UOL Notícias Internacional
 

16/02/2005

Ataques pessoais marcam o início da campanha eleitoral no Reino Unido

The New York Times
Sarah Lyall

Em Londres
Nenhuma data foi anunciada, e ninguém está oficialmente concorrendo. Mas políticos dos partidos que dominam há décadas a política no Reino Unido, o Trabalhista e o Tory (conservador) já estão se comportando como genuínos candidatos em uma genuína campanha agressiva que, novamente, tem em seu centro o primeiro-ministro trabalhista Tony Blair.

Antecipando que as próximas eleições nacionais ocorrerão em maio, os partidos têm demarcado seus territórios em tudo, de lei e ordem até imigração e educação. Mas o verdadeiro combate está ocorrendo nas páginas explicitamente partidárias dos jornais nacionais britânicos.

Nunca fãs de Blair, jornais como o "Daily Mail" (populista) e o "Daily Telegraph" (ferrenhamente Tory) aumentaram suas críticas ao ponto mais elevado. Todo dia traz uma nova barragem de críticas, tanto pessoais quanto políticas, que têm abordado tópicos como os esforços da esposa do primeiro-ministro, Cherie, de ganhar dinheiro fazendo palestras no exterior e as dificuldades do casal para encontrar inquilinos para uma cara casa nova em Londres, que compraram para o dia em que Blair finalmente deixar o governo.

Mais recentemente, o "Daily Mail" acusou Blair de tentar usar o futuro casamento do príncipe de Gales e Camilla Parker Bowles em seu benefício político, fazendo com que marcassem o casamento para 8 de abril --na mesma semana na qual se espera que ele anunciará a data em que a eleição será realizada.

De muitas formas, tudo isto é um exercício de futilidade. Blair obteve duas vitórias esmagadoras para os trabalhistas em 1997 e 2001, e parece destinado, salvo uma intervenção extraterrestre imprevista, a vencer com folga novamente.

Os conservadores parecem estar fracassando em uma missão familiar: pintar um quadro tão desagradável do primeiro-ministro e de seu governo trabalhista a ponto de o eleitorado se voltar contra eles nas urnas.

Aos 51 anos, Blair não é particularmente popular. Ele já serviu mais tempo do que qualquer outro primeiro-ministro trabalhista na história e ainda conta com uma robusta maioria no Parlamento. O índice de aprovação do governo é de anêmicos 40%, e as pesquisas mostram que a maioria dos eleitores não confia em Blair.

Os britânicos se queixam incessantemente dele. Eles são contra seu contínuo apoio à guerra no Iraque. Eles o responsabilizam pelo mau estado das ferrovias, escolas e hospitais britânicos. Eles o criticam como hipocritamente esforçado e falso, e acreditam que seus assessores são hábeis distorcedores de fatos.

Mas para sua imensa frustração, seus oponentes têm se mostrado singularmente incapazes de explorar estas queixas para remover Blair do cargo. Apesar da má situação dos trabalhistas, os conservadores conseguem se sair ainda pior, com apenas 32% dos eleitores na mais recente pesquisa dizendo que votariam no Tory.

"É um jogo de soma zero", disse Robert M. Worcester, presidente da Mori Polling Organization, uma organização independente de pesquisa, explicando o motivo da impopularidade de Blair não ter beneficiado o líder conservador, Michael Howard. "Você não derrota alguém com ninguém."

De fato, em uma pesquisa da Mori, apenas 22% dos eleitores disseram estar satisfeitos com a atuação de Howard, enquanto 43% disseram não estar. Mas o pior de tudo foi o terceiro grupo: 35% disseram não saber o que pensar.

Parte dos problemas dos conservadores é que os trabalhistas têm se deslocado constantemente para a direita desde os anos 80 e início dos 90, quando estavam na oposição. Em muitas questões, particularmente na justiça criminal e na imigração, o partido praticamente assimilou a agenda conservadora.

Além disso, os conservadores ainda estão sofrendo da depressão pós-Thatcher. Muitos de seus membros têm mais de 60 anos e ainda consideram o período de 1980 a 1991, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher presidiu com mão-de-ferro, como a idade dourada do partido.

Desde que os trabalhistas assumiram o poder oito anos atrás, o Tory teve três líderes --William Hague, Ian Duncan Smith e agora Howard-- cada um aparentemente mais desesperançado do que o anterior, e nenhum um adversário à altura de Blair.

Tudo isto ajuda a explicar o motivo do partido Tory, distraído pela impenetrabilidade da fortaleza trabalhista, estar se esforçado tanto para encontrar um ponto fraco. Grande parte de seu esforço tem sido tentar reforçar a impressão de que Blair é um personagem muito detestável e superficial, cujo partido é dirigido por cínicos manipuladores de imagem.

Este é motivo do "Daily Mail" ter narrado impiedosamente as aparentes dificuldades de Blair e sua esposa com sua nova casa, depreciando o bairro como não sendo muito bom, a casa como necessitando de muita reforma e o aluguel pedido pelos Blairs como risivelmente alto.

Este é o motivo para o jornal ter dito que Cherie Blair estava "tirando proveito" e a comparando com a Rainha de Sabá em um artigo sobre sua recente turnê de palestras. E este é o motivo para a decisão de Blair de contratar seu ex-porta-voz combativo, Alastair Campbell, para ajudar a orquestrar sua estratégia de reeleição, ter levado os conservadores a se manifestarem no jornal "The Times" de Londres sobre "truques sujos" e "campanhas de difamação".

Na verdade, ambos os partidos estão tentando explorar a repulsa dos eleitores com a política suja, mas estas discussões têm pouco a ver com política de fato; tantos espantalhos entraram no debate que parece que todas as pessoas reais desapareceram.

Por exemplo, os conservadores atacaram recentemente duas propagandas que foram postadas juntamente com outras em um site do Partido Trabalhista. Uma parcela minúscula da população tinha visto as propagandas; a idéia era para que as pessoas votassem em suas favoritas para uso na campanha nacional.

Um cartaz mostrava os rostos de Howard e seu vice, ambos judeus, transpostos para os corpos de porcos voadores, com a legenda, "O dia em que o soma Tory acrescentará algo"; o outro exibia Howard balançando de forma arrepiante um relógio de hipnotizador e dizendo: "Eu posso gastar o mesmo dinheiro duas vezes".

Os conservadores disseram que as propagandas eram anti-semitas; os trabalhistas disseram que não visavam ofender e que nunca planejaram usar as propagandas, já que poucas pessoas votaram nelas.

Em seguida, os conservadores se concentraram no uso pelos trabalhistas da recém-aprovada Lei de Liberdade de Informação, acusando os trabalhistas de sorrateiramente procurarem por esqueletos no armário dos conservadores. Os trabalhistas disseram que apesar de realmente terem feito 20 pedidos de acordo com a lei de liberdade de informação para investigar antigos governos conservadores, os conservadores fizeram 130 pedidos sobre o atual governo trabalhista.

O jogo de distorção se tornou um salão de espelhos, com cada partido se queixando de ser mais vítima do que agressor. Enquanto isso, os eleitores que têm tentado acompanhar os fatos se perguntam quem foi o culpado original ou por que deveriam se importar. Conservadores tentam atingir imagem de Blair; trabalhistas revidam George El Khouri Andolfato

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