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09/02/2005

Aposentados americanos têm de voltar a trabalhar

The New York Times
Eduardo Porter e Mary Williams Walsh
The New York Times
Para John Lemoine, o processo de aposentadoria foi difícil. Obrigado a aceitar um pacote prematuro de pensão da AT&T há três anos, Lemoine, 54, que ganhava mais de US$ 70 mil anualmente administrando as operações de várias instalações da AT&T, logo descobriu que a aposentadoria não garantia o seu padrão de vida.

A fim de complementar a pensão minguada que recebeu após ter se aposentado, ele primeiro arranjou um emprego que lhe pagava US$ 11 por hora como funcionário de manutenção do Sam's Club próximo da sua casa. A seguir, fez um curso de operador de aparelhos de raios-X e passou a ganhar US$ 17,50 por hora trabalhando como técnico em radiologia em várias clínicas. Ainda incapaz de obter o dinheiro necessário, Lemoine arrumou também um emprego como segurança de uma firma que lhe paga US$ 10,50 por hora.

"Eu também procurei outros empregos", conta Lemoine. "Você se surpreenderia quantos se recusam a contratar devido à idade do candidato".

Mas é melhor que os empregadores se acostumem a examinar currículos de pessoas mais velhas.

Enquanto várias companhias em todo o país cortam os benefícios médicos e odontológicos dos aposentados e outras adotam planos de aposentadoria menos generosos, vários trabalhadores mais velhos que esperavam deixar confortavelmente a força de trabalho quando se aproximassem dos 60 anos, estão descobrindo que não contam com os recursos financeiros necessários para se sustentarem depois de aposentados. Como resultado, muitos estão voltando a trabalhar.

Desde meados dos anos 90, as pessoas mais velhas têm se constituído na porção da força de trabalho que cresce mais rapidamente. O Departamento do Trabalho prevê que os trabalhadores com mais de 55 anos serão 19,1% em 2012, contra 14,3% em 2002.

Até recentemente, a maioria dos economistas dizia que o principal motivo para mais velhos voltarem ao mercado era a atração representada pela vibrante economia dos anos 90. Mas, segundo eles, atualmente muitos norte-americanos voltam a trabalhar por necessidade, e não por escolha.

No momento em que a nação se prepara para uma discussão fundamental sobre o futuro do Social Security (a previdência nos EUA), essas circunstâncias fornecem uma pista sobre as potenciais mudanças no programa federal de apoio a mais de 40 milhões de norte-americanos idosos.

Enquanto as companhias buscam formas de reduzir os seus papéis no pagamento da aposentadoria dos ex-empregados, vários economistas dizem que o programa do Social Security também deveria ser alterado em função do envelhecimento da população.

Alguns observam que a elevação contínua da idade oficial de aposentadoria conjugada ao aumento da longevidade média dos norte-americanos poderia provavelmente garantir para sempre a solvência do Social Security.

"Políticas que promovam uma vida produtiva mais longa poderão aliviar parte dos potenciais estresses demográficos", disse Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, em uma conferência de economistas e elaboradores de políticas públicas em Jackson Hole, Wyoming, no ano passado. "Iniciativas antecipadas para enfrentar os efeitos econômicos da aposentadoria dos baby-boomers (geração nascida entre 1946 e 1964, período de grande taxa de natalidade nos EUA) poderiam suavizar a transição rumo a um novo equilíbrio entre trabalhadores e aposentados".

Até certo ponto, essa transição já está em andamento - embora não da forma proposta por Greenspan, ele próprio com 78 anos de idade. À medida que ficam mais tempo em seus empregos ou vasculham os classificados em busca de vagas para aposentados, os norte-americanos revertem uma tendência de declínio da participação de cidadãos mais velhos na força de trabalho que já durava quase um século.

