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31/01/2005

Crônica: Adeus tralhas velhas, que venham novos amores

The New York Times
Irene Sherlock*

The New York Times
O "Dia de Trocar a Tralha" está quase chegando. É aquele em que conseguimos limpar e nos ver livres de todo aquele entulho que estavam guardados nos porões, garagens e pátios, para deixá-los ao relento, ali na calçada, para quem quiser. Claro que alguém sempre aparece e avalia que, apesar de todos os desgastes e das manchas, minha velha poltrona La-Z-Boy ainda tem uns anos de vida pela frente. Antes que você perceba, aquele cabide porta-casacos metálico envergado pelo seu ex-marido já foi catado por alguém que passou com uma caminhonete e o levou para um novo lar.

Pelo menos duas semanas antes desse anual "Dia da Tralha", geladeiras,
pratos, tabuleiros de jogos de salão, coleções de discos - coisas que
costumávamos chamar de "pertences" - começam a ficar alinhados na calçada, que nem órfãos à espera de adoção. Alguns moradores ainda colocam uns bilhetinhos para encorajar a "adoção": "Umidificador - Funciona" ou "Potente Cortador de Grama - Só Precisa do Botão de Partida".

Atualmente, no pós-divórcio, o meu universo de paqueras é assim. Nessa minha vizinhança, todos colocamos bilhetinhos eletrônicos com fotos, esperando que alguém interessante passe pela nossa calçada virtual. Até agora tenho sido exigente. Não me interessei por fumantes nem por adeptos de motocicletas, aviação, touradas, golfe, automobilismo ou parques de diversão. Eu evito os que se descrevem como "intelectuais" ou "O Homem Certo", ou os que querem começar uma família. Eu descarto especialmente os homens que se anunciam como "Cavaleiro Branco de Aluguel". Aos 53 anos, já não alugo mais cavaleiros brancos.

Muitos anúncios parecem banais, pouco originais e não exatamente
representativos do que são os anunciantes realmente. "Gosto de pôr-do-sol, de jantar fora e de me divertir". E quem é que não gosta?

Prefiro quem é honesto. Um carpinteiro de 55 anos se descreveu como "não muito alto, nem bonitão - cara comum procurando por garota comum". Aposto como a caixa dele ficou abarrotada de mensagens.

Ron e a maioria dos homens se descrevem como uns Adonis em busca de suas Afrodites. "Cara atraente, sarado, inteligente, criativo...", assim começa o anúncio dele. Em seguida, o que ele procura. "...procura mulher em boa forma, magra, estilo petite, de boa aparência, sarada, não-volumosa nem acima do peso". É assim a maioria dos anúncios masculinos.

Na verdade eu acabei ligando para o Ron, um inglês, porque no anúncio ele
também se descreveu como um "amante dos livros". Pelo telefone, me garantiu que era "incrivelmente boa-pinta", e começou a descrever sua própria personalidade em termos fulgurantes. Depois de dar as minhas informações básicas, revelei, de forma meio fraquinha, que eu era, bem, atraente. Eu não devo ter parecido muito convincente, porque ele quis que eu elaborasse mais, que eu me vendesse mais pelo telefone, assim como ele havia feito. Escute, Ron, finalmente lhe disse, não estamos na mesma página. Mandei ele de volta para a calçada.

Desde meu divórcio, provavelmente já mandei e-mails para centenas de homens e falei com dúzias deles. Tomei uns drinks e/ou jantei com alguns, e tive um encontro regado a café com um bombeiro hidráulico muito doce, que também é um poeta iniciante. Ele encara a hidráulica como uma arte doméstica, uma idéia intrigante que discutimos em várias conversas pelo telefone. O perigo dos anúncios pessoais, agora me dou conta, é que você se deixa seduzir pela facilidade que pode ser proporcionada pelas situações ao telefone.

Mas você não pode saber ao certo se a química funcionou até o momento do encontro físico. E quando eu finalmente encontrei o Poeta-Bombeiro
hidráulico nos degraus de um restaurante, mesmo eu querendo que a gente
desse certo - até para que meus problemas hidráulicos fossem resolvidos para sempre - rapidamente me dei conta que aquela história não iria acontecer.

Ele tinha aquele hábito irritante de limpar as mãos no guardanapo depois de cada mordida na torrada, que ele comia ruidosamente. Mas realmente tivemos um bom papo, e depois de um tempo parecia que estávamos de novo que nem pelo telefone. O Poeta-Bombeiro me falou do bom negócio que administrava, sobre os filhos que trabalhavam para ele. Podia dizer que era encantador e que já estava escrevendo seu próximo poema de amor.

Ah, dê uma chance a ele, minha cabeça dizia. Um homem bom, decente...
Mas não quero beijá-lo, é o que meu coração dizia.

Teve também o Professor, Ph.D. professor de química numa universidade
particular que compartilhava a custódia de seus dois meninos.

"Não quero me casar de novo", ele me disse na fila do cinema, no nosso
primeiro encontro.

Fui na frente, nos guiando pela sala escura até encontrar dois lugares para nós. "Não se preocupe", eu sussurrei. "Comigo você está seguro".

O que eu não disse ao Professor é que eu já havia me divorciado duas vezes. Isso é algo que a gente não conta a alguém num primeiro encontro - se quiser voltar a encontrar essa pessoa. Se for um divórcio... quase todo mundo entende. Já com dois divórcios é outra história. E não importa quão boa seja a história ("Era nos anos sessenta, eu era tão jovem..."), o fato é que por duas vezes eu jurei perante Deus que seria para sempre, e por duas vezes não foi.

