UOL Notícias Internacional
 

19/02/2005

Tensão nos laços de família de um âncora da CBS News

The New York Times
Jacques Steinberg e David E. Sanger
Bob Schieffer gosta de dizer que é mais do que apenas o irmão de seu irmão mais novo, Tom. "Raios, eu o criei", disse Bob Schieffer em uma recente entrevista, com seus olhos marejados enquanto recordava os anos após a morte repentina do pai deles, que deixou Bob, então com 20 anos, e sua mãe encarregados da criação de Tom, na época com 10 anos.

Mas os laços, e limites, de tal intimidade familiar estão prestes a pesar como nunca antes. Tom Schieffer foi recentemente nomeado pelo presidente Bush -seu amigo e ex-sócio comercial no time de beisebol dos Texas Rangers- como embaixador no Japão, e Bob Schieffer, o antigo apresentador do "Face the Nation" da CBS, em breve se tornará o âncora interino do "CBS Evening News".

O que Bob faria se tivesse que apresentar um segmento no noticiário sobre como o Japão e os Estados Unidos estão enfrentando a Coréia do Norte? E como Tom responderia às perguntas da CBS News sobre dados confidenciais relacionados não apenas ao arsenal nuclear da Coréia do Norte, mas também sobre a estratégia econômica americana na Ásia?

Sem nenhum problema, ambos disseram.

"No começo, as pessoas disseram: 'Oh, ele vai ser uma grande fonte para você'", disse Bob, que espera atuar como âncora da CBS por pelo menos três meses. "Eu digo: 'Ele será a pior fonte que já tive!' Primeiro, quando você está falando com um embaixador dos Estados Unidos em uma linha aberta, você está falando com todas as agências de inteligência do mundo. Às vezes o eco é alto demais."

Falando em uma destas linhas abertas na Austrália, onde é atualmente embaixador, Tom repetiu o mesmo.

"Nós dependemos mais do que qualquer outra coisa da integridade", disse ele. "Eu reconheço que há lugares onde não posso ir com ele, e lugares onde ele não pode ir comigo."

Da parte de Bob, quando perguntado se seria capaz de ler a introdução de um reportagem tratando de assuntos de importância para seu irmão, ele disse que deixaria a decisão a cargo de Jim Murphy, o produtor executivo do "CBS Evening News".

"É possível que algo assim apareça", disse Bob. "Se aparecer, eu revelarei meu parentesco."

Mas ele reconheceu que, pelo menos até o início desta semana, ele ainda não tinha discutido o potencial de tais contingências tanto com Murphy quanto com Andrew Heyward, o presidente da CBS News. "Já que você levantou o assunto, eu vou discuti-lo com eles, para me certificar", disse ele. "Obviamente eles sabem sobre meu irmão."

Ao ser perguntada na quinta-feira sobre os irmãos Schieffer, Sandra Genelius, uma porta-voz da CBS News, citou Heyward como tendo dito: "Nós lidaremos com isto caso a caso, e penderemos para o lado da revelação do parentesco."

Os executivos da CBS News disseram que as ligações de Bob com o governo Bush por meio de seu irmão -incluindo o fato de Bob, confessamente, ter conhecido bem o futuro presidente durante os "dezenas" de jogos de beisebol que assistiu com ele, antes mesmo de Bush ser eleito governador do Texas- não influenciou sua escolha para substituir Dan Rather.

Rather deixará o posto de âncora do noticiário em 9 de março, como conseqüência de sua participação em uma reportagem, que foi desacreditada, que levantava dúvidas sobre o serviço de Bush na Guarda Nacional durante a Guerra do Vietnã.

Mas não passou desapercebido por altos assessores da Casa Branca o fato de que o rosto temporário da CBS News será o de alguém que o presidente conhece bem, e não apenas pelos 36 anos de Schieffer diante das câmeras da emissora. Mesmo antes da reportagem sobre a Guarda Nacional, a Casa Branca já considerava Rather -que confrontou famosamente o pai de Bush em uma entrevista televisionada ao vivo em 1988- como sendo talvez o mais hostil ao presidente entre os principais âncoras de noticiários.

Não é incomum irmãos, ou cônjuges, se verem em lados opostos da divisão jornalista/notícia em Washington -outro exemplo é Andrea Mitchell, corresponde estrangeira da NBC News, e seu marido Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve, o banco central americano. Em tais circunstâncias, dizem os executivos de notícias, o repórter geralmente é afastado da cobertura da área de responsabilidade de seu familiar.

Ao serem perguntados sobre como planejam reforçar o "firewall" jornalístico e diplomático entre eles -mantendo ainda a capacidade de conversarem livremente sobre assuntos não relacionados como os feitos da irmã deles, Sharon, uma educadora- os dois irmãos disseram em entrevistas separadas por meio mundo de distância que o "bom senso" de cada um determinará.

