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01/02/2005

Primeiro-ministro Ayad Allawi promete unir os grupos étnicos e religiosos do Iraque

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá
Um dia após as primeiras eleições livres do país em 50 anos, o primeiro-ministro interino Ayad Allawi disse nesta segunda-feira (31/01) que trabalhará para unir os grupos religiosos e étnicos do Iraque que competem entre si.

"Os terroristas agora sabem que não podem vencer", disse ele em sua primeira conferência com a imprensa depois que os iraquianos desafiaram ameaças de morte, morteiros e homens-bomba e votaram em massa no domingo.

"Estamos entrando em uma nova era de nossa história, e todos iraquianos --tendo votado ou não-- devem ficar lado a lado e construir seu futuro", disse Allawi, acrescentando: "Agora é a hora de trabalharmos juntos para que o mundo todo possa ver as capacidades deste grande país."

Abordando preocupações com um ressentimento sunita diante da provável vitória da maioria xiita, um dos maiores desafios do futuro governo do Iraque, Allawi disse: "A partir de hoje, vou começar um novo diálogo nacional, para assegurar que as vozes de todos iraquianos estejam presentes no próximo governo."

"O mundo todo está nos observando", disse ele. "Assim como trabalhamos juntos ontem, para pôr um fim à ditadura, vamos trabalhar juntos para construir um futuro brilhante --sunitas, xiitas, muçulmanos, cristãos, árabes, curdos e turcos".

A votação em áreas xiitas e curdas foi especialmente grande. No final do dia, as autoridades estimaram que a participação foi de mais de 60%. Nas áreas de maioria sunita, como Falluja e Mosul, onde a guerrilha é especialmente ativa e muitos líderes sunitas exortaram ao boicote, o número de eleitores pareceu substancialmente menor.

Mesmo assim, as autoridades eleitorais disseram que a votação em províncias dominadas por sunitas devem ter excedido as expectativas iniciais e pode ter chegado a 40% dos eleitores.

Em Mosul, uma cidade de maioria sunita que foi cenário de combates pesados nas últimas semanas, repórteres ocidentais viram filas na porta das seções eleitorais. Nas cidades dominadas por xiitas do Sul do Iraque e em grande parte de Bagdá, os postos eleitorais não pararam de receber levas de eleitores, ansiosos em dar pela primeira vez ao maior grupo do país seu verdadeiro poder político. O povo compareceu às urnas apesar dos incessantes ataques de insurgentes, que deixaram 35 mortos em nove atentados suicidas.

Em alguns postos de votação, o ambiente foi alegre, com os iraquianos celebrando suas recém conquistadas liberdades democráticas em festas de rua que, até as eleições, eram desconhecidas nesta terra assolada pela guerra.

Com o pôr-do-sol, alguns iraquianos correram para os centros de votação. Alguns funcionários eleitorais mantiveram as urnas abertas até mais tarde para eles. As autoridades disseram que até o final da semana deve-se ter um retrato mais preciso dos votantes, e que os resultados finais provavelmente demorarão mais.

Entre 111 partidos, os eleitores escolheram membros de assembléias das províncias assim como um parlamento nacional de 275 membros, que redigirá a constituição do país. Depois disso, haverá um referendo sobre a constituição, seguido por outra rodada de eleições, em dezembro.

Um grupo de candidatos que aparentemente se saiu bem foi a aliança Iraquiana Unida, uma grande coalizão de partidos xiitas reunida pelo grande aiatolá Ali Al Sistani, poderoso líder religioso do país. Segundo um alto assessor da aliança, o partido recebeu informações de autoridades americanas e britânicas de que parecia ter recebido mais de 50% dos votos.

A chapa de candidatos liderada pelo primeiro-ministro Ayad Allawi também parece ter se saído bem. O grande número de votantes parece ter corroborado a estratégia de fazer as eleições nesse início de ano, sob objeções de muitos líderes sunitas e diante da feroz insurgência. Essa estratégia, defendida pelo aiatolá Sistani e o presidente Bush, atraiu críticas de que dividiria ainda mais o país e que, de qualquer forma, os iraquianos não estavam prontos.