"Todos com quem falei estão procurando um emprego de meio expediente", conta Jim Drummond, 59, que trabalhou na US Airways, em Pittsburgh, durante 37 anos, e que se aposentou em 1º de janeiro. O seu fundo de aposentadoria faliu recentemente e foi encampado pelo governo. "A aposentadoria não é suficiente, a menos que você seja solteiro e more sozinho".

Gerald Fronek, 62, eletricista da Lucent Technologies, em Lockport, Illinois, planeja agora se aposentar em abril, cinco anos depois que o seu plano original foi frustrado pelo colapso das ações da Lucent, em 2000, um desastre que engoliu a maior parte da poupança da sua vida inteira.

"Eu recebi uma carta ruim no jogo da vida", explica Fronek. "Agora é esquecer e seguir em frente".

Tendo cada vez mais que arcar com o fardo da aposentadoria, muitos aposentados dizem sentir que um contrato social entre trabalhadores e patrões - um conjunto de expectativas estabelecido na segunda metade do século 20 - está sendo desmantelado.

Muitos não só estão descobrindo que não podem se dar ao luxo de se aposentarem, como também se vêem em um mercado de trabalho no qual as companhias que enfrentam intensa competição parecem pretender reduzir os custos. E para isso, uma das medidas adotadas é se livrarem dos trabalhadores mais velhos, que ganham maiores salários.

"Passei 25 anos nesta companhia", conta Lemoine. "Quando fomos contratados havia a idéia de que quanto mais dedicados fôssemos à companhia, mais ela tomaria conta de nós".

Muitos economistas afirmam que as circunstâncias pessoais estão também obrigando os norte-americanos mais velhos -e que, com menos de 65 anos, ainda não podem usufruir dos benefícios do Medicare - a aceitar empregos que em outra época teriam desprezado, a fim de que possam arcar com o preço dos planos de saúdes e dos custos de outras necessidades.

"Nas recessões dos anos 80, e até mesmo do início dos 90, a maior queda dos índices de participação ocorreu entre a população na faixa etária entre 50 e 70 anos", diz Gary Burtless, economista da Brookings Institution que estuda questões relativas à aposentadoria.

"Mas isso não é o que ocorre desde 2000", afirma. "A minha impressão é que o que mudou foi a persistência e o desejo dos trabalhadores mais velhos no sentido de aceitarem empregos que não aceitariam 15 ou 20 anos atrás".

Joe Jason, por exemplo, se aposentou três anos atrás, quando tinha 55 anos, de um emprego na área de engenharia na Lucent, que lhe pagava US$ 83 mil por ano, passando a receber uma aposentadoria de US$ 35 mil anuais. Mas agora ele procura novamente por trabalho a fim de arcar com o plano de saúde da família, que foi cortado pela Lucent no ano passado.

E ele não está se lamentando. Em janeiro, ele e a mulher, Mary, ganharam US$ 140 em dois dias entregando catálogos telefônicos para a Qwest. "Se precisar, dirigirei um ônibus escolar", garante.

Entre os trabalhadores mais vulneráveis estão aqueles que fizeram as suas carreiras em alguns dos titãs do passado - companhias como a United Airlines, a AT&T e a Bethlehem Steel.

Na era do baby boom, quando a oferta de trabalho era abundante, as grandes empresas podiam oferecer generosos pacotes de benefícios e incentivos valiosos para que os funcionários se aposentassem mais cedo. Grandes sindicatos como o Teamsters e a United Auto Workers também promoveram a aposentadoria precoce, a fim de abrir espaço para novas contratações.

Atualmente, após várias reduções das folhas de pagamento, muitas companhias reduziram substancialmente as suas forças de trabalho a fim de sobreviverem à intensa concorrência doméstica e externa. No entanto, o resultado disso foi que acabaram tendo que dar conta de grandes grupos de aposentados, que recebem benefícios por um período bem maior do que o antecipado.

