UOL Notícias Internacional
 

08/02/2005

Americanos deixam EUA por causa de Bush

The New York Times
Rick Lyman

The New York Times
Christopher Key sabe exatamente do que abrirá mão caso deixe Bellingham, Washington. "É o tipo de lugar que Norman Rockwell pintaria, onde todos cuidam de todos e realizamos festas todo ano", disse Key, 56 anos, um veterano da Guerra do Vietnã e ex-editor de revista que é descendente de Francis Scott Key.

Mas ele pretende partir assim que puder. Sua casa está à venda, e ele está procurando emprego do outro lado da fronteira, no Canadá. Para ele, a reeleição do presidente Bush foi a última gota.

"Eu amo os Estados Unidos", disse ele enquanto permanecia na zona portuária de Vancouver, olhando para as montanhas da costa, que estavam encobertas por um véu cinzento. "Eu lutei por ele no Vietnã. É uma decisão dolorosa pensar em partir. Mas a América está se transformando em um país muito diferente daquele no qual cresci acreditando."

No auge da revolta liberal após a vitória de Bush em 2 de novembro, o site do serviço de imigração do governo canadense informou um aumento de consultas dos Estados Unidos de 20 mil por dia para 115 mil. Após três meses, as lembranças da eleição começaram a esfriar. Ocorreu a posse e até mesmo o discurso do Estado da União.

Mas advogados de imigração disseram que americanos não estão fazendo apenas consultas, e que mais deles estão buscando se mudar para cima do paralelo 49, cheios de um país que consideram caminhando persistentemente para a direita e abandonando os princípios da tolerância, compaixão e idealismo pacífico que sentiam que definiam a nação.

Os Estados Unidos não correm o risco de ficarem esvaziados. Mas mesmo uma pequena perda de habitantes, muitos dos quais citando um sentimento profundo de desespero político, é um evento significativo na vida de um país que considera a si mesmo como o local para onde escapar.

Os primeiros números de emigração potencial são esquivos.

"O número de cidadãos americanos que de fato estão requisitando emigração ao Canadá e fazendo planos concretos é cerca de três ou quatro vezes maior do que o normal", disse Linda Mark, uma advogada de imigração de Vancouver.

Outros advogados de imigração em Toronto, Montreal e Halifax disseram que perceberam um aumento semelhante, apesar da maioria considerar o aumento próximo de três vezes o volume normal.

"Nós ainda não estamos falando de um grande movimento de pessoas", disse David Cohen, um advogado de imigração em Montreal. "Em 2003, o último ano para o qual há estatísticas plenas disponíveis, cerca de 6 mil cidadãos americanos receberam status de residência permanente no Canadá. Assim, mesmo se houver uma triplicação neste ano, nós estamos falando apenas de cerca de 18 mil pessoas."

Ainda assim, isto representa mais que o dobro da população de Gettysburg, Pensilvânia. "Para cada um que reage à vitória de Bush se mudando para um novo país, quantos permanecem na América, se sentindo igualmente desgostosos, mas não dispostos a tomar uma atitude tão drástica?" perguntou Cohen.

Serão necessários seis meses, no mínimo, até que o governo canadense tenha algum número concreto sobre quantas pessoas de fato optaram pela mudança.

Melanie Redman, 30 anos, diretora assistente da Epilepsy Foundation, em Seattle, disse que colocou seu Volvo à venda e espera estar morando em Toronto até o verão. Redman e seu namorado canadense, um designer de sites de Internet para empresas canadenses sem fins lucrativos, planejavam se mudar para Nova York, mas depois de 2 de novembro, eles optaram pelo Canadá.

"É o que vou fazer", disse ela. "Eu não quero participar do que este governo está fazendo aqui e ao redor do mundo. Sob Bush, os Estados Unidos parecem estar liderando o bando enquanto o mundo mergulha em parafuso."

Redman pretende pedir um visto conjugal, que pode ser mais fácil de obter do que o visto de trabalhador habilitado exigido da maioria dos americanos. Para isto, ela deve provar que mantém relacionamento com seu namorado há pelo menos um ano, e para isto precisará reunir vários documentos que comprovem, como cartas de amor, para apresentar ao governo canadense.

"Eu venho de uma cidade pobre e de mineração no Missouri, e conheço muita gente que não entende por que estou fazendo isto", disse ela. "Até mesmo meu pai está bastante decepcionado. E na verdade isto me deixa bastante triste. Mas não posso suportar pagar impostos nos Estados Unidos no momento."

Em comparação com outros potencial emigrantes entrevistados, Redman está bem adiantada em seu planejamento.

