UOL Notícias Internacional
 

05/02/2005

Prisioneiros iraquianos são pressionados em interrogatórios na televisão

The New York Times
Christine Hauser

Em Mossul, Iraque
Em uma cena, o vídeo mostra três seqüestradores com pistolas e uma faca, preparando-se para decapitar um homem impotente, amordaçado e ajoelhado a seus pés.

Na seguinte, é um dos seqüestradores que está preso, com os olhos esbugalhados de medo, o lábios tremendo, enquanto fala aos interrogadores.

"Como digo isso? Sinto muito por tudo que fiz", diz o seqüestrador, identificado como o egípcio chamado Abdel-Qadir Mahmoud, segurando as lágrimas.

Na primeira semana após as eleições, o ministro do interior iraquiano e o chefe de polícia de Mossul viraram a mesa contra a insurgência aqui no norte, usando a mesma tática --mensagens em vídeo-- que os insurgentes empregaram tantas vezes, ao aterrorizarem a região com seqüestros e execuções.

Desta vez, no entanto, os vídeos que estão sendo transmitidos por uma rede local têm uma mensagem totalmente diferente, justapondo imagens dos matadores mascarados com a dos homens acovardados que se tornam depois de capturados.

Alguns questionaram se a transmissão das gravações não viola as obrigações e tratados legais sobre a forma de interrogar insurgentes e de divulgar suas confissões.

Desde que milhares de policiais iraquianos fugiram de seus postos, em novembro, atemorizados pelos ataques dos guerrilheiros, os militares americanos vêm trabalhando com os iraquianos para reconstituir a força de polícia de Mosul. Mas não ficou claro se os assessores dos EUA tiveram influência sobre a decisão de usar os vídeos. Os oficiais americanos não fizeram comentários iniciais sobre a prática.

Entretanto, a polícia em Mosul, desfalcada, aparentemente espera que a força psicológica dos vídeos ajude a minar a insurgência, fazendo seus combatentes parecerem fracos e estimulando os cidadãos a passarem informações sobre os que ainda estão soltos. Um programa vagamente baseado nos programas de crime americanos, estilo "Most Wanted", também foi desenvolvido, disse um funcionário da televisão de Mosul.

"Por causa de suas confissões e das coisas horríveis que fizeram, nós chegamos em nosso limite. A paciência acabou", disse o chefe de polícia de Mosul, Ahmed Al Jaburi.

As confissões, como são chamados os vídeos, oferecem um raro vislumbre de como as gangues operam e planejam seus assassinatos. Os vídeos também tentam desqualificar os terroristas e criminosos em sua plataforma religiosa, desafiando-os com questões sobre o islã.

"Esses homens não temem a Deus", disse uma autoridade do Ministério do Interior no início de um dos segmentos nesta semana. Ela descreveu os prisioneiros como iraquianos e outros terroristas árabes. "Nossas forças especiais vão esmagar suas cabeças imundas!"

"Vamos mostrar a vocês alguns homens que têm o sangue de pessoas inocentes em suas mãos", disse a autoridade. "Vamos mostrar suas confissões, vamos dizer os seus nomes e de seus líderes, e esperamos que vocês os encontrem."

Algumas pessoas acharam a prática de mostrar os insurgentes na televisão preocupante. Sarah Leah Whitson, do Human Rights Watch, disse haver dúvidas se os presos não eram torturados ou coagidos a fazer as declarações.

Na semana passada, a organização divulgou um relatório baseado em entrevistas no Iraque que "revelaram ser comum o abuso, a tortura e os maus tratos de prisioneiros pelas forças de segurança iraquianas", disse Whitson, diretora executiva da divisão do Oriente Médio do grupo. Por exemplo, a polícia frequentemente os descreve como culpados antes do julgamento e os deixa disponíveis para os jornalistas fotografarem.

Não ficou claro o que as autoridades pretendiam fazer com os prisioneiros. Policiais disseram que os homens tinham sido detidos em torno de Mosul, durante patrulhas desenvolvidas com base em pistas.

O segmento de Mahmoud é especialmente dramático. Em certo ponto, mostra três seqüestradores mascarados, vestidos de preto, de pé, por cima da vítima. Os dois dos lados apontam armas para a cabeça da vítima, enquanto o homem do meio lê uma declaração.

