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14/02/2005

Festa de divórcio é a nova moda dos americanos

The New York Times
Rachel Dodes

Em Nova York
Quando Rachel Bendtsen entrou no bar nova-iorquino Mulberry Street, em Little Italy, em uma recente noite de quinta-feira, foi recebida com um bolo e aplausos. As câmeras de fotografia dispararam, enquanto ela cumprimentava amigos que não via há três anos, desde que se noivou e parou de visitar Nova York frequentemente. Ela fechou os olhos na frente do bolo decorado com um pássaro saindo de uma gaiola e assoprou as velinhas.

"Estou tão feliz em ser livre", disse Bendtsen, 27, enquanto mais fotos eram tiradas. "E estou aceitando inscrições para uns apertos". Vários homens solteiros estavam disponíveis, felizes em se inscrever.

Em termos de festa de divórcio, esta foi bem contida --sem bufê ou banda, e o bolo foi feito em casa. Certamente não foi nada parecida com o casamento de US$ 20.000 (em torno de R$ 45.000) que ela e seus pais pagaram dois anos antes, no qual 200 convidados viram-na jurar amar seu marido para sempre.

"Depois que você diz que vai se casar, é difícil fugir", disse Bendtsen. "Então, o divórcio colocou nós dois de volta em nosso curso. No meu caso, definitivamente é causa de celebração."

A festa de divórcio, um misto de despedida de solteiro e bacanal exorcista, está se tornando uma celebração completa, com listas de presentes e um conjunto de protocolos sociais. Antes motivo de vergonha, o divórcio tornou-se um rito de passagem peculiar, tão comum que cada vez mais pessoas estão comemorando a ocasião, mesmo no Dia dos Namorados.

Especialistas vêem a causa em uma série de fatores, inclusive uma aceitação crescente do divórcio e a necessidade da sociedade de mais rituais para marcar os estágios importantes da vida.

"Há 50 anos, o divórcio era uma coisa quase proibida. Hoje, você não pensa em um divorciado como um excomungado; você lhe estende sua simpatia e, algumas vezes, dá até os parabéns", disse David Popenoe, diretor do Projeto Nacional de Casamento, um esforço de pesquisa interdisciplinar da Universidade Rutgers.

Dra. Reena Sommer, psicóloga e autora do livro eletrônico de 2004 "How to End a Marriage: Leaving Your Spouse in 21 Steps" (como terminar um casamento: deixar seu esposo em 21 passos) disse que frequentemente recomenda a seus clientes que façam algo especial após o término de um relacionamento, para marcar sua volta à vida de solteiro.

"Se você puder, encontre outro lugar para morar", disse Sommer. "Se não, mude a decoração da casa --comece pelo quarto de dormir. Compre lençóis novos." A festa, disse ela: "É mais um rito de passagem, uma forma da pessoa dizer 'acabou'".

É impossível determinar a popularidade das celebrações de divórcios e rompimentos, porque muitas vezes são pequenas e assumem uma variedade de formas --noitadas entre mulheres ou homens, cerimônias completas, envolvendo os dois que estão se separando, ou festas do Dia dos Namorados. Mas é evidente que as celebrações de divórcio estão ganhando adeptos.

Celebrants USA é um grupo sem fins lucrativos com base em Montclair, no Estado de Nova Jersey, que fornece agentes para conduzir todo tipo de eventos como casamentos, funerais e divórcios. Charlotte Eulette, que trabalha no grupo, diz que, apesar de ainda serem raras, as festas de divórcio estão se tornando mais freqüentes.

"Cinqüenta por cento dos casamentos acabam em divórcio", disse Eulette. "Idealmente, metade das ligações que recebo seriam pedidos de cerimônias de divórcio". Ela própria teve a sua, um ano e meio atrás. A festa foi no Diva Lounge, em Montclair, e teve uma procissão de tambores e uma cerimônia em que sua mãe, simbolicamente, devolvia-lhe seu nome de solteira.

Philip Tabor, ator de 30 anos, deu a si mesmo uma festa de rompimento em setembro. "Minha avó disse: 'Quando a vida lhe der limões, faça limonada'", disse ele. "Eu acrescentei tequila." Tabor, que rompeu com seu parceiro de oito anos no último verão, enviou convites com o título: "El Divorcio", para sua festa banhada de margarita no restaurante mexicano Café Juanita no Lower East Side em Nova York.

"Sem querer parecer o programa Lifetime, foi muito terapêutico", disse ele. Seus amigos lhe encheram de bebida, vídeos eróticos e um livro de auto-ajuda chamado "Finding the Boyfriend Within" (encontrando o namorado interior).

Na festa "Single de Mayo", de Andrew Marks, em Los Altos, Califórnia, em maio, 80 convidados comeram comida polinésia e dançaram as músicas compiladas por Mark chamada "Divorce Mix", que incluía "Black Magic Woman", de Carlos Santana, e "Go Your Own Way", de Fleetwood Mac. Os amigos de Marks lhe presentearam com brincadeiras, como uma efígie de sua ex-mulher para fazer vodu.

