UOL Notícias Internacional
 

14/02/2005

Brasil promete medidas enérgicas após assassinato da missionária americana no Pará

The New York Times
LARRY ROHTER

No Rio de Janeiro
Uma freira norte-americana e um ambientalista foram mortos a tiros na Floresta Amazônica no último sábado (12/01), o que elevou as tensões entre especuladores de terras e os trabalhadores rurais na região, e fez com que o governo prometesse tomar medidas enérgicas contra a falta de respeito à lei.

Reuters - 12.fev.2004

Freira disse estar sendo ameaçada por madeireiros e grileiros da região
A freira, irmã Dorothy Stang, 74, foi baleada quatro vezes no tórax e na cabeça por dois pistoleiros quando visitava um remoto acampamento rural próximo à rodovia Transamazônica, no Estado do Pará. Ela era conhecida na região amazônica pelo seu trabalho com os pobres e os sem-terra e pelos esforços no sentido de preservar a floresta.

As autoridades encararam o ataque como um desafio à autoridade do governo, que enfrenta a resistência de madeireiros e grileiros da região em relação às novas regulamentações relativas ao uso e à posse da terra.

Imediatamente após o assassinato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou dois membros do seu gabinete e uma equipe especial de investigação policial para a área. "Para nós, solucionar o crime e prender os mandantes e executores é uma questão de honra", disse aos repórteres Nilmário Miranda, secretário de Direitos Humanos, no sábado, antes de seguir para a região. "Isso é intolerável. Não podemos permitir a impunidade em um caso como esse".

Um porta-voz da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília disse que seus funcionários estão acompanhando o caso e aguardando informações adicionais nesta segunda-feira e tão logo o tempo melhore na região.

"Acreditamos que haverá uma ampla investigação por parte da polícia" afirmou o porta-voz.

Stang nasceu em Dayton, Ohio, e pertencia à Ordem das Irmãs de Notre Dame de Namur. Ela morava e trabalhava na região amazônica desde o início da década de 70, dedicando-se a organizar grupos camponeses e a educá-los quanto a questões que incluíam a posse da terra e os benefícios econômicos e ambientais decorrentes da preservação da floresta.

"Essa foi uma terrível, tremenda perda", disse, em uma entrevista por telefone, Paulo Moutinho, coordenador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, amigo de longa data de Stang. "Ela era uma pessoa extremamente importante, uma porta-voz do movimento a favor do desenvolvimento sustentado, dona de uma capacidade de liderança tão grande quanto à de Chico Mendes", disse Moutinho, referindo-se ao líder seringueiro internacionalmente famoso, assassinado em 1988.

Em uma entrevista no final de 2001, Stang disse que vinha recebendo ameaças constantes de morte, que ela atribuiu aos madeireiros e grileiros. Mas a freira mantinha relações tensas com a polícia local, que a via como uma agitadora social, e que já a prendeu como suspeita de incitar a violência e de fornecer armas a grupos camponeses.

Na semana passada, Stang teve uma reunião com Miranda para falar com o secretário a respeito de uma nova onda de ameaças de morte feitas a religiosos, camponeses e grupos ambientalistas na região ao longo da rodovia Transamazônica, que segundo Moutinho é "talvez a mais violenta da Amazônia".

Os amigos brasileiros de Stang disseram neste domingo (13) que temem novos ataques para intimidá-los e destruir a sua luta.

"Estamos todos furiosos, mas ao mesmo tempo com medo", disse Ana Paula Santos Souza, líder do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu, um grupo de trabalhadores rurais junto ao qual Stang trabalhava. "A irmã Dorothy era cidadã norte-americana e freira, e mesmo com toda essa proeminência, foi morta em público. O que isso significa para o resto de nós?".

Dois colegas que viajavam com Stang foram poupados pelos pistoleiros e teriam identificado um dos assassinos. O nome e a ficha do suspeito ainda não foram revelados.


A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, entretanto, divulgou uma declaração dizendo que o assassinato só poderia ter sido ordenado pelos poderosos interesses econômicos e políticos combatidos por Stang.

"O ódio dos fazendeiros e madeireiros não respeita nada", disse a igreja em sua declaração. "O lamentável assassinato da nossa irmã traz de volta memórias de um passado que pensávamos estar encerrado".

O assassinato de Stang ocorreu em um momento em que a tensão aumenta no Estado do Pará. No mês passado, em resposta às novas regulamentações governamentais quanto ao uso e à posse da terra, madeireiros bloquearam estradas e rios, incendiaram ônibus, ameaçaram poluir os rios com produtos químicos e advertiram que "o sangue vai correr" caso o governo Lula não revogue os decretos aos quais eles se opõem.

No início do mês, o governo cedeu a essas pressões e adiou o prazo para que as regulamentações entrem em vigor. Grupos ambientalistas criticaram vigorosamente a ação, afirmando que elas só encorajam mais atos de desrespeito à lei em uma parte do país onde o controle governamental foi sempre incompleto e tênue.

No momento em que Stang foi atacada e morta, a ministra do Meio-Ambiente, Marina da Silva, deveria participar de uma cerimônia em homenagem à criação de novas "reservas extrativistas" no Pará, áreas criadas pelo governo nas quais é proibida a atuação de fazendeiros, madeireiros e grileiros. Apara alguns dos amigos de Stang, isso sugere que o assassinato teve uma motivação política ainda maior.

"O momento do assassinato não foi uma coincidência, já que eles poderiam ter matado a irmã Dorothy quando bem quisessem", disse Souza. "Mas eles perceberam que estavam perdendo território, e quiseram provocar o Estado e mandar um recado. Agora cabe ao governo defender os princípios representados pela irmã Dorothy".

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