UOL Notícias Internacional
 

02/02/2005

Para alguns iraquianos, a 1ª eleição foi a última

The New York Times
Edward Wong

Em Najaf, Iraque
Salim Yacoubi se inclinou para beijar a marca de tinta púrpura no dedo indicador direito do seu irmão gêmeo morto.

"Dá para ver o dedo com o qual ele votou", disse Shukur Jasim, amigo do morto, lançando um olhar enevoado pelas lágrimas sobre o corpo que jazia em uma mesa de concreto. "Agora ele é um mártir".

A mancha simbolizava o direito duramente conquistado de votar que Naim Rahim Yacoubi exerceu no último domingo (30/01) --e o preço que pagou por tal privilégio.

Yacoubi, 37, foi um dos pelo menos 50 iraquianos que morreram em ataques a bombas ou morteiros quando milhões de pessoas se dirigiram aos centros de votação durante as primeiras eleições livres do país em décadas. Só em Bagdá, pelo menos nove homens-bomba detonaram os seus explosivos. Em um desses episódios, o homem-bomba detonou o artefato em frente à Escola Primária Kurdis, próxima ao aeroporto, fazendo com que dezenas de fragmentos atingissem Yacoubi.

As vítimas da violência do dia da eleição estão sendo vistas por muitos iraquianos como os mais recentes mártires de uma insurgência de quase dois anos que custou a vida de milhares de pessoas. Entre os mortos estavam policias que tentaram impedir que os homens-bomba entrassem nos centros de votação, crianças que caminhavam com os pais rumo às urnas, ou --no caso de Yacoubi-- um peixeiro que, após votar, levou chá da sua casa para os mesários e fiscais que trabalhavam na escola.

Nos centros de votação devastados pelas explosões, os sobreviventes se recusaram a voltar para casa, esperando teimosamente para votar enquanto os policiais retiravam os pedaços de carne humana do local.

Os árabes xiitas, oprimidos pelo regime de Saddam Hussein, compareceram às urnas em grandes quantidades, e aqueles que morreram nos ataques estão sendo levados agora para o vasto cemitério dessa mais sagrada das cidades xiitas, a fim de serem enterrados em cerimônias consideradas dignas de seus sacrifícios.

No atestado de óbito de Yacoubi a causa mortis está registrada como: "Explosão no dia das eleições".

Enquanto o agente funerário lavava o corpo de Yacoubi na terça-feira (01/02), um sangue escuro como a tinta no seu dedo escorria dos cortes na parte posterior de sua cabeça. Quatro dos seus irmãos abraçavam o corpo em prantos. Um grupo de mulheres usando vestes negras que as cobriam dos pés à cabeça soluçava do lado de fora do necrotério.

"Todos nós falamos sobre as eleições", disse Hadi Aziz, um vizinho de 60 anos. "Estávamos esperando impacientemente por este dia para que pudéssemos finalmente nos livrar de nossos problemas. Naim era como qualquer outro iraquiano que desejava um futuro melhor para o Iraque, e que queria estabilidade para o país. Esperávamos que após as eleições as forças norte-americanas saíssem da nossa pátria".

Dois dias antes da votação, o corpulento Yacoubi, pai de nove filhos, levou de carro o seu amigo Jasim ao bairro xiita de Khadimiya, para que este comprasse uma roupa nova para a ocasião, contou Jasim.

No domingo, eles se levantaram ao nascer do sol. "Ele estava muito orgulhoso e se perfumou; depois nos ofereceu bolos e chá", disse Jasim.

Às 8h30, Yacoubi foi até a escola primária local para votar, diz Jasim. Ele foi revistado por policiais enquanto aguardava na fila. Em uma sala de aula, ele foi até a urna número 169 e depositou a sua cédula na qual marcara os nomes dos candidatos apoiados pelo mais reverenciado clérigo xiita do Iraque.

Depois, impressionado com a dedicação dos voluntários que trabalhavam na seção eleitoral, Yacoubi foi para casa fazer um chá para eles.

Ele acabara de entregar os copos de chá e saía da escola quando a bomba foi detonada.

