UOL Notícias Internacional
 

09/02/2005

Um fenômeno censurado é revisitado

The New York Times
Charles McGrath

The New York Times
NOVA YORK - Karl Marx teria observado isso, se fosse mais experiente em relações publicas: a história se repete, primeiro como documentário, depois em mesa redonda.

Na noite de segunda-feira (07/2) estreou em Nova York "Inside Deep Throat" (dentro da 'Garganta Profunda'), um filme sobre a produção do filme pornográfico pioneiro de 1972. Os convidados -que incluíram Claire Danes, Dana Ivey, Ron Silver, Kurt Andersen, Tina Brown, Erica Jong e Brian Grazer, produtor do documentário -entraram altivos no Paris Theater. Eles não se esconderam por trás de jornais como fez o público do filme original, até que pessoas como Jacqueline Onassis e Truman Capote tornaram ver "Garganta Profunda" algo elegante e quase respeitável. Eles também não recorreram à velha estratégia de espectadores de pornô, de dar a volta no bloco duas vezes antes de entrar no cinema discretamente, quando ninguém está olhando.

Os convidados assistiram o documentário intensamente, rindo várias vezes e batendo palmas no final. Depois da sessão, ouviram alguns especialistas, inclusive Judith Regan, que publicou o livro, e os professores de direito Catharine A. MacKinnon, de Michigan, e Alan M. Dershowitz, de Harvard. Eles discutiram o fenômeno da "Garganta Profunda", sem chegar a muitas conclusões sobre o que poderia ou não significar.

Nem Regan nem Dershowitz, afinal, tinham visto "Garganta Profunda". Dershowitz, que defendeu o astro do filme, Harry Reems, em um processo por obscenidade, disse que não precisava ver o filme para saber que uma questão importante relativa à Primeira Emenda estava em jogo. Regan aparentemente foi convidada a opinar como "pornocrata", para usar um termo que foi citado algumas vezes, por ter sido editora de "The Surrender" (a entrega), livro de memórias de Toni Bentley sobre o sexo anal, e "How to Make Love Like a Porn Star" (como fazer amor como uma estrela de pornô), de Jenna Jameson. No entanto, ela alegou não ser especialista.

Regan não foi uma das milhares de garotas que buscavam emoções e fizeram fila no World Theater, na Rua West 49, onde "Garganta Profunda" foi apresentado pela primeira vez. Ela contou que ficou sabendo de Jameson por meio de seu filho, que deixou a fraternidade onde morava no MIT porque seus colegas só queriam ver vídeos de Jameson.

Além disso, Regan provou-se uma surpreendente aliada de MacKinnon, que durante anos representou Linda Lovelace, a outra estrela de "Garganta Profunda", depois de Lovelace alegar que tinha sido coagida a aparecer no filme e tentar impedir sua apresentação. O novo documentário, disse a editora, conta apenas parte da verdade. Ao se concentrar na censura, não abordou o fato de filmes pornográficos explorarem sexualmente as mulheres e de, em geral, empregarem mulheres, como Lovelace, com um histórico de abuso sexual, acrescentou.

Regan lembrou a todos que "How to Make Love Like a Porn Star" tem como subtítulo "A Cautionary Tale" (um conto de advertência). Ela disse que, apesar de todo o sucesso financeiro de Jameson, a autora não era feliz e que escrever o livro a tinha levado a compreender como tinha sido explorada. Apesar de não ser contra a venda de algumas cópias -por isso o livro tem uma capa sugestiva e algumas fotografias de topless no interior- parte da razão para publicar o livro era estimular Jameson e mulheres como ela a começarem a explorar suas próprias histórias.

A outra grande questão da noite era se assistir pornografia faz mal. Absolutamente não, disse Dershowitz, que citou evidências mostrando que, apesar de filmes pornográficos tornarem-se cada vez mais disponíveis, a incidência de estupros está declinando. MacKinnon também apresentou alguns estudos e meta-estudos -ou seja, estudos de estudos- mostrando que o consumo de pornografia "aumenta a freqüência de atos e atitudes de violência contra as mulheres".

Essa não foi a primeira vez que os dois discutiram, e agora parecem ter seus papéis bem treinados. Ela revirou os olhos discretamente enquanto ele falava uma frase tão boa que parecia ter sido preparada com antecedência: "Michigan acha que tudo que Harvard faz, pode fazer meta".

"Inside Deep Throat" inclui cenas do original e foi filmado de forma a sugerir a aparência grosseira e lúrida dos filmes pornográficos de 30 anos atrás. Pelo que mostra, a produção (se não o consumo) de filmes pornográficos pode ter um estranho efeito de envelhecimento. Nos segmentos de entrevistas, o diretor, Gerard Damiano (cuja obra inclui "The Devil in Miss Jones", "Meatball", "Manbait" e "Manbait 2"), o gerente de produção, Ron Wertheim, e Count Sepy, em cuja adega foi filmada parte da ação, parecem um pouco encarquilhados e excessivamente enrugados. Até estrelas de Damiano como Andrea True e Georgina Spelvin estão, tristemente, dando sinais dos anos.

A única exceção é Harry Reems (ou seja, Herbert Streicher), que depois de anos de vício em álcool e drogas se recompôs e -agora magro e grisalho- trabalha como agente imobiliário em Park City, Utah. Ele compareceu à estréia, sorrindo, cumprimentando os outros e dando a impressão de nunca assistir nada mais excitante do que "Wall Street Week".

"Não vejo um filme pornô há 25, 30 anos", disse ele. "Não preciso. Estou casado e feliz agora." Estréia em NY documentário sobre filme pornô Deborah Weinberg

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