UOL Notícias Internacional
 

12/02/2005

EUA rejeitam exigência norte-coreana de negociações nucleares diretas

The New York Times
James Brooke e

Terence Neilan

Em Nova York
Os EUA rejeitaram nesta sexta-feira (11/02) uma exigência da Coréia do Norte de conversas cara-a-cara sobre seu programa nuclear, insistindo que as negociações entre as seis partes envolvendo os vizinhos de Pyongyang era a única forma de lidar com a questão.

"Não é uma questão entre a Coréia do Norte e os EUA. É uma questão regional, que tem um impacto sobre todos os vizinhos", disse aos repórteres o secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan.

Ele acrescentou: "Há suficientes oportunidades para a Coréia do Norte falar diretamente conosco no contexto das negociações com as seis partes".

Na quinta-feira, a Coréia do Norte declarou publicamente pela primeira vez que possui armas nucleares e disse que se recusava a voltar às negociações de desarmamento atualmente suspensas. Washington procurou diminuir a importância da declaração sobre armas nucleares, dizendo que há anos que a inteligência trabalha com a premissa que a Coréia do Norte tem tais armas.

A exigência de conversas cara a cara foi feita nesta sexta pelo embaixador da Coréia do Norte na Organização das Nações Unidas, Han Sang Ryol, em uma entrevista a um jornal de Seul, Coréia do Sul.

"Nós vamos voltar às negociações entre seis nações quando virmos uma razão para isso e as condições estiverem maduras", disse Han ao jornal Hankyoreh. "Se os EUA tomarem passos para iniciar um diálogo direto conosco, podemos tomar isso como sinal de que estão mudando sua política hostil."

McClellan disse: "Acho que todos os países da região estão dizendo para a Coréia do Norte que ela precisa voltar às negociações, para que possamos falar da proposta que colocamos na mesa na última rodada. Essa proposta aborda as preocupações de todas as partes e fornece a forma de resolver a questão."

Enquanto isso, o Japão executou um gesto hábil de política na sexta-feira. O país instou seu vizinho belicoso a voltar às negociações de desarmamento. Enquanto isso, conta os dias para impor uma nova lei que proibirá a maior parte dos navios norte-coreanos de usarem portos japoneses a partir de 1º de março.

"Compreendo que estejam aumentando os pedidos de sanções", disse o primeiro-ministro Junichiro Koizumi aos repórteres em Sapporo, cerca de 1.000 km de distância da Coréia do Norte do outro lado do Mar do Japão. "Mas temos que instá-los a negociar, em primeiro lugar."

Japão, Rússia, China e Coréia do Sul exortaram a Coréia do Norte, na sexta-feira, a voltar às negociações para desmantelar o arsenal nuclear de Pyongyang e sua produção de armas.

Relações com os vizinhos

Os vizinhos estavam reagindo ao anúncio da Coréia do Norte na quinta-feira, em que disse que tinha armas nucleares e que ia boicotar indefinidamente as discussões de desarmamento. Coordenada pelos EUA, a última rodada de negociações deu-se em Pequim, em junho.

No entanto, das cinco nações que querem desarmar a Coréia do Norte, apenas o Japão está adotando medidas para punir a Coréia do Norte economicamente.

A lei de Responsabilidade por Dano de Poluição por Petróleo requer que todos os navios com mais de 100 toneladas aportando no Japão tenham seguro próprio e indenização de terceiros. Aparentemente neutra, a lei foi formulada com a Coréia do Norte em mente. Em 2003, apenas 2,5% dos navios norte-coreanos visitando o Japão eram segurados.

O Japão é o terceiro maior parceiro comercial da Coréia do Norte, depois da China e da Coréia do Sul. A exigência de seguro deve atingir os portos norte-coreanos no Mar do Japão, uma área economicamente deprimida e dilapidada, distante de Pyongyang, capital vitrine da nação. Aparentemente, nas últimas semanas, somente um navio norte-coreano, uma barca de passageiros, comprou seguro.

A nova exigência será sentida pelo mercado Tsukiji de Tóquio, o maior mercado de peixes do mundo. A Coréia do Norte é sua maior fornecedora de certos tipos de caranguejos, ouriços do mar e mexilhões. Para os barcos pesqueiros norte-coreanos, o Japão é o melhor mercado da região.

"Vai doer, vai beliscar, será sentido por norte-coreanos importantes", disse Chuck Downs, especialista americano em Coréia, que escreveu "Over the Line: North Korea's Negotiating Strategy" (Além do limite: a estratégia de negociação da Coréia do Norte).

"Isso terá um grande impacto nas pessoas que estão no trem do caranguejo", disse Downs. "Elas estão fazendo mais dinheiro do que os traficantes ou diplomatas. É uma das poucas coisas lucrativas que um norte-coreano pode fazer".

