UOL Notícias Internacional
 

16/02/2005

Defesa do aborto pode rachar Partido Democrata

The New York Times
David D. Kirkpatrick

Em Washington
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Em sua busca por um meio termo na questão do aborto, os democratas estão encontrando uma mistura de resistência e recuo por parte dos defensores dos direitos de aborto dentro de seu próprio partido.

Desde suas derrotas nas eleições de novembro, nada expôs mais vividamente a alma fraturada do Partido Democrata do que o aborto. Os líderes do partido, incluindo a senadora Hillary Rodham Clinton de Nova York e o novo presidente dos democratas, Howard Dean, sinalizaram repetidas vezes um esforço para recalibrar o pensamento do partido sobre as novas restrições ao aborto.

Além disto, os democratas no Congresso nomearam um oponente declarado dos direitos de aborto, Harry Reid de Nevada, como o líder no Senado. Alguns democratas apoiaram outro oponente do aborto, Tim Roemer, para presidência do partido.

O comitê de campanha senatorial do partido recrutou pelo menos dois oponentes do aborto para concorrerem ao Senado em 2006. E talvez mais simbolicamente, o partido está buscando alistar Robert P. Casey Jr., o tesoureiro estadual da Pensilvânia e um forte adversário dos direitos de aborto, para concorrer contra io republicano Rick Santorum em uma das vagas do Estado no Senado.

Casey é filho do ex-governador Bob Casey, um herói para os oponentes do aborto dentro e fora do Partido Democrata. Após tentar sem sucesso fazer com que a plataforma do partido em 1992 declarasse que os democratas não apoiavam "o aborto por demanda", Bob Casey condenou o partido por recusar a deixá-lo falar na convenção em Nova York em nome de outros democratas que compartilhavam sua posição.

Agora, o Casey mais jovem disse que o senador Charles E. Schumer de Nova York, presidente do Comitê Democrata de Campanha Senatorial, o encorajou a concorrer como oponente dos direitos de aborto. "Ele foi bastante receptivo e muito franco sobre a necessidade do partido de falar em nome de um espectro mais amplo de americanos", disse Casey em uma entrevista.

Mas a abertura de Schumer tem irritado membros leais do partido, que permanecem inflexíveis em seu apoio aos direitos de aborto, expondo um racha cada vez mais profundo no partido. Os grupos de direitos de aborto, que são importantes doadores financeiros para as campanhas democratas, disseram que enfrentarão Casey na eleição primária com um candidato que compartilhe suas crenças.

Karen White, a diretora política do Emily's List, um grupo que levanta dinheiro para candidatas que apóiam os direitos de aborto, disse que o grupo "está empolgado" com a possibilidade de apoiar uma defensora dos direitos de aborto, Barbara Hefer, uma ex-tesoureira estadual da Pensilvânia.

O Emily's List e outros grupos também soaram o alarme para a direção que a liderança do partido está tomando. Durante a busca por um presidente nacional para o Partido Democrata, White postou um alerta no site do grupo: "Nós lutamos como loucas para derrotar os republicanos. Mal sabíamos que teríamos tanto medo de alguém de dentro do próprio Partido Democrata, que parece estar usando a Escolha (pró-aborto) como um bode expiatório para nossas derrotas eleitorais".

O Emily's List está circulando um estudo que encomendou junto ao pesquisador Mark Mellman, que declara que o aborto "não foi um fator na tomada de decisão dos eleitores" nas eleições de novembro.

Ann Stone, presidente da Republicans for Choice, um grupo republicano de direitos de aborto, disse que os membros de sua organização não estão revendo suas posições, como seus pares democratas. Stone adicionou uma nota de cautela que vai além da base de apoio de cada partido. "Os democratas precisam ter muito cuidado com isto porque poderão minar a si mesmos junto à base doadora", disse ela. "Os doadores pró-escolha de ambos os partidos tendem a ser mais ricos."

Schumer, por sua vez, disse que os grupos de direitos de aborto deviam se preocupar com os republicanos, e não com os democratas, se quiserem preservar a decisão Roe versus Wade da Suprema Corte, de 1973, que estabeleceu o direito constitucional ao aborto. "O que descobrimos é que mesmo o mais pró-escolha dos senadores republicanos acaba votando por juizes dispostos a reverter a decisão Roe", disse ele.

