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14/02/2005

Clint Eastwood ainda tem de lutar por seus filmes

The New York Times
David Carr

Em Burbank, Califórnia
Por cinco vezes nos últimos doze anos, o diretor Clint Eastwood proporcionou aos estúdios da Warner Brothers, que não são dos maiores fabricantes de vencedores de Oscars, o acesso aos prêmios da Academia Cinematográfica.

Merie W. Wallace/Warner Brother via NYT

Clint Eastwood e Hillary Swank estrelam o drama "Menina dos Olhos", que recebeu sete indicações
Ele dirigiu um premiado como melhor filme, "Os Imperdoáveis" ("Unforgiven") em 1993, e há dois anos dirigiu um dos indicados a melhor filme, "Sobre Meninos e Lobos" ("Mystic River"). Teve também Meryl Streep, que recebeu uma indicação como melhor atriz por "As Pontes de Madison", produção da Warner de 1995.

Até mesmo "Caubóis do Espaço" (Space Cowboys), a comédia sobre astronautas da velha guarda que Clint realizou para o estúdio em 2000, faturou uma indicação pelos seus efeitos sonoros.

Mas o sinal verde para novos projetos ainda não é fácil de ser conquistado pelo profissional de 74 anos, que fez dos domínios da Warner sua casa profissional desde 1975, e que já produziu, dirigiu e/ou estrelou cerca de 30 filmes para a empresa desde "Dirty Harry", em 1971.

Quando Eastwood propôs seu novo "Menina de Ouro" ("Million Dollar Baby"), o estúdio chiou, alegando "aversão do público" aos filmes sobre boxe, assim como já haviam criado obstáculos para "Sobre Meninos e Lobos", história sobre crimes-e-amizades que no princípio era considerada soturna demais. Os executivos da Warner só aprovaram o novo projeto quando um financiador externo, a Lakeshore Entertainment, concordou em dividir os custos.

À sombra de um enorme cartaz que alardeia as sete indicações do novo filme aos prêmios da Academia, entre elas para melhor filme e melhor diretor, o presidente dos estúdios, Alan F. Horn, fica mais que satisfeito ao admitir o equívoco do estúdio:

"Se eu estivesse aqui tendo que falar sobre como deixei 'Menina de Ouro' escapar para outro estúdio, estaria totalmente arrasado", diz Horn. "Ao olhar para trás, percebemos que os instintos dele estavam certos, incrivelmente certos. O importante é que no final do dia, e às vezes eram dias muito longos, víamos que os filmes avançavam."

O casamento profissional entre Eastwood e os estúdios Warner nunca foi do tipo simples --freqüentemente esteve submetido a provações e chegou a ser bem tensa. Mas no final das contas essa relação se mostrou incrivelmente produtiva, isso numa indústria em que um contrato de três anos chega a ser definido como um termo de longa duração.

Para a Warner, o Eastwood envelhecido --que começou com os western spaghettis de Sergio Leone e se entranhou na consciência americana como o intérprete do vingador Dirty Harry-- trouxe um retorno inesperado, com centenas de milhões de dólares arrecadados ao longo dos anos.

A Warner e o ator que se transformou em cineasta e nem sempre rezaram pela mesma cartilha. Mas, mesmo com todos os atritos e solavancos que se podem esperar de um longo relacionamento, a parceria de certa forma fez com que surgisse o melhor aspecto de um auteur de origem proletária que, já avançando nos seus setenta anos, está produzindo bons filmes com a regularidade de um trabalhador de fábrica.

Quando lhe perguntam sobre a relutância da Warner em produzir "Menina de Ouro", Eastwood se mostra um tanto rude, mas não amargo. "Eu expliquei a eles que não era um filme de boxe, que era uma história de amor. Mas devo dizer que outros estúdios tinham a mesma opinião, embora muitos deles tenham manifestado interesse em trabalhar comigo. Eu disse a eles, 'Olhem só, eu não sou do tipo que fica bem de roupinha apertada ou dos que podem viver um super-herói', e, afinal, se eles não querem produzir esse filme, se não querem produzir dramas, por que é que estão no ramo do cinema?"

Para todos os efeitos, a relação Warner-Eastwood funciona na base do aperto de mão, do acordo entre cavalheiros. Eastwood não tem compromissos contratuais firmados com o estúdio --acerta os trabalhos filme por filme, e fará o próximo, "Flags of Our Fathers", para a DreamWorks SKG, com algum apoio da Warner. (A DreamWorks detém os direitos da história.)

Mas o bom nível de relacionamento de Eastwood com a Warner, em suas confortáveis instalações em Burbank, ficou evidente numa visita recente ao escritório de Eastwood por lá. Ele ocupa o bangalô que já foi utilizado por Harry Warner, agora ocupado pela firma do cineasta, a Malpaso Productions.