Quando ele termina, entrega o papel para alguém e, sem hesitar, tira uma faca e puxa o queixo da pessoa para o lado, para expor seu pescoço. Os outros dois curvam-se para frente para ajudar.

Depois, o vídeo faz uma pausa. A voz de um policial iraquiano entra. "Esse, à esquerda, é Abdel-Qadir Mahmoud,", diz, referindo-se a um dos mascarados. "E esse é Mohammad Hikmat, à direita."

O homem identificado como Mahmoud já tinha sido mostrado no vídeo, de forma muito diferente do que quando estava mascarado, armado e agindo com bravura, ajudando a matar um homem de joelhos.

"As forças de coalizão me prenderam em abril, como um dos homens das forças especiais de Saddam", disse ele, com uma barba mal feita, olhos esbugalhados e uma ruga na testa. Ele foi mostrado do pescoço para cima, com um lençol plástico por trás.

"Conheci um homem chamado xeque Madhi, na prisão", disse Mahmoud. "Quando fui liberado, nos encontramos novamente. Ele estava organizando quatro grupos. Eles se reuniam em um salão de sinuca."

Ele tossiu algumas vezes, apoiou a cabeça na mão direita e colocou um dedo nas têmporas, como se quisesse parecer sincero ou pensativo.

"As operações foram na área de Mahmudiya", disse ele, referindo-se a uma cidade ao sul de Bagdá, onde os ataques guerrilheiros são freqüentes. "Eles mataram alguém chamado Mewalli Al Masri, junto com quatro engenheiros".

Em outra cena, um homem que disse se chamar Muataz Jawba está na frente de uma parede ladrilhada. A câmera está fixa em seu rosto. Ele parece ser grande, com um bigode grosso.

O comentador diz que o preso fazia parte de uma gangue liderada pelo "príncipe" dos terroristas, Khaled Zakia, que era colega de Abu Musab Al Zarqawi, membro da Al Qaeda.

Os olhos pesados de Jawba viram de um lado ao outro. Sussurrando em um pequeno microfone, ele diz que tinha mostrado à gangue um cristão que trabalhava para os americanos.

"Eles escolheram um dia para matá-lo", diz Jawba.

A gangue foi até o restaurante do homem e atirou nele. Depois descobriu que ele sobrevivera, quando enviou um patrulheiro ao hospital, fingindo que queria doar sangue. Então, exigiu US$ 10.000 (em torno de R$ 30.000) à família, que pagou, disse Jawba.

"Como grupo, vocês faziam jejum e preces?" indagou o entrevistador, referindo-se aos dois requerimentos dos muçulmanos praticantes.

"Khaled veio e nos enganou", disse Jawba. "Ele disse: É jihad, é ocupação, venha nos ajudar."

"Você chama isso de jihad?" perguntou o interrogador.

"Não", respondeu Jawba debilmente.

"Khaled Zakia é um homem religioso?"

"Ele fez uma lavagem cerebral conosco", disse Jawba.

Outro homem foi identificado como o que encheu de balas a cabeça de uma vítima, de pé, com as mãos amarradas nas costas. O comentador disse que os insurgentes a acusaram de trabalhar para os americanos, por causa da garrafa de água mineral encontrada em seu carro.

Em outro segmento, depois de mencionar que as forças de segurança iraquianas estavam travando uma batalha, uma autoridade iraquiana diz, como se fizesse um anúncio de utilidade pública: "É assim que tratamos as pessoas que os decapitam". O vídeo então mostra o que parecia ser um corpo coberto por um lençol.

Durante os programas, os telespectadores são convidados a ligar para dar suas reações e informações. Nesta semana, houve pelo menos três programas. Em um deles, cidadãos emocionados ligaram para o número divulgado por cima da imagem de Jawba.

"Meu sobrinho foi morto há pouco tempo. Seu nome era Hassan Ibrahim. Foram eles que fizeram isso? Por favor, pergunte a eles se mataram alguém na Rua Sanaa, em Mosul", disse um espectador de Dohuk, cidade curda ao norte de Mosul.

Uma mulher ligou, aos prantos. "Alguém matou meu filho, Abdel-Salam Hamoodi", disse ela. "Ele foi assassinado perto de casa. Por favor, pergunte a eles se foram eles. Quero uma resposta para acalmar meu coração." Seqüestradores são expostos como covardes em rede local Deborah Weinberg

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