UOL Notícias Internacional
 

03/02/2005

Baixo comparecimento sunita às urnas pode prejudicar a constituição iraquiana

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá
Enquanto os funcionários eleitorais contam os votos da eleição do último domingo (30/01), autoridades iraquianas e ocidentais dizem que é cada vez mais claro que a outrora poderosa minoria sunita do país boicotou em massa o pleito, acentuando o isolamento político do grupo.

Enquanto xiitas e curdos, que juntos representam mais de 80% da população, compareceram às urnas em grande número, a participação eleitoral nas áreas sunitas pareceu ser muito baixa, afirmou na última segunda-feira um diplomata ocidental.

O baixo comparecimento significa que os sunitas, muitos dos quais se sentem profundamente alienados do projeto implementado aqui pelos norte-americanos, poderão acabar tendo uma representação extremamente pequena na assembléia nacional. O parlamento de 275 membros vai supervisionar a redação do texto constitucional, que será submetido aos eleitores iraquianos no final deste ano.

Autoridades iraquianas e norte-americanas afirmam que uma falta significativa de representação sunita no processo de redação constitucional poderá enfurecer ainda mais esse grupo. E isso poderá provocar até mesmo o fracasso da constituição; segundo as regras estabelecidas no ano passado para orientar a criação de um novo Estado iraquiano, se em três províncias dois terços dos eleitores votarem contra a carta, a constituição será rejeitada. E os sunitas são a maioria em três províncias.

Para impedir que isso aconteça, líderes xiitas iraquianos, que provavelmente formarão um novo governo nas próximas semanas, dizem que estão determinados a dialogarem com os sunitas, oferecendo a estes cargos importantes e um papel na redação constitucional.

Mesmo assim, não está claro se os sunitas, que dominaram a nação desde a sua criação em 1920, aceitarão a oferta.

Em uma entrevista à imprensa nesta quarta-feira (2/2), a Associação de Acadêmicos Muçulmanos, que alega representar cerca de 3.000 mesquitas em todo o país, declarou que as eleições são ilegítimas e disse que as mesquitas não participarão da redação constitucional. Mas os grupo pareceu, ao mesmo tempo, dar sinais de que deseja barganhar.

"Respeitaremos as escolhas dos que votaram", desse um porta-voz da associação. "E consideraremos a nova administração - caso todos os partidos que participam do processo político concordarem com isso - um governo de transição com poderes limitados".

Carlos Valenzuela, a principal autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) que auxilia o processo eleitoral no país, disse que o comparecimento nas áreas sunitas foi provavelmente maior do que o esperado, mas que as expectativas eram tão modestas que até mesmo uma participação acima da prevista pareceria ser baixa.

Líderes iraquianos disseram que em algumas áreas sunitas, como Samara e o distrito de Bagdá em torno de Adamiya, pouquíssimos sunitas votaram. "Nessas partes da cidade, não houve eleição", disse Wamid Nadhmi, um líder político de Adamiya.

O aparente boicote dos sunitas à eleição implica um desafio difícil para autoridades iraquianas e norte-americanas: isolar a insurgência guerrilheira e evitar uma possível guerra civil.

Autoridades iraquianas e norte-americanas esperavam um comparecimento sunita substancial, e negaram pedidos dos líderes políticos sunitas por um adiamento da eleição para que estes pudessem persuadir o seu povo de que valeria a pena votar.

A Associação de Acadêmicos Islâmicos disse que o preço da sua participação no processo político é o estabelecimento de um prazo para que as forças armadas norte-americanas deixem o país. Vários outros grupos políticos sunitas fizeram o mesmo.

A maioria dos líderes xiitas diz que ainda não deseja a determinação de tal prazo. De fato, os xiitas estão dando sinais de que pretendem adotar uma política dura contra a insurgência dominada pelos sunitas. Até o momento, a campanha de contra-insurgência vem sendo administrada pelas forças armadas norte-americanas. Mas os líderes xiitas dizem que, com um mandato popular, ficarão em uma posição mais forte para influenciarem os rumos da guerra.

