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08/02/2005

Franceses tentam descobrir como coexistir com Bush

The New York Times
Elaine Sciolino

The New York Times
PARIS - Pergunte ao ministro de relações exteriores da França, Michel Barnier, sobre a França e os EUA, e ele dirá que a raiva e desconfiança que prejudicaram o relacionamento nos últimos três anos agora são história.

Não importa que há 18 meses, quando era assessora nacional de segurança, a secretária de Estado Condoleezza Rice tenha dito que a forma de lidar com os três principais opositores dos EUA na guerra o Iraque seria: "Perdoar a Rússia, ignorar a Alemanha e punir a França".

Os franceses têm que coexistir com o presidente Bush por mais quatro anos. Rice agora é a chefe da diplomacia, e o Iraque teve eleições organizadas pelos EUA. Então, para a França, inicia-se uma nova era de realismo político, a começar pela visita de Rice a Paris, na terça-feira (07/2), e do secretário de defesa, Donald Rumsfeld, no dia seguinte, a Nice, para uma reunião dos ministros de defesa da Otan.

"A situação mudou", disse Barnier em recente entrevista durante um almoço no Ministério das Relações Exteriores, acrescentando que a orientação de Rice de punir a França tinha sido perdoada.

"A frase foi dita sob outras circunstâncias", disse ele. "O que é importante agora não é punir nem dar lições. Minha atitude é olhar para frente. Sou uma pessoa muito prática."

Com o pragmatismo em mente, o presidente Jacques Chirac, político antigo e experiente, enviou a Bush uma carta escrita à mão, tipo "Cher George", congratulando-o por sua reeleição. O líder francês fez um discurso expressando esperança de um ano de relação de "confiança" com Bush em 2005 e congratulou-o novamente depois das eleições no Iraque.

Em sua nova ofensiva de realidade, Chirac é ajudado por Barnier. Especialista em integração européia, o ministro de relações exteriores francês não tem a personalidade dominante e a visão romântica de grandeza da França de seu predecessor, Dominique de Villepin, que tanto enfureceu Colin Powell quando era secretário de Estado.

"Quero conhecer melhor Condi Rice, estabelecer um relacionamento pessoal com ela", disse Barnier, que já esteve em Washington para encontrá-la desde a reeleição de Bush e promete visitar os EUA a cada três meses.

Ele ressaltou que é muito "diferente" de Villepin, o homem que emergiu como o crítico mais vocal e incansável da marcha do governo Bush para a guerra contra o Iraque. Mesmo assim, Barnier caracterizou seu predecessor como "amigo", "apaixonado", e não "arrogante".

Mas enquanto Chirac e seus ministros tentam se adaptar à realidade de um segundo mandato de Bush, eles ainda se apegam à crença de que Bush e sua equipe têm muito a aprender com a França sobre como dirigir o mundo.

Por exemplo, em uma reunião na semana passada no Palácio Elysée com cinco senadores americanos, Chirac repetiu sua convicção que um "mundo multipolar" com vários centros de poder não é um desejo ou uma aspiração, mas "um fato", disseram três participantes.

Essa descrição do mundo enfurece Bush e Rice, porque requer um poder que compete com os interesses e influência americanos. Apesar disso, Chirac também disse que a melhor forma de tornar mundo multipolar o mais estável possível é fortalecer o relacionamento transatlântico.

"Ele ainda não gosta da idéia de um mundo unipolar com os EUA no topo", disse o senador Democrata Joseph Biden Jr., em entrevista após a reunião.

Os senadores saíram do encontro com Chirac e de um encontro com Villepin, que atualmente é ministro do interior mas ainda pesa na política externa, convencidos de que a França ainda não aceitou que algumas de suas piores previsões sobre o Iraque podiam estar erradas.

Ambos argumentaram ferozmente que a invasão e a ocupação do Iraque pelos EUA tornaram a região mais perigosa. Há atualmente um esforço da França em calibrar sua política externa, enquanto continua afirmando sua influência histórica no Oriente Médio.

Chirac deixou claro aos senadores que a França apoiou a proposta dos EUA de alívio da dívida do Iraque e tinha proposto oferecido ao Iraque o treinamento de 1.500 policiais iraquianos, mas fora do Iraque.

Por outro lado, ele pareceu surpreso com o alto número de votantes nas eleições iraquianas, criticou o governo Bush por desmantelar o exército iraquiano e reafirmou que os soldados franceses não iam colocar os pés no Iraque.

"Minha leitura de Chirac, como velho político, é que estava dizendo: 'Está bem, vocês se saíram melhor do que eu esperava'", disse Biden. "Acho que ele estava dizendo: 'Não estou pronto para entrar e fazer o trabalho pesado em terra. Mas vocês talvez façam, então eu quero estar dentro da jogada'. Ele está tentando manter um pé na plataforma e um no trem, porque o trem pode partir."

Chirac também parece estar tendo dificuldades para explicar sua política no Irã. A França, junto com o Reino Unido, a Alemanha e o apoio da União Européia, começou um processo de negociação para persuadir o Irã a abandonar suas atividades de enriquecimento de urânio, em troca de recompensas econômicas e políticas.

Chirac disse aos senadores americanos que, se o Irã não cumprisse as exigências feitas pela Agência Internacional de Energia Atômica, a França concordaria em enviar o caso ao Conselho de Segurança da ONU. Caso isso aconteça e a vontade dos EUA prevaleça, o Irã poderá enfrentar censuras ou até mesmo sanções.

Mas Chirac deixou claro que as sanções nunca funcionaram e que ele se opunha a elas. Ele também sugeriu que a Republica Islâmica do Irã não era confiável.

"Chirac nos disse que acredita que é possível fazer acordo com sunitas, mas não com xiitas", disse um participante na reunião. A população do Irã é de maioria xiita.

O Palácio do Elysée recusou-se a comentar a conversa.

Os franceses também estão convencidos de que a única forma para iniciar o que Barnier chama de "um novo relacionamento" com Washington é o governo Bush compreender a urgência da paz entre Israel e os palestinos.

Para a França, com sua grande população árabe, muçulmana e judia, a crise entre israelenses e palestinos não é um algo distante, mas um conflito que atinge o coração da Europa e é travado nas ruas diariamente. Durante a crise diplomática da França com os EUA sobre o Iraque, Chirac e outras autoridades expressaram a opinião que, para a França, a crise palestina era muito mais importante do que derrubar Saddam Hussein.

Segundo um dos participantes, Chirac teria dito que há grupos terroristas se movendo pela Europa e em outras partes e que o conflito entre Israel e palestinos é uma das origens essenciais do terrorismo mundial. Chirac teria acrescentado que, quando os militantes eram perguntados sobre suas motivações, "eles sempre voltavam ao conflito israelense-palestino".

Um dos principais obstáculos para melhorar o relacionamento entre o governo Bush e os franceses tem sido a química. Chirac acredita verdadeiramente que suas décadas de experiência em política global tornaram-no um especialista em quase tudo.

Em certo ponto na reunião com os senadores, ele disse que adoraria ter uma conversa privada com Bush, sem tantos assessores, quando os dois homens jantarem juntos em Bruxelas no final do mês, como parte da viagem de Bush à Europa.

"Muitos de nós dissemos que isso seria uma ótima idéia, começar de novo", disse o senador Patrick Leahy, Democrata de Vermont, em uma entrevista após a reunião.

Outro participante, porém, disse que talvez não fosse uma idéia tão boa, observando que em encontros anteriores, Chirac levantou o dedo para Bush e deu aulas sobre assuntos que desconhece. Deborah Weinberg

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