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01/02/2005

Jovens sul-africanos lutam pela glória no iatismo

The New York Times
Michael Wines

Na Cidade do Cabo
Jeffrey Barbee/The New York Times

Marcello treina no litoral sul-africano para o America's Cup, torneio mundial de iatismo
Muito antes do nascimento de Marcello Burricks, a polícia do apartheid da África do Sul arrancou sua mãe e a família dela da casa deles em Simon's Town, uma cidade antiga no Cabo da Boa Esperança, e os enviou para um gueto empobrecido chamado Slangkop.

O pecado deles era ser de raça mestiça em um local reservado para brancos. Slangkop foi onde Marcello cresceu, onde seus pais se separaram, onde ele andou com gangues e viu homens morrerem nas ruas. Quando ele tinha 8 anos, um colega de classe o esfaqueou. Quanto ele tinha 14, ele foi preso por agredir um professor do colégio.

Hoje, Marcello Burricks, 19 anos, ajuda a marear a vela mestra em um iate de competição de 25 metros na deslumbrante Table Bay desta cidade. As únicas pessoas que ele quer bater são Larry Ellison, Ernesto Bertarelli e uma série de outros bilionários na próxima America's Cup.

"Agora eu tenho a oportunidade", disse ele. "E a estou agarrando com ambas as mãos."

O esporte é uma fonte poderosa de histórias inspiradoras. Aqui está outra: um magnata iconoclasta de frota mercante organiza a primeira equipe da África nos 153 anos da America's Cup. Desprovido de patrocinadores de bolsos gordos, ele compra um iate de segunda mão que terminou longe da faixa de premiação duas Copas atrás.

Ele recruta uma equipe heterogênea, improvável, composta de um grupo de jovens negros e mestiços, alguns dos quais das áreas mais barra-pesada da África do Sul, que ainda mal se barbeavam quando subiram em seus primeiros barcos. Os profissionais consideraram carta fora do baralho o iate ultrapassado e a tripulação diversa dos sul-africanos.

E então, de forma ainda mais improvável, eles começaram a terminar provas à frente de alguns dos melhores iatistas do planeta.

Ninguém espera que a Equipe Shosholoza, como os sul-africanos chamam a si mesmos, conseguirá um milagre e vencerá a próxima America's Cup, marcada para 2007 em Valencia, Espanha. Mas seus feitos já são milagrosos.

Ele despedaçaram a imagem do iatismo como reduto de executivos-chefe hiper-ricos e tripulações totalmente brancas. Ele levantaram a perspectiva deliciosa, apesar de remota, de que bilionários que desembolsam US$ 100 milhões ou mais nas disputas da America's Cup possam ser derrotados por um rival com um quarto do orçamento e com um marinheiro de 19 anos com cicatrizes de velhas lutas com facas. Eles atraíram um patrocinador corporativo, uma grande empresa alemã que injetou cerca de US$ 17 milhões na Equipe Shosholoza no mês passado, no momento em que o dinheiro estava acabando.

E então há o maior feito de todos: pegar um punhado de jovens com futuros nebulosos e mostrar que eles também podem enfrentar os melhores do mundo.

"Não é uma obrigação, mas todo mundo devia fazer algo por estes garotos, por estas pessoas", disse Salvatore Sarno, o executivo de empresa de frota mercante que está por trás da Shosholoza, que tira seu nome de uma velha canção dos trabalhadores africanos sobre lutar juntos por uma meta comum. "Eles foram roubados por uma centena de anos, até mesmo do direito de chamarem a si mesmos de homens. E agora nós temos que compensar."

Sarno, natural da cidade sul-africana de Durban e detentor de um sotaque italiano melodioso, é o primeiro a dizer que a Equipe Shosholoza está dando à sua tripulação não-branca uma chance, e nada mais. Como os brancos na tripulação, cada marinheiro deve provar seu valor para disputar uma America's Cup ou ser substituído por alguém melhor.

"Algumas pessoas me perguntam: 'Você está formando uma tripulação negra por motivos políticos?'" disse ele. "É ridículo. Não é verdade."

Ian Ainslie, um veterano de três Olimpíadas que é tripulante e estrategista da equipe, disse que a tripulação negra conquistou suas divisas. "Eu acho que muita gente na equipe estava cética e disse que poderíamos testá-los, mas que eles não seriam aprovados", disse ele. "E obviamente não foi o que aconteceu. Eles aproveitaram a oportunidade."

