UOL Notícias Internacional
 

02/02/2005

Migração negra, tanto escrava quanto livre

The New York Times
Felicia R. Lee

Em Nova York
A extraordinária amplitude de migrações afro-americanas --dos primeiros africanos que chegaram até o recente movimento de negros de volta ao Sul-- é o tema de um novo site na Internet e de uma exposição ligados a uma pesquisa recente, que poderá redefinir a história afro-americana, disseram estudiosos envolvidos no projeto, que foi anunciado nesta terça-feira (1/2) no Centro Schomburg para Pesquisa da Cultura Negra, no Harlem.

"In Motion: The African-American Migration Experience" (em movimento: a experiência da migração afro-americana), um projeto de três anos que custou US$ 2,4 milhões, provavelmente é a maior documentação das migrações de todos os descendentes de africanos na América do Norte, disse Howard Dodson, diretor do centro, parte da Biblioteca Pública de Nova York.

A mostra no Salão de Exposição do Centro Schomburg Center, que foi aberta na terça-feira, exibe muitas das imagens, mapas e música reunidas para o projeto. Mas as 16.500 páginas de ensaios, livros, artigos e manuscritos do projeto, assim como 8.300 ilustrações e 60 mapas, também estão disponíveis no site do centro (schomburgcenter.org) e poderão encorajar um diálogo nacional sobre a própria definição de afro-americano, disse Dodson, um historiador, em uma entrevista.

"Esta é uma história imensa", disse Dodson. "Isto servirá como catalisador de um repensamento contínuo de quem é a comunidade afro-americana. Pela primeira vez, aqui está um projeto que explora a diversidade extraordinária da comunidade afro-americana. Isto está organizado em torno de 13 migrações, duas delas involuntárias: o comércio doméstico de escravos e o comércio transatlântico de escravos."

Ampliar o estudo da migração além do comércio de escravos faz com que "você chegue a alguns pontos de vista bem diferentes", disse Dodson.

O dobro de africanos da região sub-Saara --cerca de 1 milhão-- migrou para os Estados Unidos nos últimos 30 anos do que durante toda a era do comércio transatlântico de escravos, disseram os organizadores do projeto.

O projeto está lotado de fatos esclarecedores. Ele mostra que nos últimos anos, o dobro de afro-americanos se mudou do Norte para o Sul do que do Sul para outras regiões. Entre 1995 e 2000, aproximadamente 680 mil afro-americanos se mudaram para o Sul e 330 mil partiram da região, que obteve um ganho de 350 mil.

E pela primeira vez, todos os elementos da diáspora africana --nativos da África, americanos cujos ancestrais eram africanos escravizados, afro-caribenhos, centro-americanos e sul-americanos de descendência africana, assim como europeus com raízes africanas ou afro-caribenhas-- podem ser encontrados nos Estados Unidos.

Isto vem acontecendo apenas nos últimos 15 anos e está promovendo uma visão bem mais ampla do termo afro-americano, disse Sylviane Diouf, uma historiadora que serviu como gerente de conteúdo para o projeto.

Além do site e da exposição, o projeto inclui um livro, "In Motion: The African-American Migration Experience", lançado pela National Geographic no mês passado, e um kit educativo "Black History Month" (mês da história negra), com planos de aulas e uma bibliografia.

"É realmente uma nova interpretação da história afro-americana", disse Diouf. "Nós estamos vendo a centralidade da migração na experiência afro-americana. O que estamos vendo agora com a nova imigração do Haiti, Caribe e África é uma nova diversidade, pessoas vindo com suas línguas, suas culturas, sua culinária."

Quintard Taylor, um professor de história americana da Universidade de Washington, em Seattle, que explorou 400 anos de migração no que atualmente é o Oeste dos Estados Unidos, disse que só o site do projeto abre novas possibilidades.

"Agora nós temos uma audiência potencial de milhões", disse Taylor, cuja pesquisa mostrou que alguns dos primeiros colonos em locais como San Antonio, San Francisco, Santa Fé e Tucson eram pessoas de descendência africana.

Além disso, ele disse, a maioria das pessoas só conhece pequenos pedaços da história da diáspora africana. Agora é possível ligar os pontos.

"O tema central de encontrar a liberdade política e a oportunidade econômica foi tão forte para aqueles que se aventuraram da região central do México até Los Angeles, em 1750, quanto para aqueles que vieram da Jamaica ou do Sul para Nova York nos anos 50", disse Taylor em uma mensagem por e-mail.

Os estudiosos do projeto representam diversas universidades principalmente americanas, incluindo a Universidade de Chicago, Colúmbia e a Universidade de Delaware. Elas foram incumbidas pela Schomburg, e a maioria expandiu pesquisas que já tinham produzido estudos.

O dinheiro para o projeto, disse Dodson, veio em parte de uma subvenção do Instituto de Serviços de Museus e Bibliotecas, uma agência federal, por meio de esforços do Black Caucus do Congresso, uma associação de congressistas negros, e do deputado Charles B. Rangel, democrata de Nova York.

Os tópicos de pesquisa incluíam os movimentos de negros para fora dos Estados Unidos, para locais como Libéria, Trinidad, Canadá, Haiti e México; a migração do século 19 para o Norte tanto de negros livres quanto escravos; a migração de negros para o Oeste e até mesmo as jornadas de escravos fugitivos. Alguns disseram que os resultados de seus estudos foram surpreendentes ou pelo menos ajustaram as teorias convencionais.

Loren Schweninger, um professor de história da Universidade da Carolina do Norte, em Greensboro, disse que sua pesquisa sobre os fugitivos mostrou que mais deles seguiram para outras partes do Sul do que para o Norte. Dos 50 mil escravos ou mais que fugiam a cada ano, apenas cerca de 2 mil chegavam ao Norte --era difícil demais, por um motivo. "E isto diz muita coisa sobre a escravidão", disse ele.

James O. Horton, um professor de estudos americanos e história da Universidade George Washington que explorou a migração para o Norte no século 19, encontrou que as grandes cidades já apresentaram uma integração racial bem maior do que a atual. Devido à falta de transporte público, as pessoas que trabalhavam nas mesmas indústrias viviam nas mesmas áreas, e muitos negros viviam perto de seus empregadores brancos, mesmo os ricos.

Harry Belafonte, cujos pais imigraram da Jamaica, disse em uma coletiva de imprensa na Schomburg, na terça-feira, que o projeto eliminará mitos.

"Eu nasci de cor, depois negro e agora decidimos pelo afro-americano", disse o cantor de 77 anos. "Nenhum outro grupo levou um século apenas para aprender como chamar a si mesmo e como outros deveriam chamá-lo. Nós usaremos este site não apenas para termos mais orgulho, mas para permitir que o resto do mundo entenda o que nos fizeram e o que fizeram com nossa ajuda." Pesquisa tenta resgatar a história dos deslocamentos dos afro-americanos nos Estados Unidos George El Khouri Andolfato

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