UOL Notícias Internacional
 

11/02/2005

Coréia do Norte afirma que tem armas nucleares e que se recusa a negociar seu uso

The New York Times
James Brooke

Em Tóquio
Em uma confissão surpreendente, o governo comunista de linha dura da Coréia do Norte declarou publicamente pela primeira vez nesta quinta-feira (10/02) que possui armas nucleares.

O governo norte-coreano anunciou ainda que boicotará as conversações regionais patrocinadas pelos Estados Unidos que têm como objetivo acabar com o programa nuclear do país, segundo um comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Coréia do Norte transmitido na quinta-feira por uma rede nacional de notícias.

Pyongyang disse ter "fabricado armas nucleares para autodefesa a fim de enfrentar a evidente política do governo Bush no sentido de isolar e asfixiar a Coréia do Norte", e também que vai "fortalecer o seu arsenal de armas nucleares".

A declaração, considerada um pronunciamento político definitivo, ressaltou que a Coréia do Norte, liderada pelo solitário ditador Kim Jong Il, está abandonando as conversações após concluir que a segunda administração Bush continuaria com "a ousadia e as táticas dúbias" do diálogo e da "implementação das mudanças de regime".

Quatro horas antes de a Agência Central Coreana de Notícias transmitir o comunicado, autoridades graduadas do governo norte-americano disseram aos repórteres aqui que o retorno da Coréia do Norte às conversações sobre o programa nuclear era esperado pelos outros participantes --Estados Unidos, Japão, Coréia do Sul, Rússia e China.

"A responsabilidade realmente cabe à Coréia do Norte", disse John R. Bolton, subsecretário de Estado para o Controle de Armamentos e Segurança Internacional, observando que a última vez em que os participantes se reuniram foi em junho do ano passado.

Referindo-se à capacidade de fabricação de uma bomba pela Coréia do Norte, ele acrescentou: "A ausência de progresso nas conversações significa que eles estão caminhando rumo a um aumento dessa capacidade".

Não se sabe ao certo se a Coréia do Norte está cerrando definitivamente a porta para as conversações ou se tenta simplesmente elevar o preço para o seu retorno à mesa de negociações.

"Somos obrigados a suspender a nossa participação nas conversações por um período indefinido", disse o comunicado, acrescentando que a Coréia do Norte só retornará quando "houver amplas condições e ambiente para que haja motivos para esperar resultados positivos das conversações".

O porta-voz do presidente Bush, Scott McClellan, disse que as últimas palavras e ações da Coréia do Norte "somente aprofundam o seu isolamento em relação à comunidade internacional".

Quando lhe perguntaram se a Casa Branca via a declaração como uma mudança na política da Coréia do Norte, McClellan disse: "Essa é uma retórica que já ouvimos antes. É dessa maneira que eu descreveria o episódio".

Falando aos jornalistas no avião presidencial Air Force One quando o presidente Bush viajava para a Carolina do Norte, McClellan disse que os Estados Unidos se uniram aos vizinhos da Coréia do Norte ao enviarem "uma mensagem clara e unificada de insatisfação".

"E, para que a Coréia do Norte saia do seu isolamento e mantenha melhores relações com a comunidade internacional é necessário que retorne às conversações entre os seis países e que discuta como podemos prosseguir", afirmou.

Da Europa, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, disse à rede de televisão RTL, de Luxemburgo: "Os norte-coreanos deveriam reavaliar essa atitude e tentar por um fim ao seu próprio isolamento". Um apelo similar foi feito pelo Japão, o maior aliado norte-americano na região.

Em Nice, França, onde participa de uma reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, disse em uma coletiva à imprensa que não "sabia ao certo" se a Coréia do Norte possui armas nucleares, embora estivesse ciente da declaração desta quinta-feira.

Afirmando não desejar que seus comentários sejam tomados como uma confirmação, Rumsfeld acrescentou que se a declaração for verdadeira, "é preciso se preocupar com o fato de armas tão poderosas estarem em mãos de uma liderança daquela natureza".

Em Londres, o secretário-geral Kofi Annan, da Organização das Nações Unidas (ONU), disse esperar que os norte-coreanos possam ser trazidos de volta às negociações sobre armamentos nucleares. "Espero que essa não seja uma posição definitiva", afirmou.

Em Pequim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Kong Quan, disse que a China espera que as conversações com a Coréia do Norte tenham continuidade, segundo uma declaração divulgada pela Agência de Notícias Nova China.

O primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, disse aos repórteres a respeito da decisão norte-coreana de boicotar as conversações: "É melhor que eles as retomem rapidamente. Participar do fórum das seis partes é algo do interesse da Coréia do Norte".

De forma geral, a declaração foi um balde de água fria para os analistas que previram uma retomada das conversações no segundo trimestre deste ano. Dois grupos de congressistas norte-americanos retornaram no mês passado de uma visita a Pyongyang com relatos de que autoridades norte-coreanas deram sinais de que voltariam em breve à mesa de negociações.

No seu Discurso sobre o Estado da União, na semana passada, o presidente Bush evitou a retórica de confronto característica dos discursos passados, nos quais disse que a Coréia do Norte seria integrante do "eixo do mal", juntamente com Iraque e Irã.

