UOL Notícias Internacional
 

12/02/2005

Protestos públicos tornam-se parte da vida russa

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Moscou
Há um mês uma pequena multidão de idosos bloqueou brevemente a via que leva ao principal aeroporto internacional de Moscou para protestar contra mudanças nos benefícios de aposentadoria. Na época pareceu insignificante, mas olhando para trás, estes parecem ter sido os primeiros movimentos de algo considerado morto há muito tempo, ou pelo menos dormente, na Rússia: protestos públicos.

James Hill/The New York Times

Trabalhadores dos transportes protestam em frente ao Kremlin contra a alta da gasolina
Em Beslan, parentes dos mortos no cerco da Escola de Ensino Médio Nº 1, em setembro passado, bloquearam a principal estrada que corta o Cáucaso Norte por três dias, no final de janeiro, para protestar contra o ritmo da investigação oficial do ataque terrorista pelo governo.

Na ilha Sakhalina, no Extremo Oriente, ecologistas se juntaram aos aldeões locais no bloqueio de estradas que levam aos novos projetos de gás e petróleo, para protestar contra seus efeitos no meio ambiente e nas culturas tribais locais.

Só na última semana, representantes dos partidos liberais se reuniram perto do Kremlin, em Moscou, para condenar o fim da eleição direta para governador, e em São Petersburgo para protestar contra a exclusão de oponentes políticos na emissora de televisão oficial da cidade.

Nesta quinta-feira (10/02), funcionários de transporte tomaram as ruas nestas cidades, e em uma dúzia de outras, para protestar contra o aumento do preço da gasolina, entre outras coisas.

"Há calma antes da tempestade, e este é o início da tempestade", disse Anatoly Zykov, 55 anos, um motorista de ônibus da região de Moscou que se juntou a cerca de 200 outros diante da sede do governo, conhecida como Casa Branca. "Deus permita que não haja derramamento de sangue, mas todos estão cheios."

Um axioma da política local diz que os russos são politicamente passivos, mas a onda de protestos que toma cidades ao longo 11 fusos horários está inesperadamente contestando isto, e levantando dúvidas sobre o apoio público ao curso tomado pelo país sob o presidente Vladimir V. Putin.

A maior das manifestações incluiu não mais que poucos milhares de manifestantes. Mas reunidas, elas são as maiores até o momento da presidência de Putin e parecem sinalizar um descontentamento sentido amplamente, mesmo que não bem definido.

A revolta da população minou os índices de aprovação de Putin e sacudiu seus ministros de governo, que responderam de forma lenta e confusa à primeira onda de protestos contra as pensões, antes de recuarem parcialmente nas mudanças promovidas pelo Kremlin no verão passado, por meio de um Parlamento maleável.

Os indicados por Putin desprezaram os protestos como sendo o sentimento de uns poucos descontentes, instigados por agitadores domésticos e até mesmo estrangeiros, mas os protestos mostram pouco indício de que desaparecerão. Uma coalizão de organizações políticas, sociais, ambientais e trabalhistas tem convocado novas manifestações por todo o país no sábado, incluindo duas em Moscou, que prometem fechar o centro da cidade.

"Nos primeiros quatro anos do regime de Putin, as pessoas tinham esperança", disse Roman A. Dobrokhotov, um estudante de ciência política da Universidade Estadual de Moscou e líder de um grupo recém-formado chamado Caminhando Sem Putin.

"Atualmente, as pessoas entendem que sob um governo autoritário, o desenvolvimento é impossível. Este governo, este sistema, não é adequado para elas."

Ele chamou a inquietação de "o início da revolução liberal", seguindo o modelo da "Revolução Laranja" da Ucrânia no final do ano passado, quando milhares foram às ruas para protestar contra a tentativa do antigo governo de fraudar a eleição do sucessor do presidente Leonid D. Kuchma.

Por ora, isto parece improvável na Rússia, onde Putin consolidou um controle quase absoluto sobre o sistema político. Mas os protestos encorajaram e uniram seus adversários políticos, dos comunistas aos liberais, que há poucos meses pareciam desmoralizados e cada vez mais marginalizados. Os líderes da oposição alegam que no mês passado 500 mil pessoas foram às ruas.

