson. "Com uma potencial crise fiscal espreitando os Estados Unidos, isso deveria nos servir de lição." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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