Do lado das importações, a Coréia do Norte tornou-se grande importadora de bens usados do Japão. A próxima quarta-feira será o aniversário do ditador recluso da Coréia do Norte, Kim Jong Il. Nessas ocasiões, tradicionalmente, os leais do partido recebem presentes como bicicletas enferrujadas ou geladeiras usadas do Japão. Mas se os velhos barcos da Coréia do Norte forem banidos dos portos japoneses, o próximo aniversário do líder norte-coreano poderá ser especialmente austero.

As autoridades japonesas estão preparando um banco de dados computadorizado sobre todos os barcos norte-coreanos que ancoram no Japão. Dessa forma, o governo não mostra indicações de que vai perdoar os capitães norte-coreanos até que apresentem o seguro adequado.

A lei foi aprovada no ano passado, depois que um porto japonês teve que desembolsar US$ 6,4 milhões (em torno de R$ 19 milhões) para salvar um navio norte-coreano e limpar sua mancha de óleo. Na ocasião, jornais japoneses divulgaram mapas mostrando os acidentes com navios norte-coreanos ao longo da costa oeste do Japão.

Mas o verdadeiro propulsor da medida foi a raiva popular com a prática norte-coreana nos anos 70 de seqüestrar cidadãos japoneses de praias do oeste do Japão. Quatro sobreviventes retornaram ao Japão em 2002, mas acredita-se que pelo menos outra dúzia deve ter morrido na Coréia do Norte, onde foram forçados a trabalhar como professores de idioma para espiões treinados para se infiltrarem no Japão.

A incapacidade da Coréia do Norte de se responsabilizar por esses seqüestros foi a principal razão por trás de uma legislação de sanções aprovada no ano passado.

As leis, restringindo o comércio e transferências de dinheiro, podem se aplicar à Coréia do Norte ou qualquer outra nação, quando o governo julgar adequado. Apesar de o Japão ser considerado o principal alvo do programa de mísseis e armas nucleares da Coréia do Norte, a questão dos seqüestrados tomou uma força emocional que vai além do governo japonês.

Na terça-feira, o primeiro-ministro Koizumi recebeu uma petição assinada por cinco milhões de pessoas pedindo sanções econômicas contra a Coréia do Norte. Em dezembro último, uma pesquisa da Kyodo News, com 1.009 pessoas, concluiu que 75,1% queriam que o governo "invocasse sanções econômicas e adotasse uma postura dura" no tratamento com a Coréia do Norte.

Na semana passada, Katsuya Okada, principal líder da oposição do Japão, disse a repórteres estrangeiros: "Medidas devem ser impostas que tragam a Coréia do Norte à mesa de negociação."

Tomando um curso diferente, autoridades americanas e sul-coreanas pediram a Koizumi, nos últimos dias, que não impusesse sanções, por temor de afastar ainda mais a Coréia do Norte. Koizumi continua relutando em usar sua carta de sanções, acreditando que tem mais poder como ameaça do que na prática.

Os novos requerimentos de seguro fazem parte de um esforço maior do governo japonês, para garantir a segurança e regras marítimas com a Coréia do Norte, uma campanha que está atingindo fortemente o comércio.

No ano passado, o número de navios norte-coreanos que aportaram no Japão caiu de 1.415, em 2002, para 1.071. O comércio entre os dois países no ano passado chegou a US$ 259 milhões (em torno de R$ 777 milhões), o mais baixo nível registrado e cerca de 20% do auge de 1980.

Em 2003, o comércio da Coréia do Norte com a Coréia do Sul chegou a US$ 724 milhões (aproximadamente R$ 2,1 bilhões). Com a China, atingiu US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões).

Esses dois vizinhos da Coréia do Norte se opõem a sanções econômicas, temendo que o governo de Pyongyang colapse, liberando milhões de refugiados econômicos do país, a nação mais pobre do nordeste asiático.

Por sua vez, a Coréia do Norte advertiu que considera sanções econômicas uma declaração de guerra. "O Japão não ganharia nada com sanções econômicas, que iriam contra um ambiente de paz entre a Rdpc e o Japão", disse o jornal Rodong Shinmun em um editorial na quinta-feira, referindo-se à Coréia do Norte por seu nome oficial, República Democrática Popular da Coréia.

Acrescentando sua própria análise, a Agência Central de Notícias Coreana falou na quinta-feira sobre as sanções japonesas: "O exército e o povo coreano estão odiando e amaldiçoando os japoneses reacionários, astutos e malvados. Temos contas demais a acertar com o Japão."

No entanto, para alguns analistas, a pressão econômica poderia trazer a Coréia do Norte de volta à mesa.

"É uma forma interessante de enviar uma mensagem poderosa a Pyongyang, que o governo coreano não pode esperar cooperação de seus vizinhos enquanto fica fazendo insultos e se comportando perversamente", disse Peter Hayes, diretor do Instituto Nautilus em San Francisco, na sexta-feira.

"Se o Japão combinasse incentivos positivos e negativos, seria considerado independente dos EUA na região e mais capaz de conquistar a cooperação coreana." Coréia do Norte poderá sofrer retaliações comerciais de vizinhos Deborah Weinberg

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