Isto não surpreende; habilidade no iatismo não está relacionada à cor da pele. Mas o iatismo, um esporte que exige dinheiro e tempo livre, não tem sido receptivo a não-brancos, que freqüentemente não dispõem de ambos. Em um século e meio, pouquíssimas equipes da America's Cup não foram exclusivamente brancas; os últimos não-brancos que participaram de uma tripulação vencedora navegaram 13 anos atrás, no America3. Nunca cerca de um terço da tripulação foi composta de não-brancos.

O fato da Equipe Shosholoza contar com sete em sua tripulação de 24 homens se deve em grande parte a uma aliança notável de Sarjo e Ainslie, seu amigo e companheiro de navegação por 15 anos.

Ao voltar das Olimpíadas de Atlanta em 1996, Ainslie queria uma distração, e a encontrou em um emprego de professor de geografia, matemática e estudos marítimos em um colégio local em Simon's Town. Lá ele conheceu Golden Mgedeza e Solomon Dipeere, dois negros de 15 anos de Kwa Thema, um subúrbio de Johannesburgo, cujas notas lhes valeram bolsas para estudar em Simon's Town.

Os dois foram cadetes navais no colégio Eureka, em Kwa Thema. A experiência marítima deles consistia apenas de remar uma canoa no Murray Park Lake, no sudeste da cidade. Sob a tutela de Ainslie em Simon's Town, eles começaram a praticar iatismo e a persuadir iatistas do iate clube local a permitirem que trabalhassem como tripulantes durante as provas de fim de semana.

Enquanto isso, Ainslie adicionou ao seu treinamento para as Olimpíadas de Sydney de 2000 aulas gratuitas de iatismo para jovens negros e pobres dos subúrbios ao redor de Simon's Town -"por diversão", disse ele, "uma vez por semana".

O boca a boca logo o deixou repleto de jovens ansiosos por um dia em um barco. Marcello Burricks morava do outro lado da península de Simon's Town, mas a notícia também chegou até ele. "Meu pai era um pescador e meu avô foi baleeiro", disse ele, "de forma que sempre estivemos próximos do mar". Aos 12 anos ele conseguiu entrar em uma categoria de iatismo destinada a garotos de 15 anos.

"Marcello veio até nossa escola e se tornou o sujeito mais entusiasmado", disse Ainslie. "Nós tivemos que encorajá-lo a também fazer parte de sua lição de casa, caso contrário ele ficaria navegando o tempo todo."

Entre em cena Arno, o magnata de frota mercante, que compartilhava o interesse de Ainslie em ajudar crianças pobres. Como fundador da Mediterranean Shipping Co., com sede em Genebra, a segunda maior transportadora de contâineres do mundo, ele patrocinava regatas anuais em Durban na qual competiam centenas de jovens marinheiros, que recebiam transporte e alojamento gratuitos.

Entre eles estavam protegidos de Ainslie, os jovens Golden, Solomon e Marcello, assim como outros dois adolescentes, Ashton Sampson e Sieraj Jacobs, marinheiros não-brancos mais experientes da área da Cidade do Cabo.

Sarno adotou os cinco, os transformando em tripulantes de seu próprio barco nas regatas de Durban. Ainslie os incentivou e também navegou com eles. Em 2002, Golden Mgedeza se tornou o primeiro tripulante negro a vencer uma das mais importantes disputas da África do Sul, a Lipton Cup, e foi eleito o iatista do ano pela revista "Sailing" da África do Sul. Eles disputaram em Moçambique; da Cidade do Cabo ao Rio; em Newport, Rhode Island, e outros lugares.

Sarno começou a falar sobre montar uma equipe para disputar a America's Cup. Ainslie disse que o considerou "louco".

"Eu disse: 'Sem chance. Nós não temos dinheiro para isto neste país. Nós precisamos tentar um projeto mais modesto'", disse Ainslie.

Determinado, Sarno convocou sua tripulação negra para uma reunião. "Eu prometo a vocês apenas uma coisa", ele disse para eles. "Vocês lamentarão 100 vezes se partirem e vierem comigo. Vocês não ficarão ricos, porque não temos dinheiro. Mas em 2007 nós iremos para Valencia, nós lutaremos, e um dia o presidente Mbeki olhará nos seus olhos, apertará suas mãos e dirá: 'A África do Sul está orgulhosa de vocês'."

"Todos se levantaram, vieram até mim, apertaram minha mão e então nos abraçamos. Foi fantástico. Aquela era a Shosholoza." O esporte ajuda a superar os ainda fortes traumas do apartheid George El Khouri Andolfato

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