UOL Notícias Internacional
 

31/01/2005

Iraquianos comemoram democracia no país

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá, Iraque
Batool Al Musawi hesitou por um único instante.

As explosões já tinham começado quando ela se levantou da cama na manhã deste domingo (30/01). Os morteiros caíam e explodiam sucessivamente em torno da cidade, sacudindo as paredes e fazendo com que as janelas vibrassem.

Por um momento, Musawi, uma fisioterapeuta de 22 anos, achou que seria muito perigoso comparecer às urnas.

"Foi então, quando ouvia as explosões, que me passou pela cabeça que os insurgentes são fracos, têm medo da democracia e estão perdendo", contou Musawi, na Escola Primária Marjayoon, o seu local de votação. "Assim, chamei o meu marido e os meus pais, e fomos todos votar juntos".

Nesta parte de Bagdá, em Karada, um baixo de classe-média tipicamente xiita, milhares de iraquianos pareceram ter feito um cálculo mental semelhante, e ficou claro que tomaram a mesma decisão. Eles compareceram em massa às escolas de primeiro e segundo graus que foram transformados em centros de votação, passando por cercas de arame farpado, enfrentando a ameaça dos carros-bombas, tudo para aproveitar a tão aguardada oportunidade de ajudar e empurrar o país para a direção que desejam.

Tudo pareceu simples, e a facilidade com que os iraquianos marcaram as suas cédulas e as depositaram nas urnas, e a tranqüilidade com que se aglomeraram nos centros de votação, traduziam um desejo há muito reprimido, e que agora pôde se manifestar livremente.

Se havia dúvidas com relação à capacidade dos cidadãos iraquianos comuns compreenderem os primeiros princípios da norma democrática, e quanto ao seu desejo de se autogovernarem após décadas de tirania, tais dúvidas pareceram ter se evaporado nas urnas de Karada.

Durante todo o dia, as bombas continuaram explodindo, sendo ouvidas dos locais de votação. Na maioria das vezes, os iraquianos sequer se deram ao trabalho de levantar a cabeça após os estampidos, tão acostumados estão com a violência e tamanha é a sua imersão no momento democrático.

"Você está ouvindo isso? Está ouvindo as bombas?", perguntou Hassan Jawad, um funcionário da Justiça Eleitoral que trabalhava na Escola de Segundo Grau Líbano, após o estrondo causado pela explosão de uma peça de artilharia. "Não nos importamos. Entende? Não nos importamos".

"Todos precisamos morrer", argumentou Jawad. "Se eu morrer por isto, pelo menos estarei morrendo por algo que vale a pena".

E Jawad voltou ao trabalho, ajudando uma mulher iraquiana a se dirigir à urna.

Do lado de fora dos centros de votação, o processo eleitoral teve um efeito transformador, fazendo com que as ruas de Karada, normalmente sombrias e taciturnas, virassem o cenário de uma festa. Com o tráfego de veículos proibido na cidade, os iraquianos andaram pelas ruas rumo aos locais de votação e esperaram do lado de fora, conversando, rindo e fazendo piadas, de uma maneira que raramente vista nestes dois meses de ocupação e guerra. Os pais olhavam os filhos que jogavam futebol nas ruas. Homens e mulheres caminhavam juntos.

Um dos principais candidatos a primeiro-ministro, Adil Abdul Mahdi, caminhou pela principal rua de Karada sem proteção especial. Ele geralmente se movimenta em público dentro de um carro blindado e dotado de vidros à prova de balas.

"Que a paz esteja convosco!", gritou ele aos iraquianos.

A manhã começou tomada por uma sensação de tensão e incerteza, com tropas norte-americanas e policiais iraquianos empunhando seus fuzis e encarando as pessoas de forma ameaçadora.