Em postos de votação pelo país, os iraquianos não só enfrentaram violência significativa para ir às urnas, mas também demonstraram que tinham consciência do que estava em jogo e sabiam o que queriam.

"Sentimos agora que somos seres humanos vivendo neste país. Agora sinto que tenho uma responsabilidade, tenho um voto. As coisas sairão bem se as pessoas nos deixarem fazer o que queremos fazer. Se deixarem o povo do Iraque decidir, as coisas vão melhorar", Muhammad Abdul-Ridha, 25, um ourives de Najaf, depois de colocar seu voto na urna.

O ambiente entre muitos líderes iraquianos e os responsáveis pela infra-estrutura eleitoral era de júbilo. Alguns disseram que o sucesso da votação, em uma nação tão traumatizada pela guerra e tirania, tinha erradicado a noção de que o povo iraquiano, ou, de fato, que o mundo árabe como um todo, era incapaz de cuidar de seu destino político.

"Estabelecemos os princípios sobre os quais uma democracia pode ser construída", disse Fareed Ayar, porta-voz da comissão eleitoral iraquiana.

Em muitas partes do país, a grande participação parece ter sido uma resposta à violenta campanha de sabotagem às eleições e às ameaças de insurgentes de matar os votantes.

Com o tráfego de automóveis proibido e forças americanas e iraquianas impondo um sistema de segurança especialmente rígido, os ataques de domingo foram efetuados em alguns casos por homens vestindo coletes explosivos, que correram para os centros de votação e explodiram.

Nas áreas xiitas e curdas, a estratégia claramente fracassou. Nos bairros xiitas de Bagdá, incluindo Sadr City, muitos iraquianos votaram ao som de explosões.

Em alguns casos, a violência parecia incitar os iraquianos. No bairro predominantemente xiita de Khadamiya, no norte do Bagdá, onde quase 100 pessoas foram mortas em um ataque terrorista no ano passado, a participação parece ter chegado a 80%.

Nas áreas sunitas, a situação foi mais variada. Com a maior parte dos líderes sunitas pedindo um boicote às eleições e os insurgentes prometendo matar os eleitores, as autoridades não esperavam alta participação nas três províncias iraquianas de maioria sunita.

A perspectiva de amplo boicote sunita tornou-se o aspecto mais preocupante das eleições para autoridades iraquianas e americanas. O temor era que uma grande participação de xiitas e curdos associada a um quase total boicote sunita pudesse acelerar a sensação de alienação dos sunitas e preparar o terreno para uma guerra civil.

Por outro lado, o comparecimento de sunitas às urnas seria considerado um grande golpe aos insurgentes, que alegam ter apoio popular, mas frequentemente usam de ameaças e violência para acovardar os sunitas.

As piores previsões pareceram se cumprir em algumas áreas do triângulo sunita, uma área ao norte e oeste de Bagdá, onde a intensidade da insurgência é maior. Na cidade de Baji, no Norte do Iraque, os funcionários das sessões eleitorais não compareceram. Em Ramadi, onde autoridades iraquianas montaram dois postos de votação fora da cidade, apenas 300 cédulas foram preenchidas, muitas delas por soldados e policiais.

Mas autoridades iraquianas e americanas ficaram convencidas de que o povo nas áreas sunitas votaria se pudesse e que a participação foi maior que esperada.

Nas semanas anteriores às eleições, as autoridades tomaram várias medidas extraordinárias para facilitar o voto nas áreas sunitas. Elas permitiram que os eleitores em algumas dessas áreas se registrassem no dia das eleições e votassem longe de seus bairros. Em algumas das aldeias menores em torno de Ramadi, muitos foram estimulados a votar, e houve falta de cédulas. Nos campos de refugiados em torno de Falluja, montados depois de batalhas muito intensas em novembro, as autoridades disseram ter recebido fluxo constante de eleitores.

"Em Anbar, o número de votos foi muito bom, comparado com nossas estimativas. Não esperávamos grande participação, mas vimos muitas pessoas esperando na fila", disse o porta-voz da comissão eleitoral, Ayar, sem especificar quais eram as estimativas.