O clima é relax, até mesmo com toda a eletricidade gerada pela proximidade do Oscar.

A mulher dele, Dina Ruiz Eastwood, aparece por lá e serenamente brinca com a equipe sobre as roupas e as jóias que deverá usar na entrega dos Oscars, enquanto Eastwood atende os chamados da imprensa em seu escritório. Dina não quis pegar emprestado um relógio de U$ 10.000, e irá usar o seu próprio, de U$ 60, que mostra as horas com eficiência: a sobriedade é mesmo uma das pedras de toque na divisão Eastwood.

Após alguns minutos, Eastwood sai do escritório lá no fundo do bangalô, e Dina então pergunta se ele precisa de alguma coisa do mercado. "Hmmm, deixa eu ver --Viagra, Levitra e, ah sim, alguns Cialis (remédios contra a impotência)", arremata, detonando as gargalhadas entre a equipe e o próprio Eastwood.

Ele pode fazer esse tipo de piadas, não apenas porque já tem sete crianças, inclusive uma filha de 8 anos, mas também porque não sofre de ansiedade em relação à própria imagem. Ele não tem agente de imprensa. "Num certo ponto da vida, você simplesmente é quem você é", diz, sorrindo. Como ator e diretor, ele já deu vida a muitos homens aprisionados pelo arrependimento, mas o próprio Clint aparentemente não sofre desse mal.

Eastwood mergulha na poltrona e vai se esticando com os pés para se aproximar de uma mesa, parecendo ter todo o tempo do mundo. E 34 anos depois de dirigir seu primeiro filme, "Perversa Paixão" ("Play Misty for Me") --pelo qual a Universal Pictures não lhe pagou nada, mas garantiu uma porcentagem da bilheteria-- Clint conversa bem à vontade sobre todo o processo, inclusive sobre seu relacionamento com a Warner.

"Por um lado, é bom saber que as pessoas se lembram o bastante do filme para indicá-lo. Mas por outro lado, não ficamos pensando sobre isso desde o início do filme", diz o diretor sobre "Menina de Ouro", enquanto procura um canivete, de onde sai um palito para seus dentes.

Já tendo conquistado o prêmio da associação de diretores, o Directors Guild, por seu trabalho no filme, e nesse momento de bom impulso em direção à vitória nos Oscars, Eastwood vive um tempo de plena e doce vingança em relação ao seu estúdio. Embora Clint seja elegante demais para revelar detalhes, a Warner o havia colocado numa situação delicada antes de ele acertar a realização de "Sobre Meninos e Lobos", alguns anos atrás.

"No final daquele acerto eles disseram que me dariam um tanto de dinheiro e mais uma porcentagem", recorda Clint. "Eu tive que rir. Disse a meu agente que me sentia novamente como há 36 anos, quando fiz 'Perversa Paixão'. Já tenho mais de 70 anos e ainda tenho que ficar batalhando a venda de um projeto."

"Mas não os culpo, nem quis mudar os termos, porque me sentiria muito mal se o filme tivesse fracassado nas bilheterias", admite o cineasta. Além de trazer Oscars para um estúdio que não fatura muitos prêmios, "Sobre Meninos e Lobos" rendeu mais de US$ 150 milhões (equivalente a mais de R$ 400 milhões) nas bilheterias do mundo inteiro.

Depois de ter provado que estava certo em relação a "Sobre Meninos e Lobos", Eastwood ficou surpreso quando a Warner voltou a colocar obstáculos, quando ele apresentou ao estúdio a idéia de "Menina de Ouro". Eles alegaram o mau desempenho de filmes recentes sobre o mundo do boxe.

Mas Clint se mostra mais contrariado com o gigantismo da indústria --sempre a buscar o mega-filme para arrasar no mundo inteiro, em detrimento de projetos mais intimistas-- do que com as objeções da Warner, afirmando que "está tudo bem" na relação dele com o estúdio.

Apesar disso John Calley, ex-presidente da Sony Pictures e executivo da Warner que conviveu durante muitos anos com Eastwood por lá, se diz "abismado" com o fato de que Clint precisou implorar por financiamento depois do sucesso de "Sobre Meninos e Lobos". "Ele tem uma das médias de eficácia mais altas no mercado", diz Calley, lembrando que a Warner deve a Eastwood uma quantia significativa.

"Ele carregou a Warner nas costas durante muitos anos, sendo que (na época) foi bem reconhecido pelo tipo de homem que era e pelo trabalho que desempenhava", diz Calley. "Clint é diferente de outros cineastas, é um artista verdadeiro. Não fica posando ou se apresentando como artista, e nunca se dispersa no caminho do objetivo que tenta alcançar."