Os primeiros iraquianos a aparecerem nas ruas também pareciam tensos. Eles não sorriam e nem respondiam a acenos. Mas com o decorrer do dia, mais e mais eleitores tomaram as ruas, e um clima mais leve pareceu ganhar força. Perto do meio-dia a principal rua de Karada estava cheia de pessoas que votaram e que ainda iam votar.

Alguns iraquianos, ao saírem das urnas, digitavam números em seus telefones celulares e pediam aos amigos que comparecessem. Alguns batiam nas portas dos vizinhos e tiravam-nos de suas camas. Homens idosos passavam em cadeiras de rodas. As mulheres vieram em grupos, ficando nas filas com as suas longas túnicas negras que vão da cabeça aos pés.

A multidão, que encheu as ruas de Karada de xiitas, cristãos e até mesmo sunitas, surpreendeu os próprios iraquianos. Quando Ehab Al Bahir, capitão do exército iraquiano, chegou à Escola Primária Marjayoon, ele se preparou para ser alvo de ataques dos insurgentes. Os tiros de morteiro foram disparados, como ele esperava, mas os eleitores iraquianos também compareceram, algo que ele não acreditava que acontecesse.

Jamais esperei o comparecimento de tanta gente", confessou Bahir, balançando a cabeça e olhando para a longa fila de iraquianos em frente à escola. "Estou encarregado do policiamento em 30 locais de votação, e todos estão dizendo a mesma coisa. Centenas de pessoas estão saindo de casa para votar. Recebi a notícia que a um desses locais já compareceram mil pessoas".

Enquanto ele falava, Rashid Majid, 80, um homem bem vestido, abriu caminho entre os guardas e entrou pelas portas da escola.

"Saiam da frente", gritou Majid, apressado. "Eu quero votar".

Apesar da quantidade de candidatos - os eleitores podiam escolher entre 111 -, a conversa em Karada girava menos em torno de quem poderia vencer do que do próprio ato de votar. E enquanto alguns poucos iraquianos diziam saber exatamente como a democracia poderia acabar com a violência, eles pareciam certos de que começou uma era nova e mais decente.

"Agora temos liberdade, direitos humanos e democracia", disse Majid. "Convidaremos os insurgentes a fazerem parte do nosso sistema. Se eles aceitarem, nós lhes daremos as boas vindas. Caso contrário, os mataremos".

Mas nem todos os iraquianos participaram das festividades ou da votação. O comparecimento foi baixo nos bairros da capital de maioria sunita, como Azimiyah e Gazalia. Até mesmo em Karada, alguns iraquianos não participaram das eleições que, segundo eles, lhes foi imposta pelos norte-americanos.

"Não é o medo que me impede de votar, mas as eleições em si", afirmou Immad Muneer, 50, sentado na calçada na companhia de um amigo. "Os candidatos eleitos não serão capazes de exigir que as tropas estrangeiras saiam do nosso país. Serão fantoches movidos por outras pessoas".

Mas, para a maior parte dos iraquianos de Karada, a eleição de domingo pareceu o oposto das votações montadas no passado por Saddam Hussein. Se fato, os 34 anos do reinado de terror de Saddam pareciam estar presentes em todas as conversas mantidas nos centros de votação.

Uday Al Rubaie, um motorista de táxi de 27 anos, que já foi condenado a morte por ter distribuído panfletos religiosos xiitas, se recorda da eleição de 2002, quando os iraquianos tinham que votar no "sim" ou no "não" com relação à permanência de Saddam no poder. Rubaie conta que, na ocasião, chegou atrasado para votar, apenas para descobrir que funcionários das seções eleitorais já tinham marcado "sim" para ele. Hussein alegou ter recebido 104% dos votos.

Quando a votação começou no domingo, Rubaie andou duas horas para ter uma chance de depositar a sua cédula na urna. Ele entrou na Escola Primária Marjayoon, limpando o suor da testa.

"Veja este suor", disse. "Vim de muito longe". Cerca de 60% dos eleitores comparecem às urnas em pleito histórico Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host