Adnan Pachachi, ex-ministro de relações exteriores iraquiano e um dos mais proeminentes candidatos sunitas, disse ter recebido informes de que a participação de sunitas pode ter chegado a 40%. Se isso for verificado, será um verdadeiro repúdio à violência, disse ele.

"A insurgência foi exposta -ela não tem nenhum apoio popular", disse Pachachi. "Acho que essas eleições enfraquecerão a insurgência."

No entanto, em Mosul, cidade de maioria sunita e a terceira maior do país, os informes foram confusos e contraditórios. Algumas autoridades falaram que houve longas filas de eleitores nos distritos árabes da cidade; outros disseram que os insurgentes tinham conseguido afastar os eleitores.

Em novembro, mais de 4.000 policiais em Mosul deixaram seus postos quando foram atacados por insurgentes e, no início do mês, toda a comissão eleitoral da cidade renunciou.

Apesar de tudo, houve sinais de que sunitas em Mosul compareceram às urnas. Repórteres ocidentais voltando das patrulhas militares americanas nos bairros árabes da cidade disseram ter visto filas de eleitores nas portas das sessões.

Ayar disse que os informes iniciais sugeriam que a participação em Mosul parecia espelhar a da província de Anbar -muito maior que as expectativas.

Mesmo assim, houve sinais preocupantes de que, em algumas áreas dos distritos árabes de Mosul, os insurgentes estavam conseguindo amedrontar os eleitores.

"Jovens atiradores estão atirando nas ruas e nos telhados, só para assustar as pessoas", disse Khasro Goran, vice-prefeito de Mosul. "Tem um imame da mesquita pedindo que as pessoas não votem."

Mesmo que se cumpram as projeções mais otimistas de participação sunita, provavelmente o maior desafio diante do novo governo será persuadir os sunitas a entrarem para a política nacional.

No domingo, alguns dos mais proeminentes líderes xiitas iraquianos disseram que estavam preparados para fomentar a representação sunita no novo governo. Eles disseram que recrutarão um número de líderes xiitas para ajudar a escrever a constituição.

Nos dias antes das eleições, alguns líderes sunitas, inclusive aqueles que parecem ter proximidade com os insurgentes, indicaram um desejo de se unir ao esforço.

"Os xiitas formarão a maioria, mas há que haver uma presença proeminente dos sunitas no governo. Agora é hora de os xiitas exercitarem a política de Estado", disse Mowaffak Al Rubaie, assessor de segurança nacional do Iraque e confidente do aiatolá Sistani.

De muitas formas, o dia pertenceu aos xiitas iraquianos, maioria por tanto tempo reprimida que sofreu tratamento especialmente duro de Saddam Hussein. Nas cidades xiitas do Sul do Iraque, os eleitores não pararam de chegar, cheios de excitação.

Em Basra, a segunda maior cidade do país e predominantemente xiita, as explosões ecoavam pelas ruas. Mesmo assim, com o passar do dia, o número de eleitores não parou de crescer, e as autoridades locais começaram a aparecer para congratular os iraquianos.

Abdul Sahib Al Battat, chefe de eleições local, entrou no centro de votação da escola primária Ouro Preto seguido de um séqüito. Uma por uma, ele inspecionou as cabines de votação com detalhe militar.

Perguntado como tinha sido o dia, ele respondeu, em árabe: "Bekhair. Gebeer. Bekhair. Shamel." Em tradução livre: "Excelente. Grande. Excelente. Tudo isso."

Alguns iraquianos viram nas eleições uma vitória maior que a de 9 de abril de 2003, quando caiu o governo de Saddam. A de abril foi uma vitória americana e, apesar do alívio com a queda do tirano, muitos iraquianos achavam que nunca conseguiriam reconstruir a sociedade.

"As eleições foram uma vitória nossa", disse Rubaie, assessor de segurança. "Hoje, o povo iraquiano votou com seu próprio sangue."

John F. Burns contribuiu para este artigo de Bagdá; James Glanz de Basra; Edward Wong de Najaf e Christine Hauser de Mosul. Deborah Weinberg

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