A Lucent, por exemplo, possui apenas 20 mil trabalhadores ativos nos Estados Unidos para gerar os recursos necessários para parte do pagamento de 120 mil aposentados, cujos planos de saúde custaram no ano passado cerca de US$ 775 milhões, uma quantia equivalente a 70% do lucro líquido da Lucent. Assim, a companhia tem procurado agressivamente reduzir a cobertura dos planos de saúde que oferece aos seus aposentados, fazendo com que funcionários mais velhos reavaliem os seus planos de aposentadoria.

"Simplesmente não somos capazes de absorver os custos com a saúde dos aposentados norte-americanos segundo este patamar e, ao mesmo tempo, continuarmos sendo uma empresa sustentável e competitiva", anunciou a Lucent aos seus gerentes prestes a se aposentarem em setembro passado, a fim de justificar uma nova série de cortes dos benefícios de saúde.

Ainda mais crítico foi o colapso dos planos de saúde pagos pelas companhias, obrigando um número cada vez maior de funcionários a se agarrar a certos empregos - na verdade, a quase todo emprego -, a fim de contarem com planos de saúde até que a cobertura do Medicare entre em vigor, quando fizerem 65 anos.

Em 1988, dois terços de todos os patrões ofereciam planos de saúde aos seus aposentados. No ano passado apenas um terço deles adotava essa prática. E os patrões que oferecem cobertura estão obrigando os trabalhadores a arcarem cada vez mais com os custos. Em 2004, 79% deles aumentaram as taxas mensais cobradas dos aposentados. Uma pesquisa feita pela Watson Wyatt, uma firma de consultoria especializada na análise dos benefícios concedidos pelas empresas, revelou que a falta de seguro saúde financiado pelas companhias aumentou a idade média de aposentadoria em dois anos para as mulheres e 1,5 ano para os homens.

"Atualmente, o plano de saúde para aposentados é talvez o mais importante fator determinante na decisão de se aposentar", afirma Jonathan Gruber, professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Janson, o ex-engenheiro da Lucent, concorda com este ponto de vista. Ainda que tenha duas filhas adolescentes em casa, e a mulher, Mary, não trabalhe fora, ele tinha condições de permanecer aposentado enquanto a Lucent pagasse o plano de saúde da família. Mas no ano passado a empresa deixou de pagar pela cobertura dos seus dependentes. Isso o deixou com uma despesa mensal extra de cerca de US$ 500.

"Estávamos conseguindo dar conta das despesas até eles retirarem a cobertura médica", lamenta Janson. "Foi como se a companhia puxasse o tapete que estava sob os meus pés".

Janson também está tendo problemas por ter investido a maior parte da sua poupança para aposentadoria em ações da Lucent. As ações que comprou por US$ 80 valem agora menos de US$ 4 e a sua poupança, que em 1999 era de US$ 700 mil, vale agora menos de US$ 150 mil.

Para os norte-americanos que caminham para a aposentadoria, o contraste com as gerações anteriores é enorme. Uma família típica chefiada por uma pessoa que tenha entre 47 e 64 anos é atualmente mais pobre do que uma família similar em 1983. O principal motivo para isso foi o fim das pensões tradicionais, segundo Edward Wolff, economista da Universidade de Nova York que analisou dos dados do Federal Reserve.

Lemoine tem sorte porque a AT&T ainda oferece um plano de saúde que cobre toda a sua família, mesmo que a mensalidade de US$ 421,52 seja maior do que o seu contracheque de aposentado. Uma lesão que sofreu na cabeça em um acidente de carro em agosto último fez com que tivesse que deixar de trabalhar como segurança e técnico em radiologia.

Isso fez com que a maior parte da renda para a manutenção de uma família que tem quatro adolescentes ficasse por conta da mulher, Susan, 41, que recebe um salário modesto como auxiliar de advocacia. A mãe de Lemoine, uma senhora de 80 anos, também ajuda, emprestando dinheiro à família.

A situação modificou profundamente a previsão de Susan Lemoine com relação ao futuro.

"Terei que trabalhar até morrer", lamenta. Idosos estão sendo afetados pela queda de renda Danilo Fonseca

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