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31/01/2005

Pais usam blogs para contar as agruras de criar filhos

The New York Times
David Hochman

The New York Times
O problema estomacal que atingiu a família Allen de Redmond, Washington, neste mês, certamente foi recebido com muita brincadeira. Quase uma hora depois de Jaxon, 5, apresentar seus primeiros sintomas tenebrosos, sua mãe já estava fazendo seu relato satírico do "Festival de Vômito 2005", em seu blog na Internet, Catawampus. Na hora da cama, depois do vírus ter derrotado Neve, 7, Veda, 3; e Luka, 18 meses, Papai entrou na Internet para digitar a sua versão do dia insano em seu blog, o Zero Boss. E a vovó Bunny logou-se poucos dias depois, com um tratado de 1.000 palavras chamado "A Gripe do Inferno", em seu site, Bunny Beth's Bargains.

A ocupação mais ingrata do mundo, criar filhos, nunca inspirou tanta narrativa. Para a geração que deu luz à televisão de realidade, parece não haver uma história de criança (não importa quão mundana ou escatológica) que não mereça ser narrada. Aproximadamente 8.500 pessoas estão escrevendo blogs sobre seus filhos, disse David Sifry, diretor executivo da Technorati, empresa em San Francisco que acompanha os blogs. Isso é mais do que o dobro que havia no ano passado.

Apesar de ser impossível dizer se o leitor de Good Housekeeping, em 1955, gravaria os sons de seus filhos em www.myperfectchild.com se a Internet tivesse chegado um século antes, é difícil imaginar competiria com Ben MacNeil, que fez uma crônica de cada soneca, mamadeira e troca de fralda (3.379 da última vez que chequei) de sua filha de um ano e meio, no Trixie Update (trixieupdate.com).

Os pais de hoje -mais velhos, mais estabelecidos e habituados a expressar suas emoções- podem ser especialmente equipados para documentar a vida de seus filhos, mas, em geral, são mais propensos a reclamar e se maravilhar com suas próprias vidas. O blog de bebês, em muitos casos, é um templo online da auto-absorção parental.

"As pessoas se casam e depois têm filhos, mas estão acostumadas a ser o centro da atenção", disse Jennifer Weiner, cujo Weblog Snarkspot, de maternidade cândida (jenniferweiner.blogspot.com) gerou seu romance, "Little Earthquakes", a história de quatro novas mães. Os blogs, disse ela, são um "grito primordial que diz: 'Ei, eu tenho um filho, mas também estou aqui."

Daniel Siegel, psiquiatra na faculdade do Centro para Cultura, Cérebro e Desenvolvimento da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e co-autor de "Parenting-From Inside Out" (A paternidade de dentro para fora), disse que o que está sendo expressado nesses sites "é o desejo profundo, adquirido com a evolução, de ser visto, algo que os pais vivenciam o tempo todo". Ele explicou: "Você quer ser reconhecido não só pelo bebê cuja fralda você está trocando, mas pelo mundo."

Com um novo blog surgindo a cada 4,7 segundos, de acordo com Technorati, não surpreende a existência de blogs de pais, além de namoro, política e a vida no escritório. Mas o que os torna interessantes é como parecem ter se tornado parte da experiência da paternidade propriamente dita.

Heather Armstrong, de Salt Lake City, diz que seu blog, Dooce.com, salvou sua sanidade, ou até sua vida. Quando começou, em fevereiro de 2001, Dooce era uma coleção de anedotas sobre a vida de solteira de Armstrong em Los Angeles. Ele continha assuntos provocativos como "A Forma Correta de Odiar um Emprego" e "Querida Cachorra que Furou a Fila na Minha Frente na Cantina". Depois que alguém denunciou o blog de Armstrong para a diretoria de sua empresa, em 2002, em uma mensagem de email não identificada, ela foi prontamente demitida. "Dooced" entrou para o Urbandictionary.com como um termo para "perder seu emprego por algo que você escreveu em seu blog, diário online, site da Web, etc."

Um ano depois, Armstrong casou-se e voltou para o Utah, onde deu a luz a uma filha, Leta. Depois, foi internada com severa depressão pós-parto. Suas confissões daquela época, em textos comoventes, geraram milhares de respostas, que, segundo ela, ajudaram-na em sua recuperação.