Mike Aves, 40 anos, um planejador financeiro em Palm Beach, Flórida, onde atuou nos Jovens Democratas, disse estar encontrando dificuldade para arrumar a distância um emprego no Canadá. "Eu disse para minha esposa que estou disposto a dar um passo para trás, socioeconomicamente, mudando de um emprego de colarinho branco para um emprego operário, caso isto possa nos levar ao Canadá", disse ele.

Muitos dos entrevistados disseram que a idéia de mudar para o Canadá vinha germinando em suas cabeças há anos, em parte como uma reação ao que consideram uma inclinação para a direita no país e em parte como um desejo de viver em um local que consideram mais tolerante, pacifista e, sim, liberal.

Mas a reeleição de Bush foi decisiva na decisão deles de dar passos concretos.

"Nem todos estão dispostos a viver à altura de seus ideais políticos, mas estas pessoas estão", disse Jason Mogus, um empreendedor de Internet em Vancouver, cuja communicopia.net oferece serviços de marketing para empresas progressistas e grupos sem fins lucrativos, e cuja anadianalternative.com costuma ser a primeira parada para os americanos dispostos a saber algo sobre a mudança para o norte.

"A emigração para o Canadá não se trata apenas de colocar sua família em um carro e cruzar a fronteira", disse Mogus. "É um longo processo. Ele pode levar 18 meses e às vezes mais. E se você contratar um advogado para ajudá-lo, isto pode custar milhares de dólares."

Mogus disse que a resposta ao seu site, de todas as partes dos Estados Unidos, o surpreendeu. Alguns são atraídos pela postura mais tolerando do Canadá em relação aos casamentos de mesmo sexo, disse ele, e há um número surpreendente de profissionais de meia-idade.

"Minha esposa e eu conversamos por muito tempo sobre a possibilidade de nos mudarmos para um condomínio no centro de Vancouver", disse Frederick Newmeyer, 61 anos, um professor de lingüística da Universidade de Washington, em Seattle. "Mas a eleição foi a gota d'água."

Como poderá levar os dois anos que lhe resta para se aposentar para a obtenção de um visto de residência permanente, Newmeyer disse que ele e sua esposa contrataram um advogado e deram entrada na papelada.

As autoridades canadenses escolhem imigrantes potenciais atribuindo pontos para certos atributos ou habilidades. Ter entre 21 e 49 anos vale 10 pontos, por exemplo. Um diploma superior vale 20, um mestrado 25, com até 21 pontos por certa experiência profissional e 24 por fluência em inglês e francês. No momento, 67 pontos são necessários para estar qualificado para um visto.

Segundo o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, os trabalhadores de certas áreas também podem obter vistos de residência caso consigam um emprego no Canadá.

Key fez recentemente várias viagens para procurar emprego na área de Vancouver. Ele acha que a maioria dos empregadores canadenses prefere contratar um canadense.

Chris Mares, um terapeuta recreativo em Albuquerque, disse que espera mudar para o Canadá em até um ano, quando estiver apto a receber sua aposentadoria, mas que não deseja fazê-lo sem primeiro encontrar um emprego.

"Eu apresentei uma série de pedidos de emprego e preenchi uma série de formulários, agora estou esperando algum retorno", disse Mares, 54 anos. "Mas não é fácil. Não é como se escancarassem a porta e dissessem: 'Ei, americanos, entrem'".

Jerry Gorde é um que está olhando a longo prazo.

"Eu fiz um plano de 100 meses", disse Gorde, que dirige a Vatex, uma empresa em Richmond, Virgínia, que cria campanhas promocionais para clientes corporativos.

Um ex-manifestante de direitos civis e antiguerra, Gorde disse que montou sua empresa na Virgínia porque o Estado não era um dos enclaves liberais da América, na esperança de difundir idéias progressistas no coração do conservadorismo. Ele já foi eleito o empresário do ano no Estado.

"Eu acho que a reeleição de George Bush, por si só, não é nada em comparação ao que acontecerá, ao longo dos próximos 10 a 15 anos, caso ele faça três ou quatro nomeações para a Suprema Corte", disse Gorde. "Eu prevejo um período mais sombrio à nossa frente."

A partir de agora, Gorde planeja mudar gradualmente sua vida de Richmond para uma das ilhas próximas de Vancouver -comprando uma casa, passando um pouco mais de tempo lá a casa ano, se afastando gradualmente de sua empresa na Virgínia até, daqui 100 meses, sua vida se tornar canadense.

"Quando volto minha mente para algo, eu sou a pessoa mais organizada e concentrada no mundo", disse ele. "Eu tomei minha decisão e é o que vou fazer."

Ele sabe que algumas pessoas que compartilham suas opiniões políticas se perguntam por que ele não fica nos Estados Unidos para lutar.

"Eu tenho 53 anos e não sei se ainda tenho forças para ir às ruas e organizar novamente", disse Gorde. "Ou talvez seja apenas uma questão de ter me tornado um pouco mimado a esta altura da vida." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host