"Sempre pensei que o casamento deveria ser uma ocasião maravilhosa", disse Marks, 37. "Algumas vezes, o divórcio também é."

As empresas também estão esperançosas com as festas de rompimento, anunciando seus serviços como uma perfeita injeção de ânimo ao recém solteiro.

Em www.theytookeverything.com, o recém divorciado pode fazer uma lista de presentes envolvendo desde uma nova torradeira até uma televisão plana. Desde que começou a oferecê-lo em seu site na Web, www.revengelady.com, em meados de 2003, Christine Gallagher vendeu quase 4.000 cópias do guia "How to Throw a Divorce or Breakup Party" (como organizar uma festa de divórcio ou rompimento).

A Plum Party, uma empresa de fornecedores para festas de Nova York (www.plumparty.com) vende itens como Kit Para Superá-lo e Boneco de Vodu do ex-Marido. Em www.breakupnews.com, as pessoas podem submeter seus sórdidos contos de infortúnio para que sejam reescritos no estilo de anúncios de casamento.

"Os novos relacionamentos são os rompimentos", disse Flint Wainess, uma autora de Los Angeles e fundadora do BreakupNews, cuja parceira de blog é Anna Jane Grossman, colunista de casamento do jornal "The New York Post".

Sylvia Weinstock, especialista em bolos de casamento --que fez a torre de 3 metros do casamento de Star Jones e Al Reynolds-- disse que recebeu três pedidos de bolo de divórcio no ano passado. Em um deles, Winstock tinha confeccionado o bolo de casamento para aquele cliente, quatro anos antes. Para a festa de divórcio, fez outro bolo de casamento, mas com uma diferença --parecia ter sido cortado ao meio.

Uma festa de divórcio ou de rompimento gera algumas questões de etiqueta espinhosas.

Os ex-esposos devem celebrar juntos ou separados? Seria apropriado queimar o álbum de casamento? Talvez no maior sinal de que a celebração de rompimentos está se tornando uma tendência, Peggy Post, bisneta por casamento de Emily Post e editora da 17ª edição de "Emily Post's Etiquette" (etiqueta de Emily Post, Harper Resource, 2004) acrescentou uma seção no livro sobre esse tipo de evento. Esse é seu conselho: não dê uma festa.

"Se você vai celebrar, não diminua seu ex-esposo e não celebre o divórcio de forma pública sendo cruel", disse Post. "Parece básico, mas é importante."

Não diga isso a Dan Savage, colunista de sexo e editor de "The Stranger", um jornal alternativo em Seattle. Savage arrasa em suas festas de rompimento: há oito anos que dá uma festa para o Dia dos Namorados, na noite de 14 de fevereiro, na qual solteiros podem destruir artefatos de seus velhos relacionamentos.

"Você fica em um ambiente cheio de pessoas solteiras e magoadas, procurando sexo para se animarem", disse Savage, que fará a festa neste ano no Chop Suey, em Seattle. "É ótimo."

Dominic Barbara, advogado de divórcio de Long Island cujos clientes incluem o pai de Lindsay Lohan, Michael, e Victoria Gotti, disse que uma de suas clientes está dando uma festa de Dia dos Namorados neste ano com seu ex-marido, para celebrar seu divórcio, em um restaurante de quatro estrelas em Nova York.

Barbara, que não revelou o nome da cliente, disse que ela e o ex-marido são banqueiros de investimento que decidiram dividir os US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 60 milhões) entre eles, em vez de agüentar uma longa batalha na justiça. "Eles jogaram o acordo pré-nupcial no lixo", disse Barbara.

Uma mulher de 43 anos chamada Sasha, que não quis divulgar seu último nome, organizou uma festa de rompimento para o dia 12 de fevereiro em Los Angeles, com dançarinos de salsa e uma fogueira queimando fotos antigas. (Sasha é de Los Angeles, mas agora mora em Massachusetts).

O ponto central da festa, uma cabeça de veado empalhada --a primeira caça de seu ex-namorado, que ela tirou de sua casa-- servirá de lenha para o fogo, em comemoração a sua volta à vida de solteira.

"Venci, porque fiquei com o troféu", disse ela.

De volta à festa de divórcio de Rachel Bendtsen, há algumas semanas, os amigos beberam vodka, contaram piadas de casamento e citaram famosos divorciados como Mae West e Woody Allen.

"Adoro essa: 'Ponderamos se deveríamos tirar férias ou nos divorciar, mas aí nos demos conta que uma viagem às Bermudas acaba em duas semanas e um divórcio dura para sempre", disse Oded Burger, citando Woody Allen.

Miguel Drake-McLaughlin, que organizou a festa de divórcio de Bendtsen, disse que ele e seus amigos queriam aprender. "Queríamos estabelecer um precedente", disse Drake-McLaughlin. "Agora, quando outros amigos se divorciarem, saberemos o que fazer." Espírito da prática é: "Está bem, terminou. Então, vamos festejar" Deborah Weinberg

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