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10/02/2005

Emoção súbita pode enfraquecer o coração

The New York Times
Denise Grady

The New York Times
O estresse emocional súbito -de dor, medo, raiva ou choque- pode causar
deficiência cardíaca, em uma síndrome pouco conhecida ou compreendida que parece afetar principalmente as mulheres. As vítimas geralmente são
saudáveis, sem histórico de doenças cardíacas, dizem os pesquisadores que estão divulgando o estudo nesta quinta-feira (10/2).

Morte na família, assalto armado, acidente de automóvel, biópsia e uma festa surpresa foram alguns dos eventos que enviaram 18 mulheres e um homem a unidades de tratamento coronário em Baltimore com dores no peito e enfraquecimento do coração, de acordo com o artigo na revista The New England Journal of Medicine.

A maior parte era mais velha: a idade média era de 63 anos. Uma das vítimas, porém, tinha 27 anos, e outra, 32. Algumas ficaram com o coração tão debilitado que teriam morrido sem tratamento agressivo para manter seu sangue circulando, disseram os pesquisadores, mas todas se recuperaram.

Os casos foram descritos por médicos da Universidade Johns Hopkins, que
trataram dos pacientes entre 1999 e 2003.

A nova pesquisa sobre a condição, apelidada de síndrome do coração partido, sugere que pode haver alguma verdade na antiga idéia de que uma pessoa pode morrer de susto ou de dor, como personagens de um romance ou de uma canção.

"É importante as pessoas saberem que isso é algo que o estresse emocional de fato pode provocar", disse Ilan Wittstein, cardiologista da Faculdade de Medicina da Johns Hopkins e principal autor do artigo.

"Não sabemos exatamente como ocorre, mas os pacientes apresentaram níveis extraordinariamente altos de substâncias cerebrais relacionadas ao estresse e hormônios como adrenalina, que podem ter prejudicado temporariamente a função cardíaca. Também não se sabe por que quase todas as vítimas eram mulheres."

O nome científico para a condição é cardiomiopatia de estresse. Não é um
ataque cardíaco, apesar de poder ser confundido com um. Os pacientes se
recuperaram plenamente e, diferentemente de vítimas de ataque cardíaco, não sofreram dano duradouro no músculo cardíaco.

Os pesquisadores dizem que é importante distinguir a síndrome de um ataque cardíaco para que as pessoas possam ser tratadas adequadamente e saibam que seus corações estão saudáveis, em vez de serem informadas de que têm doença coronária e tomarem remédios para o coração para o resto das vidas. Um diagnóstico de ataque cardíaco também pode dificultar o ingresso do paciente em um seguro de vida ou de saúde.

Ataques cardíacos ocorrem quando um coágulo sangüíneo em uma artéria
coronária impede a circulação do sangue para o músculo cardíaco, que então pode morrer. O estresse emocional pode provocar um ataque cardíaco em quem tem doença coronária.

Mas com a deficiência cardíaca induzida pelo estresse, os pacientes não têm coágulos, artérias doentes ou morte de partes do músculo cardíaco. Eles têm um enfraquecimento do coração que diminui sua capacidade de bombeamento, mas é temporário.

"O prognóstico parece ser excelente", disse Wittstein. "É incrivelmente
importante a pessoa não ir embora pensando que teve um grande ataque
cardíaco. Médicos e pacientes devem saber disso."

A freqüência da condição é desconhecida, mas a severidade parece variar
entre suave e mortal. Algumas pessoas podem se sentir um pouco doentes por um curto período de tempo e nunca visitarem o médico, enquanto outras podem morrer se não forem tratadas, disse ele.

"A única coisa que torna a doença incomum é a incapacidade de reconhecê-la", disse Wittstein, acrescentando que o número de casos deve aumentar na medida em que os médicos aprenderem a diagnosticar a síndrome. Quando ele dá palestras a respeito da síndrome em conferências médicas, muitas vezes os participantes o procuram depois e dizem: "Sabe, acho que vi um caso assim", disse ele.

Alguns cardiologistas, porém, ainda têm dúvidas sobre a condição, disse ele.

"É claro que não vai se tornar tão comum quanto um ataque cardíaco
convencional", disse Wittstein, acrescentando que ele e seus colegas viam
cerca de meia dúzia de casos por ano.

