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13/02/2005

Semana da moda de NY traz roupa de hospício

The New York Times
Cathy Horyn

Em Nova York
Para alguns, foi um caso flagrante de "roupa nova do imperador", uma coleção que simplesmente confirmou que o mundo da moda é um hospício barroco. Nem mesmo Bridget Foley, a editora executiva de "Women's Wear Daily", em sua reportagem sobre a polêmica deflagrada na semana passada por Marc Jacobs, conseguiu evitar termos como "família Addams" e "roupas de palhaço", embora, como ela também escreveu, muita gente tenha achado o desfile de Jacobs na última segunda-feira (7/2) brilhante e emocionante como qualquer passarela européia.

G. Paul Burnett/The New York Times

Segundo alguns críticos de moda, as peças acima deveriam ir parar no closet da família Addams
O que Jacobs fez foi criar vestidos e casacos de proporções tão exageradas que desafiam qualquer aplicação prática, coisa que geralmente irrita os lojistas e excita as editoras de moda.

Algumas saias em forma de casulo eram usadas com jaquetas quadradas ou tops que pareciam quase destruídos.

"Achei o desfile de Marc maravilhoso", disse Robert Burke, diretor de moda da loja Bergdorf Goodman. "Pode-se dizer que a paleta de cores era forte e ele jogou com os volumes." Outros varejistas, como que prevendo a reação das clientes mais tolerantes à perspectiva de parecerem anões de jardim, não acharam graça.

"O que me incomodou foi que ele se esforçou demais", disse Joan Kaner, diretora de moda da Neiman Marcus. "Poderia ser encantador, mas ele não acertou."

Referindo-se às compradoras da Neiman Marcus, ela acrescentou: "Vamos tentar esperar até vermos a coleção no showroom. Talvez aquelas saias rodadas funcionem com um top justo, mas uma saia grande e um top grande não funcionam. A menos que você tenha dois metros de altura, pode ser difícil de vender".

Jacobs, que na quinta-feira estava trabalhando em Paris em seu desfile de outono para a Louis Vuitton, pareceu gostar de suas roupas terem causado uma reação, apesar de muitas editoras não terem sido caridosas com ele por tê-las feito esperar 95 minutos para o início do desfile. Pelo menos um chefe de loja, Michael Gould da Bloomingdale's, saiu antes.

"Adoro essa reação de amor ou ódio", disse Jacobs. "A indiferença me causa um tédio mortal."

Não parecia haver esse perigo. No final da Fashion Week, na sexta-feira, o debate não tinha esfriado, em parte porque os outros desfiles de estilistas americanos pareceram comparativamente tímidos e reprimios, e não causaram dores de cabeça nos compradores. Na verdade, em algumas lojas o desfile de Jacobs provocou uma forte divisão entre os interesses dos diretores de moda, cujo papel é identificar novas tendências, e os dos compradores, que têm a responsabilidade fiscal de vendê-las.

A última vez em que um desfile americano polarizou o mundo da moda nesse nível foi a coleção "grunge" de Jacobs para a primavera de 1993, desenhada para Perry Ellis, uma coleção que era uma espécie de espelho de Kurt Cobain e o cenário musical de Seattle, mas que na Sétima Avenida pareceu um escândalo. Quem iria comprar camisas de flanela desbotadas a preço de estilista? Quase ninguém comprou, e a linha foi fechada pelos chefes de Jacobs, mas a coleção teve uma profunda influência sobre a moda.

Na segunda-feira à noite, quando o segundo desfile mais polêmico da carreira de Jacobs finalmente começou, às 10:35 -- alguns vestidos estavam sendo terminados e a equipe de relações-públicas monitorava seu progresso com equipamentos de comunicação sem fio --, a música que a platéia escutava era Smashing Pumpkins. De uma maneira ou de outra, o "grunge" foi sua estrela-guia.

G. Paul Burnett/The New York Times

Apresentada na última segunda, dia 7, a coleção de Jacobs foi destaque na semana de Nova York
"Em meus 20 anos de moda, só duas vezes acordei deprimido depois de um desfile", disse Jacobs, de Paris. A primeira foi depois da coleção grunge, e a segunda, a última terça-feira.

E em certo sentido, disse Jacobs, todas as suas coleções são reflexos de sua vida e de suas primeiras sensações sobre a moda na juventude, quando estilistas como Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto estavam no auge e mulheres como Carla Sozzani, que ajudou Romeo Gigli a liderar uma revolta da moda contra o minimalismo nos anos 80, tinham um visual original.

Essas foram algumas de suas influências, ele disse, quando começou a discutir com sua equipe de criação e sua estilista, Venetia Scott, a coleção deste outono, dando-lhes livros e outras referências como ponto de partida para saias rodadas acolchoadas, amplos casacos e vestidos de veludo de ar poético envoltos em "point d'esprit", uma idéia de Gigli. Jacobs não pede desculpas pelas referências à obra de outros estilistas, afirmando que músicos, artistas e até escritores fazem o mesmo.

Outra influência de Jacobs foi sua amiga a diretora de cinema Sofia Coppola. Ele disse que os dois saíram uma noite em Paris há pouco tempo e Coppola usava um vestido Lanvin com sapatos baixos.

"Adorei seu visual", ele disse. Ao mesmo tempo, Jacobs reconheceu que estava na hora de se afastar do estilo menina tímida das últimas temporadas. E isso inevitavelmente significava algo mais escuro, sombrio e poético, com aquela qualidade faça-você-mesma que ele tenta dar a suas roupas desde a coleção grunge.

Se Jacobs não tivesse mudado de direção, as editoras teriam ficado decepcionadas. "Ele deixou o visual garotinha que agradou todo mundo e foi para algo mais forte, que assume um risco", disse Carine Roitfeld, editora da "Vogue" Paris. "Havia peças ótimas que nunca vi em suas coleções."

Isso é exatamente o que preocupa alguns vendedores: que as clientes evitem comprar essas roupas completas e prefiram uma peça como um casaco ou um belo par de calças. "Para um varejista, gera-se negócios com a venda de várias peças para uma cliente", disse Ronald Frasch, comprador chefe da Saks Fifth Avenue.

Se as clientes ficam intimidadas pela silhueta, podem desistir de comprar modelos inteiros, que têm sido a força comercial de empresas como Chanel e Dolce & Gabbana.

Mas Frasch salienta que Jacobs é considerado um estilista altamente comercial, em parte por sua influência na moda e pelo sucesso de suas bolsas e sapatos.

"Acho que as pessoas têm de lembrar que se pedirmos para Marc fazer a mesma coisa temporada após temporada, ano após ano, não vamos permitir que ele mude", disse Sue Patneaude, vice-presidente executiva de roupas de grife da Nordstrom.

Para ela, as proporções, as formas, mostravam um olhar mais maduro e sofisticado. "Sei que é controverso, mas adorei a coleção e adorei as saias rodadas", ela disse. "Na verdade foi tranqüilo para mim." A avaliação é de especialistas acerca da coleção da grife Jacobs Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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