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07/02/2005

O que fazer para evitar escândalos no Capitólio

The New York Times
Elisabeth Bumiller

The New York Times
O início de todo novo mandato presidencial traz para Washington quantidade de novos oficiais de gabinete e membros do Congresso, todos eles tão novatos quanto ambiciosos. Invariavelmente, eles tomam os elevadores errados, se perdem nos corredores e acabam não comparecendo a entrevistas marcadas com repórteres. Contudo, tropeços como esses - ou ainda como aquele cometido pelo senador Ken Salazar, um calouro democrata do Colorado, que até hoje afirma não ter descoberto ainda onde fica a sala de jantar do Senado e, por isso, segue alimentando-se de sanduíches de presunto no bar-restaurante público do Congresso - nada são se comparados com certos deslizes que costumam acontecer nesta capital.

Como todos sabem, Washington vive sendo assombrada pelos fantasmas de grandes escândalos do passado: Richard M. Nixon e o caso Watergate, Oliver North e o caso Irã-Contra, Bill Clinton e o caso Monica Lewinsky. Mais recentemente, Bernard B. Kerik, que havia sido indicado brevemente pelo presidente Bush para assumir a pasta de secretário para a segurança interna, pôs tudo para perder por conta própria, devido aos seus problemas com uma empregada babá, e depois de terem descoberto que ele possuía um apartamento de solteiro em Manhattan para os seus encontros amorosos, o que é a melhor maneira de se "queimar" em Washington. Diferentemente de Nova York, a capital do país sempre teve uma tendência pronunciada ao puritanismo e permanece uma curiosa mistura de ambições desenfreadas com valores interioranos do Meio-oeste.

Então, agora que o discurso do presidente sobre o Estado da União sinalizou oficialmente que o ano (político) começou, aqui vão dez regras de comportamento que foram preconizadas por profissionais do ramo, os quais já trilharam o caminho das pedras. Essas recomendações devem permitir evitar todo tipo de desastres, sejam eles de natureza social, política ou legal.

1. Não se levante no meio de um jantar, anunciando que você precisa ir embora correndo para participar de uma entrevista no programa "Larry King Live".

Os membros bem-educados da sociedade de Washington costumam avisar previamente as suas anfitriãs de que eles só poderão comparecer ao jantar antes ou depois das suas participações de programas noturnos de televisão gravados ao vivo, tais como o "Larry Ling Live".

"É importante avisar com antecedência a sua anfitriã do seu compromisso", aconselha Sally Quinn, uma escritora e anfitriã de Washington, mulher de Benjamin C. Bradlee, um antigo editor em chefe do diário "The Washington Post". Sally Quinn é autora de um livro sobre entretenimento. Se você não o fizer, prossegue Quinn, haverá um espaço vazio constrangedor à mesa durante o jantar (o programa de entrevistas de Larry King vai ao ar na CNN às 21h - hora local).

Nos jantares que acontecem por ocasião de eventos importantes tais como a noite das eleições, os convidados podem curtir a sua refeição em salas de estar equipadas especialmente para o entretenimento. São espaços para a realização de eventos que costumam ser generosamente abastecidos com comidas e bebidas, frutos da evolução das novas festas-jantares de Washington.

2. Nunca pronuncie a expressão "Você sabe quem eu sou?".

A esta pergunta, a resposta da jovem mulher que está procurando pelo seu ticket extraviado no balcão de recepção de um jantar beneficente pode muito bem ser um não constrangedor. Além disso, esta pergunta é geralmente ineficiente, a não ser que o seu objetivo seja de amedrontá-la. "Isso não vai fazer com que o seu ticket apareça mais rapidamente", constata Carolyn Peachey, uma veterana promotora de eventos de Washington. Ela diz que há décadas que ela vem ouvindo pessoas proferindo esta expressão.

A única vez em que Carolyn Peachey admitiu uma concessão para a utilização desta expressão foi no outono passado, quando Quincy Jones, a grande estrela da música, foi barrado na entrada de uma recepção no Departamento de Estado. Uma placa na sua cabeça, que lá se encontra desde uma cirurgia no cérebro a que ele se submeteu, havia acionado o alarme do detector de metais, contou Peachey, e nem mesmo uma conversa de 20 minutos fez a menor diferença. "Você sabe quem eu sou?", perguntou Jones finalmente. O guarda respondeu que sim, prosseguiu Peachey, mas ele continuou afirmando que nada podia fazer. A certa altura, Jones conseguiu finalmente entrar, graças à intervenção de superiores do guarda.

