UOL Notícias Internacional
 

01/02/2005

Conglomerados competem pela restauração de um teatro histórico no Harlem

The New York Times
Robin Pogrebin

Em Nova York
Pomeroy/Washington Architects/NYT

Projeção do interior do Teatro Victoria
Durante anos, o Loew's Victoria Theater, que já foi uma elegante casa de vaudeville e suntuoso cinema, padeceu, um tanto decadente, na rua West 125th, no bairro negro do Harlem.

A poucas portas de um famoso vizinho, a casa de espetáculos negros Apollo Theater, o Teatro Victoria passou por várias fases, daquela em que foi celebrado como um dos maiores e mais belos da cidade até a fracassada fase em que foi um cinema multiplex de cinco salas, que abriu em 1987 para fechar logo dois anos depois.

Desde então, as colunas jônicas do teatro, com as rosetas em terracota, ficaram ali, meio decadentes, e o palco permaneceu vazio, com exceção de eventuais pequenas apresentações teatrais ou serviços religiosos. Recentemente na fachada estava um anúncio de uma liquidação de lingeries, que acontecia ali perto.

Agora, sete equipes formadas por construtores, hoteleiros e organizações culturais competem para fazer do local um grandioso e novo complexo abrangendo casas de espetáculos, hotéis e residências. O estado de Nova York, que é o proprietário do prédio, está sabatinando os concorrentes e espera chegar a uma decisão no mês de março.

A companhia Empire State Development Corp., que está avaliando as propostas juntamente com a Harlem Community Development Corp., sua subsidiária, não quis identificar os concorrentes nem quis descrever suas propostas.

Mas documentos obtidos pelo jornal The New York Times mostram que o estado de Nova York decidiu reduzir a concorrência a sete grupos. De acordo com os termos estaduais estabelecidos, cada grupo concorrente relacionou um estabelecimento artístico como integrante de sua proposta, como a casa Bottom Line, o clube de jazz que recentemente fechou as portas em Greenwich Village; ou o Museu do Jazz do Harlem, que ainda procura uma sede.

Também integram os grupos concorrentes hoteleiros como Starwood e Ian Schrager; os arquitetos Fox & Fowle, Davis Brody Bond e Lee Harris Pomeroy; e as empresas de construção Related Companies e Apollo Real Estate Advisers, que construíram juntas o imponente edifício do Time Warner Center.

"Essa é uma grande oportunidade para o Harlem e, mais especificamente, para a região da rua 125, que agora se destina a ainda maiores empreendimentos", disse Derek Q. Johnson, presidente da construtora Integrated Holdings, que entrou em parceria com a Related.

Projetos de restauração em edifícios históricos são sempre motivo de controvérsia, e o projeto do Victoria não foge a essa regra. Embora o teatro tenha sido apontado como possível indicado ao Registro Nacional de Locais Históricos, não é um prédio tombado - e o estado não requer que o teatro de linhas neoclássicas seja preservado, com sua decoração e os telhados ornados.

"Isso será um tapa na cara da comunidade", disse o conselheiro municipal Bill Perkins, que representa algumas áreas do Harlem. "Vai haver uma certa briga em torno disso, posso lhe garantir".

"Esse é um teatro histórico, e gostaríamos de ver que as propostas reconhecem essas características", disse o conselheiro. "A questão da preservação é compatível com a questão do desenvolvimento".

Num encontro realizado sexta-feira na empresa Harlem Community Development Corp., a questão da preservação foi levantada. Enquanto todas as propostas incluem a reforma da fachada, apenas duas especificam a restauração dos interiores.

Michael Henry Adams, historiador especializado no Harlem e autor do livro "Harlem: Lost and Found(Achados e Perdidos", (Monacelli Press, 2002), está preocupado: "Seja o que for que aconteça, eu gostaria que o novo projeto incluísse os belos interiores desse histórico teatro do Harlem".

Adams destacou em particular a ante-sala elíptica no segundo andar, a decoração em baixo-relevo na cúpula do teatro, o grande lobby espelhado e os candelabros dourados, de bronze e cristal.

Com seus 2.394 lugares, o Victoria foi concebido em 1917 por Thomas W. Lamb, que construiu dúzias de teatros da cadeia Loew's no mundo inteiro e vários teatros da Broadway. "Não deveriam permitir a demolição", acredita o historiador Adams. "Quando for reformado, será um dos teatros mais distintos de Nova York".

Nos anos mais recentes, o bairro do Harlem tem visto uma explosão em seu desenvolvimento comercial, com novos prédios como um hotel Marriott a um shopping, o Harlem USA, ambos localizados na crucial rua 125. Os construtores dizem que ainda há demanda por mais quartos de hotéis e também por apartamentos para abrigar profissionais conceituados.

Mas algumas pessoas que vivem e trabalham no Harlem estão preocupadas, porque essa chegada do progresso em ampla escala poderá comprometer as características das redondezas e desagradar aos seus antigos habitantes.

Perkins argumenta que o projeto de restauração do Victoria --na verdade, não só ele, mas todo esse booom da construção comercial no Harlem-- não deve ser confundido com algo tipo "o Harlem está na moda de novo". "Atualmente, a `renaissance' é definida pelo valor imobiliário", diz o conselheiro Perkins. "Esse não é um termo adequado para se descrever um renascimento intelectual, cultural e educacional".

"O que essas pessoas querem é que sejamos gratos porque novos negócios estão sendo fechados por aqui", alertou Perkins. "Esse é o caminho mais fácil para eles botarem abaixo um prédio e levantarem outro".

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h59

    -1,12
    3,122
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h08

    0,65
    64.177,77
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host