UOL Notícias Internacional
 

15/02/2005

Coreógrafo russo desaparece em circunstâncias obscuras e mobiliza o país

The New York Times
Sophia Kishkovsky

Em Moscou
Negócios, e não balé, levaram Dmitri Briantsev, um coreógrafo russo de destaque, a Praga, República Tcheca, no verão passado. E podem tê-lo matado.

A história de seu desaparecimento é uma história obscura que tem sido destaque em todos os jornais russos, recheada de rumores de casos amorosos e negócios imobiliários.

O que é certo é que Briantsev, 57 anos, o diretor artístico do Balé Stanislavsky e Nemirovich-Danchenko de Moscou, saiu de seu hotel, perto da Praça Wenceslas em Praga, em 28 de junho, e não foi mais visto.

"É um desaparecimento totalmente misterioso", disse Alexander Gomeniuk, um adido de imprensa da embaixada russa em Praga, em uma entrevista por telefone. Gomeniuk disse que a pedido dos investigadores tchecos, ele não podia discutir detalhes do caso.

Sergei Shelegeda, um consultor do Ministério do Interior russo e que está servindo como ligação com as autoridades tchecas na investigação, disse que a possibilidade de Briantsev ter se escondido por "motivos comerciais ou pessoais" não foi descartada, mas que a teoria mais aceita é de que foi vítima de um crime.

Um motorista enviado para pegar Briantsev no aeroporto de Moscou, em 30 de junho, não conseguiu encontrá-lo, e ele não apareceu para a nova temporada da companhia que liderou por quase 20 anos.

Colegas disseram que Briantsev --descrito por Natalia Kolesova, uma crítica de dança de Moscou, como "um homem imponente, enorme" que "parecia como um 'khan'"-- era cheio de planos.

O Teatro Acadêmico Stanislavsky e Nemirovich-Danchenko de Moscou, lar de um trupe de balé e uma companhia de ópera, está no meio de uma reconstrução orçada em US$ 170 milhões comandada por Yuri Luzhkov, o prefeito de Moscou, que triplicará seu espaço. A trupe de balé há muito tempo é considerada a segunda maior companhia de Moscou, atrás do Bolshoi.

Em Moscou, poucos dias antes de seu desaparecimento, Briantsev, cujas coreografias representam um terço do repertório do Stanislavsky, comandou os bailarinos em um ensaio de seu balé em progresso, baseado em Rachmaninoff. Vladimir Urin, o diretor geral da companhia, disse esperar que os mestres de balé consigam encená-lo.

Briantsev era sócio em dois negócios registrados em Praga, e Urin disse que pelo que soube a investigação estaria examinando a possibilidade de que negócios imobiliários possam estar envolvidos no desaparecimento, apesar de haver várias versões para o que pode ter ocorrido.

"As principais versões são assassinato", disse Urin. "Quem é o suspeito, quem é o culpado e assim por diante, infelizmente eu não posso dizer, porque os investigadores não compartilharam tais informações comigo."

Ele disse que nunca conversou com Briantsev sobre seus negócios. "Estes são novos tempos", disse Urin, se referindo às novas oportunidades existentes para os russos ganharem dinheiro. "Eu não quero especular sobre o motivo dele repentinamente ter decidido se envolver em negócios."

Imóveis representam riscos para outras figuras do mundo das artes em Moscou. Mikhail Levitin, diretor artístico do Teatro Hermitage, um prédio histórico em um parque pitoresco em um ponto imobiliário altamente valorizado de Moscou, tem se queixado há anos de que está sendo pressionado por forças que querem transformar o teatro em um complexo de entretenimento.

Levitin disse recentemente para a imprensa russa que foi ameaçado com violência e alertado de que ácido poderia ser despejado em sua esposa e que sua filha recém-nascida poderia se machucar caso não renunciasse ao cargo.

"Em nosso país arte é sempre perigosa", disse Kolesova, a crítica de dança. "Antes as autoridades perseguiam por posições criativas, agora criminosos perseguem pelos imóveis."

Em Moscou, crimes ligados a negócios imobiliários ocupam resmas de notícias impressas. O desenvolvimento e especulação imobiliários estão entre os setores mais lucrativos da economia russa, mas muitos investidores têm sido atraídos para o exterior, para lugares como a República Tcheca, onde os preços são mais baratos e o mercado é aparentemente mais seguro e mais regulado do que na Rússia.

Urin disse que Briantsev vivia confortavelmente das comissões para criação dos balés e do licenciamento de suas danças. Mas Kolesova disse que ele provavelmente não dispunha das mesmas oportunidades financeiras que os bailarinos, que podem ganhar em duas atuações em turnê o que ganhariam em um mês no teatro.

"Ele foi um dos nossos melhores coreógrafos da segunda metade do século 20", disse Kolesova. "É uma grande perda, já que há muito poucos coreógrafos como ele. Não apenas em nosso país, mas no mundo."

Urin descreveu Briantsev como um homem que amava caçar e cozinhar e que era louco por seu filho de 3 anos, Vanya.

"Ele sonhava em encenar 'Bambi' para Vanya quando ele crescesse um pouco", disse Urin. O último balé coreografado por Briantsev, "A Circus Has Arrived!" (Um circo chegou!) era para crianças.

Entre os trabalhos mais conhecidos de Briantsev estão "Salomé" e "Sulamita", ambas histórias bíblicas de adultério, e "Spirit Ball", baseada em Chopin. O Balé Stanislavsky e Nemirovich-Danchenko já excursionou pelo mundo, incluindo os Estados Unidos, recebendo aclamação da crítica por seus balés clássicos com toques modernos. Em Moscou, ele conseguiu não desaparecer à sombra do Balé Bolshoi, que fica na mesma rua.

A busca por Briantsev continua. Sua companhia terá um novo diretor artístico na próxima temporada, Mikhail Lavrovsky, um ex-astro do Bolshoi. Todos os balés de Briantsev continuarão no repertório, disse Urin.

"Nenhum outro teatro de Moscou tem os balés que temos", disse Georgi Smilevski, um dos principais solistas do Stanislavsky. "Eles são um grande tesouro, e temos que preservá-los." George El Khouri Andolfato

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