3. Não esconda nenhuma informação do seu advogado.

Quer eles sejam antigos conselheiros da Casa Branca, advogados de criminosos de colarinho-branco, ou peritos da cidade, especializados em avaliar e consertar todo tipo de prejuízos, e conhecidos por serem muito bem pagos, todos concordam: este é o erro mais sério que pessoas normalmente inteligentes costumam cometer em Washington. As tentativas de ocultar os fatos são quase sempre piores do que os problemas em si.

"O que ocorre inevitavelmente na maioria das vezes é que os fatos acabam surgindo à luz do dia aos poucos, e a história acaba sendo reconstituída, isso porque os repórteres não vão desistir enquanto não superarem os seus competidores, e vão continuar cavando até encontrar algum elemento novo", explica Lanny J. Davis, um advogado de Washington que foi contratado pela Casa Branca para atuar como conselheiro durante os escândalos enfrentados pelo presidente Clinton, e que é o autor do livro "Truth to Tell: Tell it Early, Tell it All, Tell it Yourself" ("A verdade que precisa ser dita: diga-a sem demora, diga-a por inteiro, diga-a você mesmo").

Fred F. Fielding, um conselheiro da Casa Branca durante o mandato de Ronald Reagan, que examinou minuciosamente os indicados para integrar o gabinete do governo Bush durante a transição de 2000, concorda com esta regra de maneira entusiástica. Segundo ele, os indicados precisam estar preparados para responder honestamente às perguntas horríveis que lhes são feitas por advogados da Casa Branca: O senhor já teve um caso extraconjugal? Ou consumiu drogas? Um sim a qualquer uma dessas perguntas, acrescenta Fielding, não seria necessariamente um problema.

"Existe uma diferença entre alguém que teve uma aventura anos atrás, antes de o seu primeiro casamento ter sido desfeito, e, por exemplo, alguém que tenha tido um caso com uma pessoa que era seu subordinado hierárquico", precisa Fielding. O mesmo acontece com as drogas: "O uso ocasional de drogas no colégio não faria necessariamente com que a pessoa seja desqualificada".

4. Não mude o seu corte de cabelo com freqüência excessiva.

"Existe uma 'tolerância zero' em relação às variações excessivas no corte de cabelos", avisa Mary Matalin, uma conselheira de longa data do vice-presidente Dick Cheney e uma antiga âncora de programas de entrevistas na televisão, que tem, no momento, os cabelos escuros. Ao longo dos anos, ela sempre exibiu uma cabeleira loira, castanho claro ou, conforme ela mesma explica, "transformada por mechas fortemente tingidas, cujas cores iam do laranja escuro até o branco brilhante". Resumindo, conclui Matalin, "você precisa escolher uma única cor e se manter fiel a ela".

5. Não planeje anunciar a sua nova nomeação antes de ela ter sido efetivamente aprovada.

Isso se aplica mais a presidentes do que a figuras ordinárias, mas é um importante corolário à Regra Nº 3.

C. Boyden Gray, conselheiro da Casa Branca durante o mandato do presidente Bush, o pai, conta que ele enfrentava constantemente pressões exercidas pelo presidente e a sua equipe, os quais vivam lhe cobrando investigações rápidas dos currículos e dos antecedentes dos indicados para integrar o gabinete, de maneira que o presidente pudesse preencher logo as vagas.

"Eu fui triturado, de maneira implacável, quando era conselheiro", conta Boyden Gray. Ele se recorda em particular de um episódio que ocorreu em 1988, quando o presidente Bush, o pai, insistira para que fosse feito rapidamente o anúncio da nomeação de Carla A. Hills como representante para assuntos comerciais dos Estados Unidos. Naquela ocasião, Gray havia chegado à conclusão, junto com Hills e de acordo com ela, de que o marido desta última, Rod, teria de se demitir do seu cargo de diretor de uma companhia de aço, isso para impedir que ocorra qualquer conflito de interesses com a nova função de sua mulher. O problema era que naquele momento, Rod Hills estava viajando num avião, do qual ele só desembarcaria às 16h, enquanto o presidente fazia questão de que a nomeação de Carla Hills fosse anunciada às 14h. Mas ela se recusou a afirmar publicamente que o seu marido iria se demitir da diretoria daquela companhia de aço sem lhe perguntar primeiro.

Então, Boyden Gray ligou para a Administração Federal da Aviação Civil (cuja sigla em inglês é FAA) e foi colocado em contato com o piloto do avião de linha, que prontamente chamou Rod Hills para comparecer à cabine, o qual se executou, conversou com a sua mulher e concordou em se demitir do seu cargo. "Eu acho que este procedimento constituiu uma violação das mais diversas regras da FAA", comenta Gray. "O ponto mais importante que esta história mostra é que estes são problemas muito difíceis de resolver, e que não há outra escolha, a não ser ter sucesso".