Desta vez, na sua única referência a Pyongyang, ele disse meramente que está "trabalhando com os governos da Ásia no sentido de convencer a Coréia do Norte a abandonar as suas ambições nucleares".

Mas na declaração de quinta-feira, Pyongyang não deixou passar em branco o discurso de confirmação de Rice no Senado, feito no mês passado. Nele a secretária colocou a Coréia do Norte ao lado de cinco outras ditaduras, chamando-as de "bastiões da tirania".

"A intenção verdadeira do segundo governo Bush não é apenas a de dar prosseguimento à sua política de isolar e asfixiar a República Democrática Popular da Coréia, conduzida durante o primeiro mandato, mas também de intensificá-la", disse o comunicado norte-coreano.

Críticos externos e desertores dizem que a Coréia do Norte não é nem democrática nem popular, já que nos últimos 60 anos foi governada pela família Kim, um clã sedento de poder que não permite eleições multipartidárias ou o menor traço de divergência. Na quinta-feira Pyongyang mandou o governo Bush "conversar com os norte-coreanos que Washington aprecia".

"Aconselhamos os Estados Unidos a negociarem com comerciantes em mercados de camponeses que eles dizem apreciar, ou com os representantes da organização de desertores norte-coreanos que recebem dinheiro norte-americano, caso desejem manter conversações", disse o comunicado.

Japão

No mesmo comunicado, a Coréia do Norte também atacou o Japão por "seguir a linha dos Estados Unidos". Tóquio tem enfrentado forte pressão popular favorável à adoção de sanções econômicas. Na terça-feira, o primeiro-ministro Koizumi recebeu pessoalmente uma petição pedindo sanções, assinada por cinco milhões de pessoas.

A fúria dos japoneses com relação à Coréia do Norte aumentou consideravelmente no mês passado, após Pyongyang ter entregado a uma delegação de diplomatas japoneses que visitavam a capital norte-coreana duas caixas de restos mortais semicremados, que seriam os de uma mulher japonesa seqüestrada do Japão por agentes norte-coreanos na década de 70.

Análises de DNA revelaram que os restos mortais não eram os da mulher japonesa, mas de duas pessoas não identificadas. Não se sabe se a Coréia do Norte, que controla rigidamente as informações provenientes do mundo externo, sabia da existência da tecnologia de identificação por DNA. O comunicado de quinta-feira afirma que o Japão "forjou a história dos falsos restos mortais".

Os japoneses de linha conservadora afirmam cada vez mais que Koizumi deveria repudiar as trapaças daquele que segundo eles é um Estado falido que se esconde rotineiramente atrás de ameaças.

"No início deveríamos impor sanções econômicas", disse Shintaro Ishihara, o governador conservador de Tóquio, em uma entrevista à tarde, pouco antes do comunicado norte-coreano sobre as armas nucleares.

"Em um segundo estágio, deixe-os bombardear o Japão com aquele míssil grotesco", disse Ishihara com sarcasmo no seu escritório, situado no edifício mais alto de Tóquio. "O míssil deles é incapaz de lançar uma ogiva nuclear". Ao lhe perguntarem o que o Japão faria em resposta a um ataque com míssil, Ishihara simplesmente sorriu.

Os Estados Unidos disseram que a Coréia do Norte possui até oito bombas nucleares. Mas o país nunca explodiu bombas atômicas.

Há um ano, Siegfried Hecker, ex-diretor do laboratório de armas nucleares em Los Alamos, Novo México, visitou Yongbyon, a principal instalação nuclear da Coréia do Norte. Embora a Coréia do Norte tenha aparentemente organizado a visita para persuadir os norte-americanos de que dominam a tecnologia nuclear, Hecker voltou para casa dizendo não estar convencido de que a Coréia do Norte é capaz de fabricar uma bomba nuclear e instalá-la em um míssil.

Histórico

Meio século após a Guerra da Coréia, a Coréia do Norte ainda não assinou um tratado formal de paz com a Coréia do Sul e seu principal aliado, os Estados Unidos.

Em setembro de 1991, em uma tentativa de desnuclearizar a península dividida, o presidente George H.W. Bush anunciou a retirada de todas as armas táticas norte-americanas da Coréia do Sul, cujo número chegava a cem. Em dezembro de 1991 as duas Coréias assinaram um acordo formal se comprometendo a não produzir, testar ou armazenar armas nucleares.

No decorrer da década de 90, a Coréia do Sul realizou aquilo que hoje parecem ter sido vários experimentos pequenos e desconexos com tecnologia relacionada a armas nucleares. A Coréia do Norte concordou em cancelar um programa nuclear a base de Plutônio.

Mas em 2002, uma autoridade norte-americana confrontou Pyongyang, apresentando evidências de que a Coréia do Norte não vinha honrando as suas promessas quanto à questão nuclear, já que teria um programa secreto de enriquecimento de urânio.

Em resposta, a Coréia do Norte expulsou os inspetores internacionais de Yongbyon, anunciou que estava abandonando o Tratado de Não-Proliferação e disse estar construindo aquilo que chamou, de forma ambígua, de "sistema dissuasor nuclear".

As conversações de seis nações sobre desarmamento tiveram início em agosto de 2003 em Pequim, mas não levaram a nenhum resultado tangível. País anuncia boicote aos acordos patrocinados pelos americanos Danilo Fonseca

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