UOL Notícias Internacional
 

11/02/2005

Estupro étnico destrói vidas na guerra do Sudão

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Geneina, Sudão
Fatouma passa seus dias sob o teto de lona plástica de sua tenda, sentada em uma esteira de palha, olhando para a criatura que se contorce em seus braços. Ela examina repetidas vezes os dedos perfeitamente formados dos pés e mãos, e os minúsculos membros, ainda curvados na forma que assumiram após deixar seu ventre, cinco dias atrás, e agora envoltos em amuletos para espantar o mal.

Michael Kamber/The New York Times

Adolescente de 16 anos em campo de refugiados segura o filho, que concebeu após ser violentada
Tudo neste bebê, declarou a mãe de 16 anos, é perfeito. Quase tudo. "Ela é uma janjaweed", disse Fatouma suavemente, se referindo aos temíveis milicianos árabes que aterrorizam a região. "Quando as pessoas virem sua pele clara e seu cabelo suave, elas saberão que ela é janjaweed."

A filha de Fatouma é um dos vários bebês produzidos por um dos aspectos mais horríveis do conflito em Darfur, a vasta região árida no oeste do Sudão: o uso de estupro contra mulheres e meninas em uma batalha brutal por terra e etnia que matou dezenas de milhares e expulsou 2 milhões de pessoas de suas casas.

As entrevistas com parteiras tradicionais e organizações de ajuda humanitária aqui indicaram que há provavelmente duas dúzias de tais bebês apenas em Al Riyadh, o campo de refugiados onde Fatouma vive. É um dos vários locais para onde as pessoas de etnia africana fugiram em Darfur e no Chade dos ataques das forças do governo e de suas milícias árabes aliadas.

Uma recente investigação da ONU dos crimes de guerra em Darfur apresentou, evidências de estupro amplo e sistemático nos dois anos de conflito. Em um incidente, uma mulher em Wadi Tina foi estuprada 14 vezes por homens diferentes em janeiro de 2003. Em março de 2004, 150 soldados e janjaweed seqüestraram e estupraram 16 garotas em Kutum, disse o relatório. Em Kailek, ele disse que meninas de até 10 anos foram estupradas pelos milicianos.

O fruto destes ataques está nascendo agora em Darfur, e inevitavelmente se tornará um legado de longo prazo do conflito. Em uma sociedade onde persistem tabus profundos sobre estupro e a identidade é passada, segundo a tradição muçulmana, de pai para filho, o destino destas crianças e suas mães é incerto.

"Ela permanecerá conosco por ora", disse Adoum Muhammad Abdulla, o xeque da aldeia de Fatouma, sobre a criança recém-nascida. "Nós a trataremos como se fosse nossa. Mas nós a acompanharemos cuidadosamente enquanto cresce, para ver se ela se tornará como uma janjaweed. Se ela se comportar como janjaweed, ela não poderá permanecer conosco."

O fato de ele e de as novas mães chamarem os bebês de janjaweed, um insulto local que significa "diabo montado a cavalo", ressalta quão amarga é a divisão entre aqueles que se identificam como africanos e aqueles que se vêem como árabes, e aponta para a dificuldade potencial de aceitação e integração no futuro.

Em um conflito que começou por disputa de terras, mas que tem sido alimentado por tensões étnicas, tais crianças carregarão um fardo pesado. Muito depois dos combates terem terminado, elas continuarão sendo um lembrete vivo da guerra.

"Para eles, todo árabe é janjaweed", disse um trabalhador de saúde estrangeiro em Geneina, que trabalhou com as vítimas de estupro. O trabalhador insistiu no anonimato porque o governo tem punido as organizações de ajuda humanitária que abordam o assunto. "O ódio e a animosidade serão difíceis de superar."

Algumas mulheres relataram que seus agressores usaram alcunhas raciais e declararam que iriam fazer mais bebês árabes, levando alguns a concluírem que o uso do estupro faz parte de uma campanha de limpeza étnica. Mas a investigação da ONU concluiu que apesar do estupro estar claramente sendo usado para desmoralizar e humilhar a população, ela não concluiu que tinha natureza genocida.

No caso de Fatouma, a criança que ela pariu a marcará para sempre como vítima, e poderá arruinar suas chances de casamento, de ter mais filhos, de ter uma vida normal caso sua família venha a voltar para sua aldeia, que foi incendiada pelas milícias árabes há mais de um ano.

Para sua filha, que continuará sem nome até o sétimo dia após seu nascimento, como dita a tradição local, o futuro é ainda mais incerto.

"Eu espero um dia me casar", disse Fatouma, baixando seus olhos. "Eu espero encontrar um marido que me amará, assim como minha filha."

Como tantas mulheres e meninas daqui, a provação de Fatouma começou quando ela deixou a relativa segurança do campo de refugiados onde vive para buscar lenha. Muitas mulheres podem ganhar dinheiro recolhendo lenha para venda no mercado, o que as deixa vulneráveis aos ataques de milicianos que perambulam livremente ao redor dos campos.

"Os janjaweed nos perseguiram, mas não consegui correr rápido o bastante", disse Fatouma. "Eles me pegaram e me bateram."