6. Não se exiba num tailleur Armani enfeitado com pérolas num jantar no parque Cleveland, numa sexta-feira à noite.

As linhas limpas de Armani são altamente desejáveis em Washington, e o cashmere branco assinado Oscar de la Renta, exibido pela Primeira-Dama durante a inauguração do dia causou um frisson na cidade. Contudo, mesmo numa cidade tão formal como é a capital, tome cuidado para não exagerar nas roupas que usa.

Andrea Mitchell, a repórter e comentarista do canal de televisão NBC que é casada com Alan Greenspan, o diretor-presidente do Federal Reserve (Fed - o banco central americano), conta que ela teve de se lembrar desta verdade recentemente, numa ocasião em que ela estava trajando um tailleur-calça de seda preto Armani com enfeites de pérolas na parte de cima, num jantar, numa sexta-feira à noite no Cleveland Park, um enclave liberal, muito rico, por onde circulam muitos Volvos desbotados, situado no quadrante noroeste da cidade. Todas as outras mulheres, conta Andrea, trajavam calças largas e pulôveres com gola olímpica.

O que fazer nesse caso? "O melhor é dar boas risadas do que aconteceu e conscientizar-se de que em Washington, o que você diz e o que sabe é mais importante do que a roupa que está usando", conclui Mitchell.

7. Não pense que é uma função sua educar repórteres.

"Basta morder a sua língua quando indagado sobre certos assuntos", disse certa vez Ed Rollins, um veterano estrategista do Partido Republicano e o diretor da campanha bem-sucedida de Christine Todd Whitman para o cargo de governadora de Nova Jersey em 1993. Contudo, Rollins não seguiu o seu próprio conselho, mais tarde naquele ano, quando ele se gabou de maneira infame diante de repórteres, durante um café da manhã em Washington, de que a campanha de Christine Whitman havia remetido quantias em dinheiro para clérigos afro-americanos e trabalhadores simpatizantes do Partido Democrata, num total de US$ 500.000 (cerca de R$ 1,3 milhão) em "dinheiro fornecido por fora", com o objetivo de neutralizar os votos negros.

Esta declaração, que foi imediatamente objeto de uma retratação, provocou a abertura de um inquérito federal, o qual acabou não encontrando nada ilegal. Mas as palavras de Rollins haviam mobilizado a classe política inteira contra ele e maculado a vitória de Christine Whitman.

8. Não acredite cegamente nos seus palpites

"Eu fui culpado de sustentar um raciocínio apressado", conta Lanny J. Davis, o advogado de Bill Clinton. Ele afirma ter desenvolvido longamente a argumentação segundo a qual não havia nada de errado com o fato de os doadores da campanha política, estarem participando de recepções na Casa Branca, então dirigida por Clinton, uma vez que o dinheiro, na verdade, não era coletado no local. "Eu tentei acreditar nisso, porque eu estava tecnicamente correto", comenta Davis. "Mas o fato é que as pessoas eram convidadas a dar dinheiro antes ou depois do evento".

9. Não se esqueça de quem são os seus amigos.

"O erro mais grave que as pessoas costumam cometer é escolher as suas amizades em função de quem está no poder e quem não está", explica Sally Quinn. "Agir dessa forma demonstra uma falta de visão, uma vez que muito pouca gente em Washington permanece no poder por muito tempo. Seguindo este mesmo raciocínio, muitos vão desfazer a amizade que eles vinham cultivando com certas pessoas uma vez que estas perderam o poder. Fazer isso é sempre um erro enorme, porque as pessoas nunca devem ser completamente descartadas, a não ser que elas estejam jazendo debaixo da terra com uma estaca no seu coração".

10. Não se esqueça da sua origem, nem de que a integridade é essencial.

"Muitas pessoas acham que os valores, aqui em Washington, serão diferentes daqueles que elas praticavam em casa, de onde quer que elas venham, e não é o caso", avalia Robert S. Strauss, um "sábio" da capital que é o antigo presidente do Comitê Democrático Nacional e um amigo de longa data da família Bush. "Esta é uma situação que ocorre exatamente da mesma maneira em Dallas, em Los Angeles ou em Houston, nem mais, nem menos: aqui, as pessoas atribuem um grande valor à lealdade tanto ou até mais do que em qualquer outro lugar".

Se, apesar de seguir essas regras, tudo der errado para você, Fielding lhe sugere uma maneira infalível de evitar a ruína social, política e legal em Washington.

"Mude-se para o Kansas", aconselha Fielding. Recomendações para lidar com o mundo político em Washington Jean-Yves de Neufville

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