Agora, cerca de 40.000 pessoas entram para ler sobre os esforços de Armstrong para tirar a chupeta da filha e sua preocupação em não falar palavrões na frente de Leta. Como a maior parte dos pais blogueiros, Armstrong aproveita quando a criança está dormindo, depois que a babá chega ou tarde da noite para usar o computador. Ela disse que escreve ao menos 15 horas por semana. "Dooce provavelmente salvou minha vida", disse ela. "Os textos e a voz que eu tinha me permitiram que segurasse parte da Heather antiga, original, algo que ser mãe e a depressão não podiam tomar."

É um tema recorrente. Os pais nunca aguardaram tanto e pensaram tanto antes de terem filhos, mesmo assim é comum expressarem surpresa e algumas vezes ressentimento sobre a realidade pouco glamorosa de se criar uma criança.

"Honestamente, nunca tive ilusões sobre a maternidade", disse Eden Marriott Kennedy, que tinha 37 anos quando teve seu primeiro filho e agora escreve sobre ele em Fussy.org. "Você se acostuma com seu jeito. Até a criança chegar, você não sabe como ter um filho pode ser uma experiência terrível e desumanizadora. O blog é um lugar onde tudo isso pode ser liberado."

Expor o lado feio da paternidade não é uma coisa nova. Livros como "Operating Instructions: A Journal of My Son's First Year" (Instruções de operação: um diário do primeiro ano de meu filho, de Anne Lamott) e "Mother Shock: Loving Every (Other) Minute of It" (O choque da mãe: adorando cada segundo minuto, de Andréa J. Buchanan) deixaram claro que nem tudo são flores na vida das mães. O que é notável é a experiência inspirar tantas pessoas a escreverem e lerem a respeito.

"Se há alguma questão sobre paternidade por aí, alguém já está escrevendo a respeito", disse Julia M. Moos, editora do Poynter Institute, organização de formação em jornalismo em St. Petersburg, Flórida, e editora do Dot Moms (roughdraft.typepad.com/dotmoms). Seu site tem links para mais de 500 blogs de mães e cerca de 100 de pais.

MacNeil, do Trixie Update, disse não entender porque mais de 1.000 pessoas por dia visitam seu site da Web ("Fui até reconhecido no shopping certa vez", disse ele), mas seus motivos são claros. "Os pais vêm tendo filhos há milhares de anos, mas esta é a primeira vez para mim", disse ele. "Em sua forma mais simples, o blog me ajuda a mapear o vazio."

Como nunca publicar o privado foi tão recompensado quanto hoje, um número considerável de pais espera que seus blogs atraiam a atenção de editores de livros. Allen disse que espera que seu Zero Boss (www.thezeroboss.com) o ajude a vender o manuscrito que escreveu sobre ser pai, o que talvez não seja uma idéia tão absurda.

No início do próximo ano, a HarperCollins está planejando publicar "The World According to Mimi Smartypants" (O mundo segundo Mimi Smartypants, já disponível no Reino Unido), uma compilação de textos da blogueira popular que escreve em smartypants.diaryland.com. "Se você seguisse apenas o que escrevem as revistas e livros sobre filhos, ou o que os parentes dizem, você se acharia um louco neurótico que está fazendo tudo errado", disse ela, que se recusou a revelar seu nome verdadeiro. "O blog deixa os pais mais relaxados."

Mas a questão é, à custa de quem? Como se sentirá a criança, digamos, daqui a 16 anos, quando seu namorado encontrar toda sua existência no Google?

"Fundamentalmente, as crianças não gostam de ser o centro da expressão dos pais, mas mesmo assim eu faço isso", disse Ayelet Waldman, cujo blog, Bad Mother (bad-mother.blogspot.com), descreve sua vida em casa com seus quatro filhos e marido, Michael Chabon, o romancista. Waldman, que também é escritora, fez um blog sobre o queixo recessivo e quadril torto de seu bebê Abie e a emoção das crianças de voltarem às aulas depois das férias de inverno.

"Um blog como esse é narcisismo em seu desdobramento mais obsceno", disse ela. "Mas é necessário. Os dias de uma mãe são consumidos pelas necessidades de outras pessoas. Essa é a recompensa por levar e trazer crianças da ginástica a semana toda." Deborah Weinberg

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