À meia-luz no ambiente emadeirado do bangalô, Eastwood tem aparência envelhecida --afinal, 74 são 74-- mas o tempo até que faz bem ao rosto dele.

E ninguém aqui está dizendo que um cineasta precisa ser capaz de "puxar" 100 flexões de braço para ocupar seu posto atrás das câmeras, embora Eastwood pareça ser capaz dessa proeza. John Huston tinha 79 quando dirigiu "A Honra do Poderoso Prizzi", Akira Kurosawa, 75 quando fez "Ran", e, aos 73 anos, Mike Nichols acaba de fazer um filme, "Closer", absolutamente pleno de contemporaneidade.

"Se você observar os últimos oito anos, dirá que o envelhecimento melhorou o trabalho dele", diz Steven Spielberg, que irá produzir o próximo filme de Eastwood: "Na idade dele, Clint ainda tem a capacidade de surpreender, em parte porque tem gostos bem ecléticos. Ele nos maravilhou, a todos, em seus dois últimos filmes, apresentando trabalhos de qualidade excepcional".

Na verdade, a Warner teve que esperar um tempo por esse trabalho excepcional, apoiando Eastwood ao longo dos anos quando ele sofria com a má recepção (por parte do público) de filmes como "Bird" e "Coração de Caçador".

Agora, Eastwood é novamente o diretor que se refere à sua porção de intérprete como uma coisa do passado. "Eu me diverti tanto sendo apenas diretor em `Sobre Meninos e Lobos' que achei que havia me aposentado como ator", confessa o diretor.

"Mas aí veio esse papel para 'Menina de Ouro' e eu tive que interpretá-lo, porque me permitiu um mergulho intenso no personagem. E aí quando fui ver já tinha que fazê-lo. Mas agora já estou aposentado novamente. Estou dando uma de Frank Sinatra --só me "desaposentarei" quando sentir que é o momento."

A protagonista Hilary Swank,por sua vez, diz estar feliz porque Eastwood ainda se mostra disposto a atingir objetivos como ator, ao mesmo tempo em que indica esses objetivos para os outros atores. "Ele é incrivelmente bom como ator", diz Hilary. "Quando o conheci, fiquei completamente muda. Imagine, eu estou ali e me aparece esse homem de quase dois metros de altura que é um ícone na história do cinema. Mas ele é do tipo que chega e a gente já fica logo à vontade."

Aqui novamente assinala-se que essa sensação tão à vontade só é possível porque a Warner ao longo dos anos tolerou o estilo de dirigir meio frouxo de Eastwood. Ele não é do tipo que refaz uma cena até a morte, e não há registro em vídeo para rever cenas, quando Eastwood dirige um filme.

"Você vai pelo sentimento, até perceber que chegou ao ponto certo", revela Eastwood. "Você estabelece um parâmetro quando procura por algo, e sabe quando atinge esse parâmetro. Se não for assim, nem vale a pena fazer."

O ator Kevin Bacon observou Eastwood atentamente enquanto atuava em "Sobre Meninos e Lobos" e saiu da filmagem convencido de que já era hora de dirigir seu próprio filme: "Sinceramente é muito inspirador observar alguém que joga o jogo criando suas próprias regras", diz Bacon, cujo primeiro filme como diretor, "Loverboy", teve sua estréia no Festival de Sundance esse ano. "Clint faz os filmes que quer fazer, e os realiza à sua maneira."

A idéia de Eastwood realizando exatamente o que tem em mente pode ser parcialmente ilusória. O sistema de Hollywood, onde até mesmo um filme "pequeno" como "Menina de Ouro" pode significar apostas de milhões de dólares, não dá carta branca a ninguém.

Mesmo assim Eastwood conseguiu encontrar o melhor que o sistema pode proporcionar, assim como o sistema encontrou o melhor de Eastwood, num processo que parece fluido e sem esforço, mesmo quando não é bem assim.

Tudo o que dizia respeito a Clint acontecia de forma muito tranqüila", diz Terry S. Semel, presidente da Yahoo, que era co-presidente na Warner Brothers nos anos em que o rendimento de Eastwood era menos impressionante que o de hoje em dia.

"Com Clint, você nunca precisava falar com 14 pessoas antes de chegar a ele. Você só precisava falar com o próprio Clint, e tudo o que ele falava, fazia. E se preocupava com o dinheiro da Warner Brothers como se fosse o dele mesmo." Embora lhe dê lucro e prestígio, Warner faz exigências para diretor Marcelo Godoy

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