"Mas eles parecem surgir em ondas", disse ele. "Tivemos três nos últimos 10 dias".

Um de seus pacientes foi uma mulher de 60 anos cuja família tinha feito uma festa surpresa para ela.

"Várias pessoas pularam do escuro e gritaram: 'Surpresa!' Três horas depois, literalmente, ela estava na unidade de tratamento intensivo", disse Wittstein.

Outro paciente foi Sharon Lawson, assistente social aposentada. Há dois anos, Lawson, então 61, estava no centro cirúrgico fazendo uma biópsia do pulmão para determinar se o câncer de um tumor no rim tratado em 1991 tinha se espalhado. Sua filha ia se casar alguns meses depois, e a principal preocupação de Lawson era planejar e participar da cerimônia.

"Eu queria muito estar presente", disse ela. Deitada na mesa da clínica, ela rezava. Depois se sentiu desmaiando e chamou os médicos, quando deu por si, estava sendo levada correndo pelos corredores.

Seu coração estava bombeando tão devagar que os médicos concluíram que a única forma de salvar sua vida seria introduzir um aparelho chamado balão bomba pelos vasos sangüíneos até sua aorta, para ajudar a circular o sangue.

Ela também foi colocada em um respirador.

"Eu comecei a me recuperar rapidamente, tão rápido que foi difícil entender a gravidade do que acontecera", disse ela. "Mas eles me disseram que eu estava em uma situação que, se aquilo tudo não tivesse funcionado, procedimentos mais sérios teriam que ser considerados, até mesmo um transplante."

Em dois dias teve alta; três semanas depois sua função cardíaca era normal.

Wittstein disse que ele e seus colegas começaram a pensar na cardiomiopatia de estresse em 1999, quando duas ou três mulheres chegaram ao hospital com sérios ataques cardíacos.

"No entanto, tinham algumas características clínicas únicas, que não eram
típicas de um ataque cardíaco normal", disse ele.

Seus eletrocardiogramas tinham um padrão distinto, "assustadoramente
anormal", disse ele, e certos exames de sangue não batiam com os resultados normais em vítimas de ataques cardíacos. Além disso, elas não tinham artérias bloqueadas ou coágulos sangüíneos. Seus ecocardiogramas mostravam o coração batendo em "um padrão incrivelmente incomum de contração para um ataque cardíaco", disse Wittstein.

As pacientes também se recuperaram muito mais rápido do que vítimas de
ataques cardíacos.

"Nós entendemos que havia algo muito diferente nessas pacientes", disse
Wittstein.

"Voltamos e olhamos para seus históricos detalhados. O que tinham em comum era um trauma emocional."

Vários cardiologistas não conectados com o estudo disseram em entrevistas que também tinham tido pacientes como os descritos por Wittstein. Valentin Fuster, diretor do instituto cardiovascular da Escola do Monte Sinai de Medicina em Manhattan, disse ter tido três desses pacientes e acrescentou: "A coisa importante é o prognóstico. É razoavelmente bom."

Fuster acrescentou, melancolicamente, que vinha preparando um artigo sobre o distúrbio, mas que a equipe do Johns Hopkins tinha sido mais rápida.

Maryjane Farr, diretora do programa de deficiência cardíaca do Centro Weill Cornell no Hospital Presbiteriano de Nova York, disse que os médicos em seu hospital também tinham visto casos similares, quase todos mulheres, e fizeram uma conferência a respeito nesta semana, antes de saberem do artigo de Wittstein.

"Em suas observações, as pessoas concordam com o conceito", disse Farr.

Outra cardiologista, Deborah Davis Ascheim, do centro de parada cardíaca do Centro Médico da Universidade de Columbia disse: "É intrigante, mas não concordo." Ela disse, entretanto, que a teoria merecia mais estudos.

Os médicos da Johns Hopkins e Fuster disseram que achavam que a síndrome ocorria porque a onda gigantesca de adrenalina nesses pacientes era tóxica para o músculo cardíaco e o deixava temporariamente incapaz de se contrair. Síndrome pouco conhecida parece afetar sobretudo as mulheres Deborah Weinberg

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