UOL Notícias Internacional
 

15/02/2005

Caso de HIV mais forte evidencia dificuldades de campanhas de prevenção à Aids

The New York Times
Benedict Carey e

Anahad O'Connor

Em Nova York
No mínimo, o caso de Aids que alarmou as autoridades de Nova York na semana passada ilustrou a enorme dificuldade de promover e sustentar mudanças no comportamento sexual, segundo cientistas sociais.

Frances Roberts/The New York Times

Cartaz de campanha de prevenção à Aids em quiosque telefônico de NY
Acredita-se que o homem no centro do furor fez sexo não protegido com centenas de parceiros nos últimos meses e tomou a metanfetamina cristal. As autoridades temem que tenha contraído uma variante rara e possivelmente bem mais poderosa do vírus da Aids.

Outros pelo país --gays, bissexuais ou heterossexuais-- estão abertos a riscos sexuais similares.

Na última década, ativistas da Aids e autoridades da saúde desenvolveram campanhas de conscientização, distribuíram panfletos em clínicas médicas e conduziram estudos de larga escala para aumentar o uso de preservativos e reduzir os encontros sexuais anônimos.

No entanto, a maior parte dos esforços não conseguiu atingir os grupos de alto risco, dizem os especialistas. Os fracassos resultam de fatores sociais e políticos, como o aumento de contatos pela Internet, o uso de drogas e a dinâmica da transmissão da doença, que apenas começa a ser compreendida.

A incidência de novos casos de Aids e HIV aumentou em 1% de 1999 a 2003, de acordo com uma pesquisa dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, em 33 cidades americanas.

"A prevenção sempre foi a filha adotiva negligenciada em termos de financiamento, em relação à pesquisa biomédica", disse Anke A. Ehrhardt, diretor do Centro de Estudos Comportamentais e Clínicos de HIV, do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York.

Ehrhardt disse que, mesmo que esta variante rara de HIV seja um caso isolado, "haverá outros, e teremos outra epidemia, a não ser que a mudança de comportamento torne-se o ponto central das campanhas e tenhamos ações melhores que as atuais".

Alguns pesquisadores e ativistas no combate à Aids também citam como obstáculos o financiamento federal menor para esforços de prevenção e a pressão para reforçar a abstinência sobre outros métodos de redução do risco sexual.

Uma equipe nacional de pesquisadores e assistentes da saúde recentemente completou o que talvez seja o esforço mais ambicioso para reduzir os índices de transmissão de HIV entre homossexuais masculinos de alto risco.

O projeto Explore, como é conhecido, acompanhou 4.295 homens sexualmente ativos, em seis cidades dos EUA, que eram HIV negativos no início do estudo, em 1999. Metade dos homens recebeu 10 sessões de aconselhamento particular, nas quais foram explicados os perigos do sexo arriscado e estratégias práticas de evitá-lo. A outra metade recebeu duas visitas por ano de um funcionário da clínica de saúde, que discutiu formas de redução de risco.

Os resultados, publicados no último verão, foram aquém das expectativas.

Depois de um ano, o índice de novas infecções foi 18% mais baixo no grupo que recebeu as sessões de aconselhamento. Esses homens tiveram 20% menos chance do que os outros de fazer sexo com um parceiro cuja situação de infecção pelo HIV era desconhecida. No entanto, depois de dois anos, as diferenças entre os dois grupos desapareceu.

"Tivemos um forte efeito inicial, mas não durou", disse Thomas J. Coates, especialista em doenças infecciosas na Universidade da Califórnia, Los Angeles, principal autor do estudo.

Estudos anteriores foram ainda menos estimulantes: um deles observou que os homens que receberam aconselhamento tiveram maior probabilidade de pegar uma doença sexualmente transmitida.

Os pesquisadores dizem que vários fatores fora de seu controle tornaram os esforços de saúde pública ainda mais difíceis. As drogas anti-retrovirais, que estenderam as vidas de tantas pessoas com Aids, também diminuíram o pavor de pegar o vírus, disseram, especialmente na geração mais jovem de homens gays que não conheceram a agonia de ver os amigos morrerem da doença.

Muitos homens hoje procuram e encontram parceiros sexuais casuais na Internet. Assim, não freqüentam bares e outros locais de encontro onde a saúde pública tradicionalmente fazia suas campanhas. A droga metanfetamina cristal ficou associada com o sexo casual, especialmente para alguns homens gays. Alguns especialistas suspeitam que a metanfetamina também aumente a suscetibilidade à infecção, suprimindo a função imune da pessoa.