Um colega me disse uma vez que parou de sair com uma mulher quando descobriu que ela havia se divorciado duas vezes. "Ela não era uma boa aposta, por que me importar?", ele disse.

É verdade: estatisticamente, não proporcionamos boas possibilidades. E nem preciso de um terapeuta para descobrir que estou meio apavorada, ou arrasada com qualquer outro problema.

Mas também tem aqueles dias onde acho que na verdade posso ter aprendido o bastante nesses últimos anos, e que da próxima vez poderei ser uma companheira melhor. Sim, eu tenho a capacidade de encontrar o cara certo. Ou pelo menos a capacidade de evitar os caras errados do mundo.

Foi o que aconteceu com o Professor. Talvez ele não fosse exatamente o Sr. Cara Errado, mas levei uns quatro encontros para descobrir que tínhamos pouco em comum, com exceção do fato de nós dois trabalharmos no ensino superior.

Nesse fatídico quarto encontro, estávamos caminhando pela chamada trilha
azul no Parque Steep Rock, um trilha classificada como "levemente difícil", de acordo com o mapa na entrada do parque. Estávamos discutindo os revezes financeiros que vieram após nossos respectivos divórcios, que no meu caso incluíam dois maus investimentos em imóveis.

"É por isso que eu estou tão quebrada agora", eu disse, e aí fiz uma pausa para pegar um pouco de ar. Era um agradável dia de outono com nuvens de algodão enfeitando o céu. Logo na frente, a trilha seguia em direção a um caminho coberto por coníferas.

O Professor ajeitou o boné de beisebol na cabeça: "Você está sem dinheiro?" Eu tomei fôlego, e sorri. "Bem, talvez não tão dura assim". Expliquei que tinha despesas com empréstimos que contraí na faculdade e que meu dinheiro do plano 401 de aposentadoria estava empatado no mercado de ações. "Felizmente tenho minha casa", disse modestamente. "Mas hipotecada, sabe como é...."

De repente, uma sombra no rosto dele. Será que estaria reavaliando meu valor em potencial para ele? O homem sabia que eu era inteligente e que sabia cozinhar, mas será que ele estava pensando que eu só teria condições de acompanhá-lo em sua visita anual às Bermudas se ele pagasse minha viagem? O Professor, me parecia, estava cheio de pagar pelas viagens dos outros. Tinha crianças para sustentar, e claramente apreciava seu próprio estilo de vida, de profissional e solteiro.

Mal sabia ele que eu havia crescido na pobreza, que precisei me sustentar
por um bom tempo, e que por toda a minha vida adulta vim galgando os
patamares da classe média. Tive que lutar por coisas que para ele eram
garantidas, como educação e a casa própria. E eu nunca estive nas Ilhas
Bermudas.

Três dias depois, o Professor disse que estaria ocupado com os filhos por um tempo e que depois a gente se falaria. Ficamos ainda enrolando pelo telefone por um tempo antes de nos separarmos oficialmente via e-mail (se é que se pode dizer "separação" depois de apenas quatro encontros).

"Você é uma pessoa muito legal", começou assim o e-mail dele. "Mas não tenho certeza de que gostaria de estar namorando alguém agora".

"Não caio nessa", escrevi de volta. "Só me diga o motivo real".

"Não estou muito confortável com sua falta de planejamento", confessou ele. "Quero dizer, você deveria mesmo ter mais alguns bens".

Encarando a tela do computador, senti uma onda de náuseas. Planejamento? Bens? O tempo todo estava sendo submetida a uma consultoria financeira - e não a um romance?

Depois desse meu lance com o Professor, tirei uns quatro meses sabáticos, dando um tempo desse mundo dos encontros, e passei os finais de semana repintando minha sala.

Só recentemente tomei coragem para me apresentar de novo, e concordei em jantar com um homem de 48 anos que nunca tinha se casado. "Venha domar meu coração selvagem", assim começava o anúncio online dele.

"Gosto desse cara", disse depois a uma amiga. Quando mencionei a condição dele de solteirão histórico, ela ficou cabreira.

"Ih, solteirão de carreira". Ela detonou: "Bandeira vermelha para ele".

Não o conheço assim tão bem para julgar. Mas eu descobri que se ele está disposto a aceitar o meu passado de altos e baixos, estou mais que disposta a aceitar a vida estável dele. Quero conferir se "o que é comprado na loja realmente brilha mais que o usado".

Vários "Dias da Tralha" se sucederam, e fico feliz em informar que no último aproveitaram tudo o que eu tinha colocado na calçada, menos minha coleção de livros de cozinha light. Eu peguei alguns potinhos para flores e um velho e adorável dicionário rio Hudson acima. Colheita modesta esse ano. No ano passado me dei bem ao pegar um conjunto de cortinas de voile e um armário que ainda precisa de uma guaribada - um trabalho para o qual eu nunca encontro tempo. Talvez no ano que vem eu o devolva para a calçada, e me apareça algo de maior importância.

E assim correm os dias para todos nós: para mim, para Ron, para o Poeta
hidráulico e para o Professor, que nos colocamos nessa espécie de calçada cheia de anúncios pessoais, esperando que alguém por aí venha a se conectar com nossas 50 palavras e mensagens nervosas na secretária eletrônica. Se fossemos mesmo honestos, nossos anúncios diriam: "Meu coração foi despedaçado e estou assustada. Será que tem alguém aí que pode acreditar em mim?"

*Irene Sherlock é diretora na Universidade Estadual do Oeste de Connecticut, em Danbury, Connecticut. Essas crônicas dela podem ser ouvidas nos Estados Unidos, em programas de rádio pela rede pública National Public Radio. Marcelo Godoy

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