Outro grande grupo de direitos de aborto, o Naral Pro-Choice, está revendo sua posição, dizendo que abandonará sua oposição à proposta Lei de Consciência da Dor do Feto, um projeto que exigirá que os médicos ofereçam anestesia para os fetos de mulheres que busquem abortos após 20 semanas de gravidez.

Nancy Keenan, presidente da Naral Pro-Choice, disse que a organização economizará sua munição para combater juizes indicados que possam reverter Roe Versus Wade. "Nós vamos nos posicionar mais fortemente na próxima batalha pela Suprema Corte", disse Keenan.

Há "questões maiores a serem enfrentadas", ela acrescentou, "para chamar atenção para a questão mais ampla da saúde reprodutiva". Por exemplo, na edição desta semana do conservador "Weekly Standard", o Naral colocou uma propaganda pedindo aos grupos de direitos de aborto para "por favor, nos ajudem a prevenir abortos" aumentando o acesso ao controle de natalidade.

Mas Carol Tobias, diretora política da Fundação Nacional pelo Direito à Vida, desdenhou o convite como uma tentativa "de atrair o movimento pró-vida ao debate sobre o controle da natalidade", um assunto no qual sua organização não se posiciona. Tobias considerou a conversa dos democratas como "jogar areia nos olhos dos eleitores".

Mesmo assim, o senador Sam Brownback, republicano do Kansas e um campeão dos oponentes do aborto e autor do projeto de dor do feto, disse estar observando os passos dos democratas com grande interesse.

"A simples linguagem que permite que os democratas dêem abertura e até mesmo encorajem pessoas a concorrerem como candidatas pró-vida é um desdobramento enormemente positivo para mim", disse Brownback, acrescentando que a decisão do Naral de não se opor ao seu projeto de lei o deixa ainda mais otimista quanto à sua aprovação.

Mas os defensores de direitos de aborto alertam para uma grande revolta dentro do partido caso seus membros comecem a ceder a novas restrições ao aborto como as leis de notificação aos pais ou de dor do feto. Karen Pearl, presidente interina da Planned Parenthood, disse que alguns de seus aliados disseram que "caso os democratas se afastem da escolha, isto poderá representar o verdadeiro nascimento de um movimento por um terceiro partido".

Mas Pearl acrescentou: "No final, eu não acredito que eles vão recuar", em parte devido à importância dos defensores dos direitos do aborto para a base de ativistas e doadores do partido.

Em uma pesquisa de The New York Times no mês passado, 36% dos entrevistados disseram que o aborto deve estar disponível de forma geral, 35% disseram que o procedimento deve estar disponível mas sob restrições rígidas, e 26% disseram que o aborto não deve ser permitido.

O aspecto financeiro pende mais para um lado. Os grupos de direitos de aborto doaram mais de US$ 1,4 milhão nas eleições de 2004 para candidatos a cargos federais, duas vezes mais que o total doado por grupos contrários aos direitos de aborto, segundo o Center for Responsive Politics.

Além disso, o Emily's List levantou US$ 34 milhões para candidatas que apóiam os direitos de aborto, segundo o centro. Em comparação, o Comitê Nacional pelo Direito à Vida, o maior doador da oposição ao aborto, levantou cerca de US$ 1,7 milhão.

Reid, o senador, disse que aprecia a nova "ênfase no reconhecimento da diversidade do partido". Ele acrescentou: "Nós tivemos muitos democratas pró-vida, mas o pessoal pró-escolha não se dirigiu a eles e nem os protegeu".

Ele reconheceu algumas queixas dos grupos de direitos ao aborto sobre a mudança na retórica do partido. "Eles precisam manter seu pessoal mobilizado, como as pessoas que lutam por mais estradas", disse Reid. "Isto é o que fazem, assim como os grupos pró-vida." Ativista pró-escolha diz que terceiro partido poderia surgir nos EUA George El Khouri Andolfato

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