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12/02/2005

Convicções do dramaturgo Arthur Miller desafiaram as convenções de seu tempo

The New York Times
Charles Isherwood

Em Nova York
Arthur Miller pode ou não ter sido o maior dramaturgo já produzido pelos Estados Unidos --tanto Eugene O'Neill quanto Tennessee Williams têm o direito de reivindicar tal título, e até mais-- mas ele é certamente o mais americano dos maiores dramaturgos do país.

Carl T. Gossett, Jr./NYTimes - 1956

Dramaturgo com Marilyn Monroe, a atriz foi sua mulher entre 56 e 60
Ele foi o moralista dos três, e os Estados Unidos, como alguns pesquisadores recentemente correram para nos mostrar, é um país que gosta de moralistas. A ironia, é claro, é que as peças mais fortes de Arthur Miller são movidas pelas convicções que atacam algumas das idéias centrais veneradas na cultura americana.

Se as preocupações de O'Neill eram mais cósmicas, e as de Williams mais psicológicas, Miller escreveu mais vigorosamente sobre o homem em conflito com a sociedade. Seus personagens não têm existência fora do contexto de sua cultura; eles vivem apenas em relação a outros homens.

De fato, foi a forte crença na responsabilidade do homem para com seu próximo --e a autodestruição que se segue à sua traição de tal responsabilidade-- que animou as obras mais significativas de Miller.

Suas maiores preocupações, em um punhado de grandes peças que preservarão sua reputação, eram a corrupção moral provocada pela submissão dos ideais de alguém aos ditados pela sociedade, a compra dos valores de um grupo quando eles entram em conflito com a voz da consciência pessoal. Vender seu irmão equivale a vender a si mesmo, Miller acreditava firmemente.

Como todos artistas, Miller foi produto de um momento histórico particular. Ele viveu durante a Depressão, absorveu a moralidade feroz da propaganda política de Clifford Odets, e começou a escrever peças pouco antes e durante os anos da Segunda Guerra Mundial.

Seu primeiro grande sucesso, "Todos Eram Meus Filhos" (All My Sons), encenado em 1947, deu um disparo de alerta no rosto da crescente complacência do país, após uma guerra que era vista como tendo estabelecido a reputação dos Estados Unidos como polícia e consciência moral do mundo.

A peça de Miller questionava ferozmente tal status, lançando uma luz severa ao espírito por trás a veneração exclusiva dos direitos individuais. "Todos Eram Meus Filhos", na qual um empresário de classe média à procura de sua família causa as mortes de pilotos do Exército, argumentava que um código moral que de forma incauta colocava os interesses do individuo acima da responsabilidade para com o grupo poderia gerar corrupção e destruição.

As raízes da arte de Miller remontam Ibsen, o dramaturgo norueguês que usava tropos de melodrama para expor os rasgos no tecido da sociedade burguesa. Mas com "A Morte do Caixeiro Viajante" (Death of a Salesman), sem dúvida sua obra-prima, Miller se livrou das convenções do drama naturalista para escrever de uma forma estilisticamente mais livre.

Nesse retrato impressionista de um homem desiludido descartado pela sociedade, ele obteve algo semelhante à poesia. Como Harold Clurman colocou astutamente, a poesia em "Morte do Caixeiro Viajante" "não é a poesia do sentido ou da alma, mas da consciência ética".

Em "A Morte do Caixeiro Viajante", Miller declarou em termos dramáticos claros sua crença de que o herói trágico do século 20 americano era o homem comum, uma crença que provocou ondas de desprezo nos círculos acadêmicos, ao mesmo tempo em que tocava profundamente o público. Trágica ou meramente lamentosa, a luta desesperada de Willy Loman contra o reconhecimento repentino de que estava escravizado ao falso ideal do sucesso mundano era um poderoso repúdio às promessas vazias do sonho americano.

Como ele notou amargamente mais de uma vez, Miller não gozou por muito tempo de prestígio junto a muitos dos críticos de teatro do país. Mesmo em seus melhores trabalhos, ele às vezes sucumbia ao exagero. Ele foi provavelmente o menos sutil dos Três Grandes da América --e nem O'Neill e nem Williams eram particularmente dramaturgos sutis. Temas, motivos e conclusões morais freqüentemente se destacavam em suas peças como letreiros de néon na janela de um café-restaurante.

Mas, como todos os artistas relevantes, em seus melhores trabalhos Miller transcendia suas falhas. No caso de "A Morte do Caixeiro Viajante", ele até mesmo as transformou em virtude: as interações repetidas das falas mais sonoras da peça --"É preciso prestar atenção"-- têm um efeito solene e inesquecível de um sino tocando de forma profunda, alta e longa.

E, como montagens contínuas de "As Bruxas de Salem" (The Crucible), "Todos Eram Meus Filhos" e "Panorama Visto da Ponte" (A View From The Bridge) atestam, suas peças estão tão saturadas de observações mordazes sobre as falhas do homem, e suas lutas contra as forças sociais que as exploram, que elas retêm plena força de nos envolver e sensibilizar.

Nas últimas décadas de sua vida, Miller continuou a escrever peças diante da indiferença dos críticos; ele nunca perdeu a fé no valor do trabalho do escritor. Seu declínio de popularidade coincidiu com a perda da hegemonia da Broadway no teatro americano, apesar de seu desprezo pela clima estúpido do teatro comercial.

Os dramaturgos associados ao movimento off-Broadway que floresceu nos anos 60 -Edward Albee, Sam Shepard e outros-- queriam destruir as estruturas convencionais que serviram tão bem como receptáculos para as idéias de Miller. Mas em suas análises estilisticamente bem diferentes das contaminações da vida no final do século 20, e em seu uso da família americana como uma imagem a ser impiedosamente dissecada, é possível ouvir ecos distantes da visão de Miller.

"A Morte do Caixeiro Viajante" tem sido citada por inúmeros e díspares dramaturgos como uma influência seminal, de Lorraine Hansberry a Vaclav Havel e Tom Stoppard.

O fato de suas melhores peças terem sido encenadas com freqüência em palcos internacionais sugere que os males diagnosticados por Miller nos Estados Unidos, nos anos pós-guerra, não são específicos do país ou da era; eles apenas se enraizaram mais fortemente no solo de um país em ascensão meteórica ao topo do monte global.

A esta altura, o sonho americano já foi amplamente dissecado, mas os valores americanos continuam a ser vendidos pelos políticos como a exportação mais frutífera do país. E assim as principais peças de Miller, nas quais ele empregou tanto sua consciência quanto compaixão para questionar as prerrogativas da sociedade americana, continuam sendo igualmente fora de moda e necessárias como sempre. Obra ousa ao flagra, com poesia, imoralidade do sonho americano George El Khouri Andolfato

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