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10/02/2005

Escolas de kung fu "Shaolin" proliferam na China

The New York Times
Howard W. French

The New York Times
Um gasto pavimento de lajes leva até uma leve rampa, que passa por um portão imponente e por imensas estátuas de ferozes espíritos guardiões. Um beiral azulejado de um templo se ergue atrás de uma gigantesca árvore ginkgo, quase vergando sob o peso do acúmulo de neve.

De repente, o bater de martelos e o chiado de uma serra elétrica interrompem o devaneio. Apenas neste momento é que fica claro que este não é um templo antigo, mas uma recriação. A impressão é confirmada por um olhar para as cores dos espigões, impossivelmente brilhantes para qualquer coisa realmente velha.

NYT
O templo Shaolin, que atrai milhares de turistas todos os anos para a China
Sensações discordantes podem ser perdoadas. Como qualquer templo, o berço da forma mais famosa de kung fu da China supostamente é um espaço de tranqüilidade e meditação. Mas o Shaolin se tornou um elemento tão forte da cultura popular chinesa que grande parte da vida deste templo sagrado envolve a recepção aos turistas pagantes que chegam durante o ano todo aos milhares.

Para os monges do Templo Shaolin, as crises de identidade não são novidade.

O kung fu shaolin é um entretenimento popular ou um exercício solene? É uma fábrica de dinheiro ou instrumento de desenvolvimento espiritual? Este local idílico nas Montanhas Song da província de Henan é um retiro contemplativo ou um parque temático? A resposta curta para todas estas perguntas, é claro, é sim.

Há até mesmo duas versões de como tudo começou. O relato oficial, uma
mistura de história e conhecimento religioso, situa a origem da tradição
shaolin no sexto século. Um monge budista da Índia chamado Bodhidharma, ou Damo, se estabeleceu aqui e começou a instruir os monges locais nas escrituras e exercícios físicos que ainda são a base do kung fu.

Mas se a pergunta é mais sobre quando este país ficou louco por kung fu,
então as origens passam por milhares de filmes até "O Templo de Shaolin", estrelado por Jet Li, o astro chinês de filmes de ação.

Li, quatro vezes campeão nacional de artes marciais, filmou o primeiro
sucesso de kung fu da China em 1979 (ele foi lançado no Ocidente em 1982), no momento em que a China estava embarcando em sua liberalização econômica.

Os cineastas extraíram sua trama da mais famosa lenda do então arruinado Templo Shaolin, a história dos 13 monges que resgataram o imperador Tang de um maligno senhor da guerra.

O resto é, como dizem, história. Atualmente a estrada para o Templo Shaolin está literalmente tomada por academias de kung fu, que no último
levantamento ultrapassavam 50. As escolas são imensas, algumas com mais de 10 mil estudantes, que vêm de toda a China para treinar durante todo o ano, mesmo agora, neste clima de gelar os ossos, na esperança de se tornarem o próximo Jet Li do país.

Para os monges que dirigem o Shaolin, a popularidade explosiva do kung fu
shaolin não vem sem problemas. Um deles é que qualquer um vagamente
familiarizado com as artes marciais chinesas e com um pouco de senso
comercial, aqui ou no exterior, pode pendurar uma tabuleta alegando ser uma escola de kung fu shaolin.

Os líderes do templo dizem que estão cheios desta degradação e estão
persuadindo o governo chinês a declarar o nome como uma marca reconhecida, o protegendo segundo as regras da Organização Mundial de Comércio. O templo também está na curta lista de reconhecimento como Patrimônio da Humanidade pela ONU, protegendo o nome, que eles consideram tanto como uma marca valiosa quanto um termo de importância espiritual.

"Shaolin quer preservar nossa singularidade, pelos mesmos motivos que os
países desenvolvidos valorizam a individualidade", disse o líder do templo, ou abade, que atende pelo nome de Yongxin. "É um processo pelo qual a sociedade tem que passar, disseminando padrões. O que Shaolin está tentando fazer é trabalhar segundo nossas origens, a partir do básico, e estamos nos saindo muito bem."

A vida dos monges, ele disse, é simples e austera, com freqüente meditação e serviços de cantos de orações. "É um estilo de vida que dura mais de 1.000 anos", disse Yongxin, um homem de baixa estatura, careca e atarracado de 40 anos, que caminha pelos alojamentos frios mas ornamentados em longos mantos de cor mostarda, atendido por monges que servem chá. "Nós acordamos às 4 horas da manhã e fazemos o desjejum às 7 horas e o almoço às 11h30. Há aulas matinais e noturnas, orações e leitura das escrituras." Também há, ele se esqueceu de dizer, exercícios diários de kung fu.

Entre as origens budistas distantes do Shaolin e seu renascimento ao estilo Hollywood, o templo já viu mais do que sua cota de altos e baixos. Ele quase foi totalmente consumido pelo fogo nos anos 20, durante a guerra civil chinesa, e foi danificado ainda mais durante a ocupação japonesa 20 anos depois. O kung fu foi proibido pelos comunistas nos anos 50, e durante a Revolução Cultural, nos anos 60, os monges, que eram submetidos a humilhação pública e surras, abandonaram o templo.

O atual renascimento foi quase que totalmente supervisionado por Yongxin.
Apesar de sua reputação como um mestre do kung fu, como a maioria dos monges daqui, sua aparência está longe de ser feroz. De fato, sua arma mais formidável parece ser as misteriosas conexões com o governo, que lhe permitiram reclamar as extensas terras ao redor do templo, as livrando das lojas de quinquilharias, hotéis e outras armadilhas para turistas.

"Por toda a história, o Templo Shaolin tem servido aos imperadores", disse Liang Yiquan, 74 anos, o diretor da Escola Epo de Artes Marciais Shaolin, comentando sobre a influência do abade. "Agora ele serve ao Partido Comunista. Há um elemento político nisto."

Ao ser perguntado se a popularidade do Shaolin era uma bênção ou uma
maldição, Yongxin respondeu filosoficamente. "Ter tantas escolas ensinando kung fu não autêntico pode não ser tão ruim, desde que ajude a promover o budismo", disse ele. "Nós não somos contra a busca de interesses comerciais. Nós apenas esperamos exercer um papel positivo na sociedade, sem violar ao mesmo tempo um espírito que tem 1.500 anos de idade." Templo dos monges guerreiros convive com os tempos modernos George El Khouri Andolfato

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