Cinco homens a mantiveram cativa durante a noite, disse ela, a estuprando repetidas vezes sob uma árvore. Pela manhã ela fugiu, encontrando um campo próximo de refugiados, onde ela passou a noite, e então encontrou seu caminho de volta a Al Riyadh.

"Quando minha mãe me viu, ela chorou e disse: 'Olha como bateram em você'", disse Fatouma, apontando para a cicatriz escura sob seu olho direito. Ela disse para sua mãe, Tama, o que tinha acontecido, apesar dela mesma estar confusa.

"Ele fizeram coisas ruins comigo", disse ela, com os olhos voltados para baixo. "Coisas muito ruins."

Poucos meses depois ela começou a sentir uma dor estranha. A princípio ela tentou ignorá-la, mas à medida que o inchaço persistia ela começou a bater com seus punhos contra o movimento em sua barriga. Tama, suspeitando que sua filha estava grávida, ordenou que parasse, e a levou até uma clínica de saúde. Um teste confirmou a verdade.

"Eu chorei por muito tempo", disse Fatouma.

Da tenda ao lado, Tama sussurrou ao visitante: "Ela é tão pequena. Olha o que fizeram com minha filha. Ela é só uma criança".

Quando as dores do parto começaram, Fatouma não estava preparada para elas. "Eu tive tanto medo, eu achei que fosse morrer", disse ela. Após uma noite de agonia, a parteira colocou o bebê em seus braços.

A maternidade repentina tem sobrecarregado Fatouma. Sua camiseta cinza estava manchada de círculos concêntricos de leite materno, e ela estava tendo dificuldade para descobrir como alimentar e limpar o bebê.

"Eu estou bastante feliz em ser mãe", disse ela, após uma longa tarde sentada em sua tenda, olhando para sua filha. "Eu a amo de todo meu coração."

Mas se seus vizinhos servirem como indicação, as perspectivas de Fatouma são desfavoráveis. Ashta, uma mulher de 30 anos que mora do outro lado do campo de Al Riyadh, também passa os dias sozinhas em uma tenda vazia com seu filho de 2 meses, Faisal. Ela o embala distraidamente, tentando aplacar seu choro constante. Ele nasceu nove meses depois de Ashta ter sido atacada por um grupo de milicianos.

"Faisal mudou minha vida", disse Ashta. "Por causa dele estou doente. Por causa dele minha vida está arruinada."

O marido de Ashta, que está na Líbia há oito anos trabalhando como vaqueiro, a abandonou e aos seus dois filhos. Ela mora em uma tenda vizinha a de seu irmão, que a acolheu.

Ela disse que foi estuprada enquanto fugia de sua aldeia, Bemiche. Dois de seus irmãos foram mortos no ataque, e enquanto ela vagava pelo deserto à procura de água, um grupo de bandidos a atacou, disse ela.

"Eles me bateram com varas, e disseram que se contasse para alguém eles me matariam", disse Ashta. Ela não sabe o que fazer com a criança que pariu. Ela não tem esperança de que se casará novamente e aguarda estoicamente uma longa vida de solidão e dificuldades.

"Sem um homem não é possível ter nada na vida", disse Ashta. "Seus filhos sofrem. Agora não temos nem mesmo uma cama onde dormir. Nós não temos futuro."

O irmão de Ashta, Mohammad, disse que se recusa a culpar sua irmã pelo que aconteceu a ela, apesar dos tabus sobre estupro.

"Não é culpa dela", disse ele. "Ela é uma vítima da guerra. Nós cuidaremos da criança. É muito difícil amar um janjaweed, mas tentaremos aceitá-lo como se fosse nosso."

Apesar de um relatório do governo sudanês sobre as atrocidades em Darfur reconhecer a ocorrência de violência contra as mulheres, Jamal Ibrahim, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, disse em uma entrevista que os relatos de estupro em Darfur têm sido enormemente exagerados.

"As organizações de direitos humanos e grupos de ajuda precisam justificar seu trabalho de alguma forma, então criam estas ficções", disse Ibrahim. "Se aconteceram, foram casos isolados. Este tipo de coisa não faz parte de nossa cultura."

Mas nos campos de refugiados, os relatos de estupro são comuns, e as famílias lutam para lidar com o legado de violência sexual.

Kaltouma Adam Mohammed, uma parteira tradicional que disse que pariu oito bebês de mulheres que foram estupradas, disse que apesar do estupro ser tradicionalmente visto como uma grande vergonha para a família, no contexto desta guerra as famílias estão mais propensas a perdoar e aceitar a mãe e a criança.

"Eu lhes digo: 'Às vezes nos sentimos como se tivéssemos a presença de um janjaweed entre nós, mas é apenas uma criança. Ela não sabe nada sobre esta guerra. Nós não podemos odiar esta criança'", disse ela. "Nós não sabemos o que acontecerá quando estas crianças crescerem. Se forem como seus pais, elas terão que nos deixar. Mas nós tentaremos amá-las, aceitá-las. É a vontade de Alá que assim seja." Árabes atacam adolescentes negras, cujas famílias desprezam filhos George El Khouri Andolfato

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