"Eu não falo com Tom sobre Dan Rather", disse Bob. "Tom não conversa comigo sobre George Bush."

Isto pode funcionar na teoria, mas nem sempre na prática, disse Geneva Overholser, uma professora da divisão de Washington da Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri. E Overholser disse não estar falando apenas como jornalista -ela é ex-editora do "Des Moines Register" e ombudsman do "The Washington Post"- mas também como irmã de um alvo de reportagem, Nan Keohane, o ex-reitor da Universidade Duke.

"Isto afetará o relacionamento de Bob com seu irmão, eu garanto", disse Overholser. "Quando um irmão é jornalista, o outro passa a entender que o primeiro instinto do jornalista é descobrir coisas e contar para os outros."

E apesar de Overholser ter dito que aplaude o instinto do jornalista de revelar qualquer conflito para os telespectadores, ela disse que tais revelações podem ser desajeitadas no formato do noticiário de 30 minutos. "Você fará Bob, toda vez que disser algo sobre o Japão, repetir: 'Me permitam esclarecer que sou irmão do embaixador'?"

Para aqueles que possam imaginar que Bob já obteve furos em conseqüência de seu irmão ter um amigo no Escritório Oval, ele já tem uma resposta pronta: na véspera da eleição primária de New Hampshire, na campanha presidencial de 2000, lembrou Bob, seu programa foi o último dos noticiários matutinos de domingo a conseguir uma entrevista com Bush.

"Naquela campanha, eu disse para Karen Hughes" -na época diretora de comunicações de Bush- "'Olha, eu não sei quais são suas idéias sobre isto, mas quero que me trate como qualquer outro repórter'", disse ele.

"E posso lhe dizer", ele acrescentou, rindo bastante, "eles cumpriram a parte deles da barganha!".

Bob, um eleitor independente, sugere que sua própria posição política é difícil de adivinhar.

"Eu gosto de provocar as pessoas", disse ele. "Eu digo: 'Você acha que sou democrata ou republicano?' Eu digo: 'Eu acredito na pena de morte, então isto me torna conservador, certo?' Então eu digo: 'Sim, mas também sou pró-aborto. Eu acho que isto me torna um democrata'."

Tom, que como democrata conservador foi eleito várias vezes como deputado estadual do Texas representando Fort Worth, onde foi criado, já trabalhou dos dois lados do espectro político.

Sua nomeação ao posto no Japão foi orquestrada, disseram funcionários do governo, por Richard Armitage, que recentemente deixou o cargo de vice-secretário de Estado. Armitage tem longas e profundas relações tanto com a Austrália quanto com o Japão.

Lá, o antigo sócio de beisebol de Bush administrará o relacionamento com o principal aliado asiático de Bush: Junichiro Koizumi, o primeiro-ministro japonês.

Os japoneses prezam embaixadores bem relacionados, e já contaram com membros ilustres do Senado como Walter Mondale, Thomas Foley e Howard Baker.

Mas a experiência pessoal de Tom com o Japão é limitada. "Eu estive lá na primavera passada", disse ele na Austrália, enquanto fazia as malas para voltar para Washington para sua audiência de confirmação no Senado, marcada para o próximo mês. "Os Yankees abriram a temporada lá. Havia 55 mil pessoas nas arquibancadas."

Ele se recusou a falar sobre o relacionamento do Japão com os Estados Unidos, citando uma regra não escrita de que indicados não devem dizer nada publicamente sobre seus cargos até serem confirmados pelo Senado. Mas ele estava disposto a discutir seu relacionamento com Bush, que teve início quando se tornaram sócios no Rangers.

É preciso navegar pela política para conseguir que um estádio seja construído em Arlington, Texas. "Nós conversamos sobre George cuidar disto, mas o pai dele era presidente na época e ele contava com proteção do Serviço Secreto, o que dificultava suas visitas à Prefeitura", ele lembrou.

Por quanto tempo Bob estará em posição de ler no ar as notícias sobre o Japão e o Extremo Oriente, entre outras histórias, ainda não se sabe. Leslie Moonves, o presidente da CBS, implorou no mês passado aos seus colegas da divisão de jornalismo para apresentarem um sucessor revolucionário para o "CBS Evening News with Dan Rather" -um que poderia contar com dois ou três âncoras- e tal processo tem consumido muito tempo, disseram vários executivos da emissora.

Então, como será chamado o programa de Bob?

"Nós veremos", disse Bob, antes de acrescentar: "Talvez, 'CBS Evening News with Acrescente seu Nome Aqui'". George El Khouri Andolfato

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