"O cristal está em toda parte hoje. Quando você começa a usar a droga, ela se integra com o sexo na sua mente, e o sexo sóbrio perde a graça. Se você está tentando ficar sóbrio, você pode passar um mês ou dois sem sexo, mas depois você não agüenta", disse Peter Staley. Ex-usuário, ele promoveu uma campanha contra a metanfetamina em Chelsea, um bairro de Nova York com grande comunidade gay, e hoje está trabalhando com as autoridades para diminuir o uso na cidade.

No estudo Explore, os pesquisadores também monitoraram o uso de drogas e descobriram que cerca de 20% dos participantes usavam metanfetamina. Os homens que usam esta e outras drogas, como cocaína, tiveram probabilidade significativamente maior de fazer sexo sem proteção com um parceiro com situação de infecção por HIV desconhecida.

"Isso sugere que nenhum nível de uso dessas drogas deve ser considerado seguro, de uma perspectiva de prevenção do HIV", concluíram os autores.

Em sites da Internet, como manhunt.net, e em salas de bate-papo nos grandes portais, muitos homens deixam claro que não querem usar drogas, anunciando em seus perfis "no-PNP", das iniciais em inglês Party & Play, outra forma de dizer sexo com drogas. Muitos homens também deixam claro que só consideram o sexo seguro, com preservativos. Outros, no entanto, querem usar a droga e recrutam parceiros sexuais múltiplos.

Outra razão para o insucesso das campanhas de mudança de comportamento, dizem alguns especialistas, é que suas mensagens raramente são formuladas especificamente para atingir os que mais precisam ouvi-las.

Os pesquisadores também observaram que o número de encontros sexuais não protegidos não é proporcional aos índices de transmissão do HIV.

Posição social

Em um estudo conduzido de 1988 a 1993, por exemplo, o Departamento de Saúde do condado de El Paso, no Estado do Colorado, acompanhou a atividade de 595 homens e mulheres heterossexuais, em Colorado Springs, que corriam alto risco de infecção por HIV por prostituição, uso de drogas intravenosas e atividade sexual freqüente. Os pesquisadores traçaram os elos sexuais entre essas pessoas e cerca de 10.000 parceiros e não encontraram aumento nos índices de transmissão, apesar do sexo comumente desprotegido.

A razão, segundo os pesquisadores, era que os que tinham o vírus estavam na periferia da rede social. Por outro lado, as pessoas mais centrais no grupo --sexualmente conectadas com muitos outros, como aros de uma roda de bicicleta-- não tinham o vírus, e por isso não o estavam espalhando.

"Isso explica porque você conhece pessoas fazendo todo tipo de coisas exóticas sem se infectarem e outra pessoa que teve apenas um encontro pega a doença. Não é justo, apenas uma questão da distribuição das redes sociais", disse John J. Potterat, principal pesquisador.

Um estudo similar entre heterossexuais de alto risco na região de Nova York revelou uma rede social diferente: neste caso, as pessoas centrais da rede, que tinham o maior número de parceiros, estavam infectadas com o HIV. Um pequeno número de pessoas estava provocando um aumento dos índices de transmissão.

Ao estudar primeiro a rede social em determinada população, a saúde pública pode direcionar seus esforços, disse Potterat. Uma mensagem geral pode ser eficaz para a maior parte das pessoas, mas as autoridades devem se concentrar muito mais intensamente em informar e aconselhar as pessoas no centro da rede.

"Precisamos concentrar os esforços de saúde pública para sabotar essas redes", disse Potterat. No entanto, ele acrescentou que, até agora, ninguém fez isso.

Outra complicação, segundo os especialistas, é que muitos homens de alto risco que fazem sexo desprotegido com vários parceiros têm histórias de uso de drogas, abuso na infância e depressão. Como resultado, dificilmente uma estratégia única dos agentes de prevenção ter sucesso.

"É mais difícil atingir esse grupo, pelo fato de envolver uma série de outras questões. As intervenções mais eficazes na população em geral não parecem funcionar para ele, e não identificamos uma solução mágica", disse Gail Bolan, diretora do setor de controle de doenças sexualmente transmitidas do Departamento de Serviços de Saúde da Califórnia. Como fazer aqueles que correm perigo evitar fazer sexo arriscado? Deborah Weinberg

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