"O mártir não foi o homem que explodiu a si próprio", afirmou Jasim enquanto o agente funerário retirava os coágulos de sangue dos ferimentos de Yacoubi. "Ele não era um muçulmano de verdade. Este aqui é que é o mártir. Que religião pede às pessoas que explodam a si próprias? Isso é algo que não está escrito no Alcorão".

Aziz, o vizinho, concordou com um gesto de cabeça.

"Esta é a coragem dos iraquianos", disse, referindo-se à decisão de Yacoubi de votar. "E mudaremos a face da história. Esta é a nossa mensagem aos países do mundo, especialmente àqueles que ainda estão sob ditaduras e que desejam seguir a mesma rota dos iraquianos".

Na segunda-feira, uma família chegou ao cemitério com o corpo de Ali Hussein Kadhum, 40, um agricultor da cidade de Mahawil. Kadhum foi uma das cinco pessoas morta por uma granada atirada de um lança-rojões contra a sua minivan quando ele dirigia o veículo rumo a um centro de votação, informou a família.

"Ele nos disse que não deveríamos comparecer juntos a essa votação, e sim um de cada vez, porque poderíamos nos deparar com terroristas", disse Muhammad Kadhum Jabaara, tio do homem morto. "Os fatos demonstraram que ele tinha razão. Devido a sua advertência, tivemos a chance de viver".

No pátio poeirento em frente às salas de limpeza dos corpos, uma outra família prendia ao teto de uma minivan azul um caixão com o corpo do policial Adil al-Nassar,. O corpo acabara de ser lavado. Agora era a hora de levá-lo para a Mesquita de Ali, de cúpulas douradas, para que recebesse as bênçãos finais.

Ele não foi o primeiro policial a ser trazido até aqui. Os coveiros haviam terminado de sepultar um policial que não contava mais com a metade inferior do corpo. O policial estava próximo a um homem-bomba em um centro de votação quando os explosivos foram detonados.

Nassar, 40, morreu ao perseguir um homem que invadiu a fila das mulheres que votavam na Escola Primária Osama Bin Zaid, contou Kakhum al-Hashim, sogro da vítima.

"Havia muita gente, e Adil estava conduzindo as pessoas até a escola quando o terrorista saltou sobre a fila das mulheres", disse Hashim.

Ele acrescentou que vários outros morreram na explosão.

O irmão da vítima, Muhammad al-Nassar, enxugava lágrimas com um lenço branco.

Adil al-Nassar havia ingressado na polícia apenas um ano atrás, contou Muhammad Nassar. Ele tinha uma família para sustentar: uma mulher e três filhos, o mais velho um garoto de oito anos.

"Ele agora é um mártir", disse Nassar. "Meu irmão salvou várias vidas em nome do bem maior".

"Apesar da explosão, os eleitores voltaram às urnas como se nada tivesse acontecido", afirmou Hashim com orgulho. "A polícia simplesmente removeu os corpos, e depois deixou os eleitores voltarem ao centro de votação".

Um vizinho idoso, Kadhum Hussein, disse que as eleições compensaram o sofrimento.

"Deus poupou as nossas vidas e nos livrou do ditador", disse ele enquanto cofiava a barba branca. "A situação é melhor do que antes, e estamos livres de tudo o que dizia respeito ao regime passado".

Um homem na procissão funerária mostrou aos visitantes dois cartões laminados do tamanho da palma de uma mão, trazendo versos do Alcorão, e que Adil levava no bolso. Eles estavam perfurados por fragmentos da bomba. Um deles dizia: "Deus, peço misericórdia porque retornaremos a Ti. E pedimos a Sua ajuda e que atenda às nossa necessidades".

Nesse momento, chegou um furgão com dois caixões de madeira sobre o teto. Vários homens retiraram dos caixões os corpos de dois irmãos. O intestino de um deles estava à mostra.

Eles foram mortos no domingo por um disparo de morteiro quando andavam junto aos pais rumo a um centro de votação em uma favela de Bagdá, disseram os familiares.

"Mais dois mártires. Mais dois corpos para lavar e enterrar", disseram eles. Danilo Fonseca

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