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04/02/2005

Museu da Criação quer mostrar que Adão e Eva viveram junto com os dinossauros

The New York Times
Maureen Dowd

Em Washington
NYT Image

Maureen Dowd é colunista
Os mamilos dos homens comprovam a teoria da evolução?

De jeito nenhum, segundo o site de um planejado Museu da Criação, dedicado a mostrar que a Bíblia está literalmente correta. Os mamilos podem ser biologicamente dispensáveis para os homens, observa um "especialista" do site, mas isso não significa que sejam resultado da seleção natural.

Eles poderiam muito bem ser um elemento decorativo feito pelo Criador (como um capuz ornamental).

Quem somos nós para questionarmos os Seus desígnios, já que não podemos ter a pretensão de compreender a Sua mente?

Durante a visita virtual ao museu, que será construído na zona rural do Estado de Kentucky, ficamos sabendo que a mostra explicará muitos mistérios desse tipo, como a alegação de que o Tiranossauro Rex espreitava Adão e Eva --"Esse foi o terror desencadeado pelo pecado de Adão!"-- e como "Noé e sua família sobreviveram 371 dias em um barco cheio de animais" ("uma história real de sobreviventes").

A filosofia do Museu da Criação, parte da iniciativa "Respostas no Gênese", é resumida da seguinte maneira: "A marca do Criador está à nossa volta. E a Bíblia é clara --o céu e a Terra em seis dias de 24 horas, a Terra antes do Sol, os pássaros antes dos répteis.

Outras surpresas aguardam o visitante. Adão e os macacos nasceram no mesmo dia. O primeiro homem caminhou com os dinossauros e deu um nome a cada um deles! Ou a Palavra de Deus é verdadeira, ou a evolução é verdadeira. Não há milhões de anos envolvidos. Não existe "margem para acordo".

Pessoalmente, decidi parar de evoluir porque, realmente, isso não faz mais sentido. A evolução foi até o século 20.

Assim como fez com o Iraque, o presidente Bush aplicou a sua doutrina de guerra preventiva contra a evolução, destruindo-a antes que ela pudesse representar um perigo para o nosso bem-estar.

Desde que observou durante a sua campanha de 2000 que "quanto à questão da evolução, o veredicto ainda se refere a como Deus criou a Terra", Bush tem retrocedido o mais rapidamente que pode rumo ao Jardim do Éden, que, segundo asseguram os criacionistas, era realmente o "Parque dos Dinossauros".

Constatando o poderoso papel desempenhado pelos evangélicos na reeleição de Bush, professores de todo o país estão discretamente ignorando a teoria da evolução, ainda que ela faça parte dos currículos escolares.

Vários professores evitam falar da evolução, mesmo sem sofrerem pressões diretas. Cornelia Dean escreveu nesta semana na "Science Times": "Os professores estão evitando o tópico, temendo protestos".

Na eBay, é possível encontrar réplicas dos adesivos de advertência que um condado da Geórgia colocou nos livros de ciência, alertando que a evolução "é uma teoria, e não um fato".

É demais para a Árvore do Conhecimento. Bush nos obrigou a escolher entre o fícus e a fé.

Sei que o presidente, Dick Cheney e Newt Gingrich querem banir o lema psicodélico "se isso produz uma sensação boa, use-o" dos anos 60, substituindo-o pelo show dos anos 50, em preto-e-branco, "Happy Days".

Eles querem nos enfiar a força em uma máquina do tempo que nos transporte a um período anterior à derrota no Vietnã, à descoberta do amor livre e à legalização do aborto. São capazes até de fazer com que a ciência recue para destruir a promessa das células-tronco. (Considerando que foi anunciado na semana passada que todas as linhagens embrionárias humanas aprovadas para pesquisas financiadas com verbas federais estão contaminadas com uma molécula intrusa de ratos, o governo não pode sequer fingir que tem interesse no progresso científico. Quem diria que uma grande esperança da ciência acabaria demonstrando ser um Arnold Schwarzenegger?).

Eu subestimei esse presidente ambicioso. Os seus projetos de engenharia social no Oriente Médio e nos Estados Unidos são de um descaramento impressionante.

Ele não quer desmantelar apenas o legado dos anos 60, mas o do século inteiro --incluindo o Social Security (a previdência social norte-americana). Bush poderá destruir as maiores conquistas do New Deal e, a seguir, sair à caça dos outros grandes programas sociais dos democratas, revertendo a filosofia prevalecente em várias décadas segundo a qual os nossos sistemas de impostos e de previdência deveriam equilibrar a distribuição de renda, apenas um pouquinho. Barry Goldwater [republicano ultraconservador da década de 60] não teria coragem de cair de marreta sobre tal edifício.

A Casa Branca parece acreditar que o Social Security foi corrupto desde o momento em que foi criado, em 1935. Ela quer substituir o programa por contas privadas que engordarão as carteiras dos especuladores, e que colocarão em risco as poupanças dos norte-americanos que não herdaram grandes fortunas.

Bush e sua equipe não querem acabar apenas com o New Deal. Ao enfraquecerem os sistemas de proteção ambiental e de segurança, e tentarem achatar o imposto de renda progressivo, eles procuram erradicar não apenas um Roosevelt [Franklin, presidente democrata que criou o New Deal e a previdência], mas dois, alvejando o legado progressista de Theodore.

Com o seu ataque brutal à história e com os seus modos hipócritas, este governo confere um significado inteiramente novo à filosofia de presidência expressa por Teddy. É uma gente realmente intimidante. Bush aplica doutrina de guerra preventiva contra teoria da evolução Danilo Fonseca

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