UOL Notícias Internacional
 

19/02/2005

Freiras têm como alvo conselhos corporativos, em movimento contra a guerra

The New York Times
Leslie Wayne
Décadas atrás, durante uma guerra diferente, muitas igrejas estiveram à frente de esforços contra a guerra, seja com o ativismo dos irmãos Berrigan, dois padres católicos romanos que jogaram sangue nas listas de convocação, ou nas marchas das igrejas contra as armas nucleares.

Apesar de grande parte desse ativismo ter se esvaído, um conjunto de freiras católicas continua verdadeiro à causa da paz -apesar de seu movimento tomar a forma de reuniões com conselhos corporativos e acionistas. No momento, freiras de dezenas de ordens estão formulando uma série de resoluções a serem apresentadas nas reuniões de acionistas nesta primavera.

É claro que empresas domo Lockheed Martin, General Dynamics ou Raytheon não estão prestes a baixar suas armas. Mas as fabricantes militares, diante das freiras insistentes em sua porta, começaram a se reunir com elas e, em alguns casos, a ver seus as coisas de forma diferente.

"Estamos levantando questões que ninguém levanta. Parte do que estamos fazendo é plantando sementes. Essas empresas têm uma influência avassaladora onde operam, e não acho que corpos religiosos devem estar separados disso", disse Valerie Heinonen, freira católica e consultora de responsabilidade social em Nova York.

As propostas aos acionistas oferecidas pelas freiras fariam qualquer executivo militar contorcer-se. No topo da lista está a limitação de vendas militares ao exterior, para países onde as armas podem cair nas mãos de crianças soldados ou perpetuar guerras antigas. As freiras também estão promovendo um código de ética de conduta, que responsabiliza os fabricantes de armas pelo efeito que sua empresa tem no ambiente e na estabilidade política e social dos países onde operam.

A Raytheon foi uma das empresas que se reuniu com as religiosas. Em Boston, em novembro, uma delegação de freiras conversou com seis executivos da empresa, inclusive o diretor da divisão de ética e meio ambiente, vários advogados e outros executivos. O tópico era a proposta de conduta ética, e as discussões continuam, agora por telefone.

"Nem sempre concordamos, mas foi tudo respeitoso. As freiras fizeram muitas perguntas sobre nossos negócios. Houve algumas perguntas que nossos homens acharam interessante. Elas nos fizeram ver que não tínhamos olhado para as coisas daquela forma", disse Jack Kapples, secretário corporativo da Raytheon, que participou da reunião.

Mary Ellen Gondeck, das Irmãs de São José de Nazaré, no subúrbio de Detroit, estava na reunião da Raytheon, junto com representantes de meia dúzia de ordens.

"Se pudermos dialogar seriamente com essas empresas, isso já é um sucesso", disse ela, que coordena o escritório de paz e justiça da sua ordem. "Se estão dispostos a conversar conosco sobre nossas questões, certamente vamos chegar a algum lugar."

Para as freiras, o sucesso é medido em pequenas coisas -a maior disposição dos executivos de conversar com elas e o apoio às resoluções aos acionistas que apresentam todos os anos. Dezenas de grupos religiosos, principalmente ordens católicas, mas algumas protestantes, submeteram à Comissão de Títulos e Câmbio (SEC) resoluções aos acionistas que serão colocadas nas cédulas de votação de sete empresas militares nesta primavera.

No ano passado, as propostas das ordens religiosas receberam 11% dos votos da Textron, quase 9% da Raytheon e 5% na General Dynamics. Segundo os grupos religiosos, antes recebiam 2 a 3% dos votos. Além disso, a votação foi feita sem solicitações ou campanhas políticas pelas freiras ou outros. O único momento em que as freiras promovem suas idéias é quando falam nas reuniões anuais de acionistas.

"Nossas resoluções não ganham ou perdem, apesar de muitas pessoas virem dessa forma. Estamos tentando iluminar essas questões e educar os acionistas", disse Gary Brouse, diretor do programa do Centro de Interfé de Responsabilidade Corporativa, um grupo sem fins lucrativos de Nova York.

Na General Dynamics, o diretor executivo, Nicholas D. Chabraja, reuniu-se com representantes das Irmãs de Loretto e de outros grupos. De acordo com as freiras, a General Dynamics antes se recusava a conversar com elas. Mas, sob Chabraja, encontraram a porta mais aberta.

Chabraja disse que tinha pensado seriamente em algumas das questões levantadas pelas freiras, especialmente na área de vendas militares para o exterior. Apesar de dizer que se sente confortável em vender armas aos países estrangeiros a pedido do governo americano, nos poucos casos em que o governo americano não toma parte das transações, as palavras das freiras fizeram-no pensar.

"Nessa questão, sou cauteloso", disse Chabraja. "Não sei se por minha própria filosofia ou se algumas das coisas que as freiras falaram me influenciaram. Tiveram algum impacto, mas é difícil de medir. Suspeito que me fizeram pensar mais."

Com a guerra no Iraque apagando a separação entre o Pentágono e as empresas privadas contratadas pelos militares, muitas freiras dizem que uma forma de afetar a política do Pentágono pode ser por meio dessas corporações. Além disso, a guerra no Iraque, à qual o Vaticano se opôs, deu às freiras uma sensação ainda maior de urgência.

"Não podemos mudar as políticas do Pentágono", disse a irmã Mary Ellen. "Mas nossa esperança é que seus fornecedores comecem a fazer perguntas. Se um deles disser que não está interessado em fazer certa coisa, será uma forma de pressão sobre o Pentágono, para que avalie o que está fazendo. Encontrar outras avenidas de influência é importante para nós."

Apesar de as freiras católicas estarem claramente na frente desse movimento, muitas denominações e igrejas protestantes acrescentaram seus nomes às propostas das freiras aos acionistas.

Alguns grupos protestantes consideram o processo de promover propostas aos acionistas tão assombroso que as chances de sucesso são magras e cederam a liderança para ordens como a Congregação de Irmãs de Sta. Agnes, Irmãs Dominicanas, Irmãs Escolares de Notre Dame, Irmãs da Caridade, Irmãs de Loretto e outras.

Julgar o sucesso do ativismo das freiras pela votação dos acionistas pode ser tolice, de acordo com Nell Minnow, editor da Corporate Library, uma organização on-line que promove o controle das corporações. Minnow disse que, apesar de a campanha das freiras ser considerada "quixotesca", tais esforços "muitas vezes são a ponta de lança de um fenômeno cultural".

Minnow citou os primeiros acionistas que foram contra o cigarro e ativistas ambientais que levantaram questões em reuniões anuais das corporações antes de chegarem ao público em geral.

As freiras também, muitas vezes, dizem que vencer não é o ponto, mas que o ativismo corporativo faz parte de sua missão de promover a paz, independentemente da duração ou da dificuldade da luta. Com batalha tão grande pela frente, mesmo algumas das freiras mais dedicadas admitem ter momentos de dúvidas.

Uma delas é Mary Ann McGivern, que pertence às Irmãs de Loretto, em St. Louis, e vem liderando os desafios aos acionistas da General Dynamics há anos. Ela ficou animada com a nova disposição da empresa de se reunir com seu grupo, uma mudança de atitude clara.

Mesmo assim, têm dias de desânimo. "Algumas vezes", disse a irmã, "sinto que sou a única preocupada". Deborah Weinberg

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