"Nós devemos esperar uma nova e até maior onda de protestos nesta primavera", disse Oleg V. Shein, um membro do Parlamento que representa o partido nacionalista Mãe Pátria.

Ele previu que as futuras mudanças no governo em habitação e atendimento de saúde levarão mais pessoas às ruas. "As pessoas não esperam mais qualquer ajuda das autoridades centrais", disse ele. "E o número de tais pessoas está crescendo. Quinhentos mil não é um número tão grande para um país como o nosso, mas é um começo."

A provável causa inicial desta efusão de protestos antigoverno foi a decisão de substituir os benefícios sociais como transporte gratuito e pagamentos subsidiados de telefone, eletricidade e habitação por pagamentos mensais com piso de US$ 7.

Os ministros de Putin argumentaram que a mudança era necessária para racionalizar um sistema desajeitado, que pesava negativamente no orçamento federal e inundava as empresas de transporte e serviços públicos com clientes não pagantes, reduzindo os recursos disponíveis para investimento na atualização da infra-estrutura em deterioração.

Mais de 30 milhões de russos --incluindo pensionistas, veteranos e inválidos-- recebem os benefícios. Diante da perspectiva de pagar pelos serviços com uma ajuda em dinheiro que desprezaram como sendo insuficiente, eles tomaram as ruas.

Os primeiros protestos ocorreram espontaneamente em poucas cidades após o feriado prolongado de Ano Novo, mas logo os líderes dos partidos Comunista e Mãe Pátria ajudaram a organizar mais.

Eles também forçaram um voto de não confiança no governo de Putin, que é liderado pelo primeiro-ministro Mikhail Y. Fradkov. A votação, na quarta-feira, fracassou, mas muitos legisladores pró-Putin indicaram seu medo de uma reação potencial dos eleitores de não votarem em apoio a Fradkov, que foi nomeado por Putin há um ano.

Desde o início, o protesto dos benefícios se tornou um catalisador para outras queixas, dando vazão ao crescente descontentamento com as políticas de Putin, não apenas na esfera social. Em São Petersburgo, estudantes se uniram após a sugestão do ministro da Defesa, Sergei B. Ivanov, de que o governo estava considerando o fim do adiamento do serviço militar para os estudantes universitários.

Após inicialmente ignorar os protestos, Putin criticou seus nomeados, assim como as autoridades regionais, que suportaram o impacto dos protestos e os custos de tentar complementar os benefícios reduzidos, o que muitos fizeram. Em algumas cidades, os acusados de organizar os protestos foram presos, apesar de posteriormente liberados.

O governo de Putin e o partido com maioria no Parlamento, o Rússia Unida, tentaram reduzir o descontentamento aumentando os gastos em US$ 4 bilhões para aliviar o impacto dos benefícios. Na quarta-feira, o Parlamento também votou pelo aumento da pensão mínima em mais de um terço, para quase US$ 32 por mês.

Militares e oficiais de serviços de segurança --que também perderam o transporte gratuito-- também receberam aumentos. E Ivanov abandonou sua proposta de encerrar o adiamento para estudantes universitários no serviço militar, que é amplamente odiado e sofre alta evasão.

As concessões pareceram atenuar um pouco os protestos, mas também criaram novos, como os em Beslan e em Sakhalina, onde as pessoas também levaram suas queixas às ruas. Em Moscou na quinta-feira, 150 funcionários civis se reuniram do lado de fora do Ministério da Defesa para exigir aumentos semelhantes aos que os militares receberam.

Os funcionários de transporte também tomaram as ruas diante da Casa Branca, em Moscou, no mesmo dia. Suas queixas incluíam não apenas o preço da gasolina, mas salários baixos, restrições às importações que forçam as companhias aéreas a usarem velhos aviões russos em vez de comprarem novos do Ocidente, e disparidades econômicas que geraram fortunas para um punhado de magnatas com ligações políticas enquanto a maioria do país continua pobre.

"Eu espero que haja um resultado", disse Valery Popov, um trabalhador da área de estradas que continua trabalhando aos 67 anos, pois a pensão não é suficiente para arcar com o custo de vida em Moscou.

"Quando todas as pessoas começarem a protestar, então haverá resultado. Se permanecermos em casa, então não acontecerá nada." Para muitos, o clima crescente poderá estimular "revolução liberal" George El Khouri Andolfato

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