"O novo governo deseja mudanças radicais na liderança das forças de segurança iraquianas", afirmou Mowaffak al-Rubaie, membro da coalizão xiita.

Uma campanha repressiva mais intensa poderia impossibilitar uma reconciliação entre xiitas e sunitas que muitos iraquianos dizem ser necessária para que se unifique o país e se evite uma guerra civil.

De acordo com essa mesma linha, os líderes xiitas disseram que, tão logo cheguem ao poder, pretendem expurgar o exército e as forças de segurança de todos os elementos que, segundo eles, formam as legiões de soldados do Partido Baath de Saddam Hussein. Os líderes xiitas acusam vários desses indivíduos de serem agentes duplos, que sabotam a contra-insurgência e ajudam os guerrilheiros a atacar os recém-criados exército e polícia.

A presença de ex-membros do Partido Baath é um fenômeno de "re-baathificação" que foi presidido pelo atual primeiro-ministro, Ayad Alawi, em uma tentativa de proporcionar àqueles que seriam integrantes moderados do governo de Saddam Hussein uma participação na nova ordem política.

"Por exemplo, o Ministério do Interior está infiltrado por ex-membros do Partido Baath", acusa Rubaie.

Mas um expurgo mais amplo possivelmente alienaria muitos sunitas. Quanto aos líderes sunitas, eles dizem que foram colocados em uma posição quase impossível de ser sustentada: ao serem chamados a participar do processo democrático, arriscam-se a perder a credibilidade - ou até a própria vida.

Alaa Makky, líder do Partido Islâmico do Iraque, o maior partido sunita, disse que ele e outras lideranças desejam participar do processo democrático. Mas eles alertam que a esmagadora maioria do povo sunita tem opinião contrária.

O Partido Islâmico concorreria com alguns candidatos, mas decidiu se retirar do processo eleitoral em dezembro, após o ataque norte-americano a Fallujah, que enfureceu muitos sunitas do país. Um outro motivo para terem retrocedido foi o fato de, quando o partido decidiu participar da eleição, os insurgentes terem matado pelo menos oito dos seus membros, informa Makky.

"Somos o inimigo número um dos insurgentes", afirma Makky. "Para eles somos piores até que os norte-americanos".

A pressão vem dos dois lados. Durante a fase de preparação para as eleições, as forças armadas norte-americanas detiveram cerca de 200 membros do partido por suspeitarem que estivessem ligados à insurgência. Makky garante que cerca de 80% são inocentes.

Makky diz que os líderes do Partido Islâmico ainda não decidiram se participarão da redação constitucional. Ele diz que o grupo precisa de tempo para conquistar os sunitas iraquianos.

"Estamos tentando ganhar a confiança do povo sunita a fim de fazer com que eles entendam melhor o processo democrático", explica Makky.

Uma breve visita a Adamiya, um grande bairro sunita em Bagdá, mostra o quanto Makky e seus colegas precisarão trabalhar.

Abu Omar, um homem corpulento e de cabelos brancos, dono de uma loja de reparos de eletrodomésticos, emergiu de uma pilha de peças elétricas para dizer que a eleição de domingo jamais deveria ter acontecido.

"Como é que se faz uma eleição quando uma cidade inteira foi obliterada?", indaga Omar, referindo-se a Fallujah. "Ou quando eles prendem um clérigo sunita dentro de uma mesquita, ou encarceram líderes partidários sunitas?".

Omar dá um longo suspiro.

"Gostaria que Saddam estivesse aqui. Nesse caso, nada disso teria ocorrido", afirma.

*Colaboraram funcionários iraquianos do escritório do The New York Times em Bagdá. O texto constitucional será submetido a votação ainda em 2005 Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h00

    0,45
    3,172
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h03

    0,28
    74.653,23
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host