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20/02/2005

Seduzido pelo Rio e desvendando seus segredos

The New York Times
Seth Kugel
Às 17h em um domingo quente, no início de dezembro, algumas pessoas conversavam tomando chope nas varandas da Rua dos Oitis, uma estreita e graciosa rua de bares e restaurantes informais na Gávea, bairro abastado do Rio.

O sol, durante a versão brasileira de horário de verão, ainda tinha algumas horas para colorir a praça adjacente, Santos Dumont, onde alguns idosos espalhados pelos bancos e um jovem casal admiravam a fonte. Uma agitada avenida, do outro lado das árvores, parecia estar a um quilômetro de distância. Ocasionalmente, o silêncio era interrompido por um cachorrinho zeloso ou um táxi deixando um passageiro em um dos prédios vizinhos.

A calma era de se esperar: a maior parte das pessoas da cidade estava na praia, como é comum nos finais de semana. Às 19h30 começaram os sinais de que a festa estava começando. Em casais ou em grupos, as unidades avançadas da multidão do bronzeado e da alegria permanente começaram a chegar -estacionando seus Peugeots ou Golfs em ruas próximas, para serem vigiados por homens trabalhando por gorjetas, e entrando nos bares.

Às 22h, a Rua dos Oitis era uma happy hour ensandecida. Multidões transbordavam do Hipódromo Up, popular por sua pizza, incluindo a versão portuguesa que tem vários recheios. Mulheres com shorts de jeans e tops minúsculos sorriam para os homens que lhes compravam cerveja Skol de isopores na rua lotada. O burburinho sedutor do idioma português brasileiro era pontuado por gritos de amigos se saudando, enquanto forçavam a passagem pela multidão para dar beijos nas bochechas. Apesar do evidente deleite em se encontrarem, muitos provavelmente tinham compartilhado um pedaço de areia poucas horas antes.

Meu celular tocou; Carolina Barreto, uma das minhas amigas locais, estava me procurando no meio da multidão. Ela e seus amigos estavam a apenas 20 metros de distância, mas precisei de cinco minutos para alcançá-los.

Era tudo tipicamente, intangivelmente Rio de Janeiro -barrigas bronzeadas e sorrisos intoxicantes, celebração informal e trocas amigáveis, a democracia casual de um festival de rua americano combinada com a vibração carregada de uma boate de South Beach.

Esse não era precisamente um evento planejado: a Rua dos Oitis lota regularmente nas quintas e domingos, em uma espécie de acordo tácito. Os cariocas, que é como as pessoas do Rio se denominam, têm uma tendência mágica de saber exatamente onde será a próxima reunião social de alta densidade e baixa pressão.

Algumas vezes é em um pequeno clube, com música local enfeitiçada, algumas vezes em um shopping banhado em cerveja e cachaça, a bebida típica do Brasil, feita de cana-de-açúcar. Algumas vezes, também, pode ser em uma praia urbana icônica, com quiosques vendendo água de coco por US$ 0,50 (em torno de R$ 1,50).

Os americanos talvez achem que praia é um programa literalmente relaxado, mas nas areias da Barra da Tijuca ou de Ipanema, os encontros sociais superam os leitores de livros em 10 para um. Pequenos trechos da praia se tornam pontos lotados de festa. Tantas pessoas parecem se conhecer que fica difícil lembrar-se de mudar de posição para igualar o bronzeado -torna-se irrelevante diante de quantas vezes você se levanta com a chegada de mais uma amiga em outro biquíni impossivelmente minúsculo.

As reuniões de rua no Baixo Gávea aconteciam às segundas-feiras, em vez de quintas e domingos (elas se chamavam Segunda Sem Lei), até que reclamações de vizinhos bem organizados venceram e estragaram a festa. Infelizmente, em uma cidade com 10,8 milhões de habitantes, nem todos podem ser jovens, belos e disponíveis para brincar em qualquer noite da semana.

A maior parte dos turistas no Rio se concentra no Centro ou na Zona Sul da cidade, onde fica a Rua dos Oitis. Mas, nas 50 semanas do ano que não são dedicadas ao Carnaval ou ao Ano Novo, é fácil perder a festa. É preciso ter alguma orientação para saber onde os cariocas estarão exercitando sua alegria de viver inata.

Um conhecimento básico da língua ajuda, mas, mesmo sem isso, com alguma pesquisa e alguns contatos brasileiros que falem inglês, você pode encontrar a ação e ter um vislumbre da cena carioca.

Recebi minha orientação inicial em Nova York, de conhecidos e amigos de amigos. Muitos brasileiros, gregários por natureza, ficam felizes em orientar um viajante, especialmente se acham que poderão um dia vir para o Norte cobrar o favor. Os conselhos dos moradores também são confortantes, é claro, dada a reputação de crime do Rio. Apesar de o perigo não parecer amainar o espírito festivo de ninguém, a violência é muito temida e a ameaça é muito discutida entre os locais.

Quem viaja ao Rio frequentemente também pode ter algumas dicas. Antes e depois da alta estação (agora já é depois, já que o Carnaval acabou no dia 8 de fevereiro), a cidade atrai visitantes regulares seduzidos pelo charme dos brasileiros e a cultura de sua cidade mais orgulhosa. Os turistas enfrentam longos vôos, como a viagem de 12 horas de Nova York, sem nenhum vôo non-stop disponível.

Eles vêm por causa do ambiente físico: com suas dramáticas formações rochosas e praias agradáveis, de alguma forma jogadas em uma gigantesca cidade, é famosamente imbatível. Vêm também porque o Rio é uma cidade mundana; a praia de Ipanema, por exemplo, está a poucos blocos de uma rua sofisticada de compras com tudo, desde livrarias até bancos e lojas de biquínis.

A beleza da cidade está principalmente em seu cenário e seu povo, mas aqui e ali há gemas de arquitetura de estilo colonial e neo-clássico, e bairros charmosos como o morro de Santa Teresa, onde um bonde antigo dá acesso a restaurantes caseiros e interessantes e lojas de presentes encantadoras com trabalhos de artistas locais.

Há também charmes locais, como as lanchonetes em todas esquinas com sucos e sanduíches. Como não amar um país onde os cardápios listam tantas frutas que desafiam a tradução -graviola, fruta do conde, açaí- que as mangas parecem totalmente comuns?

Os amantes do Rio têm todos os tamanhos de bolso. Eric Linder, 25, de Los Angeles foi o único americano que encontrei no Baixo Gávea naquela noite. Ele tinha chegado com imagens de um paraíso hedonista, mas logo mudou: agora era simplesmente viciado na vida noturna.

"Os bares em Los Angeles fecham às 2h", disse ele. "Aqui eles permanecem abertos até o sol nascer. Mas o melhor para mim é que é tudo casual. Você não tem que se vestir todo para tomar umas cervejas". Ele decidiu ficar até acabar seu dinheiro, que até agora durou um mês.

Os mais viajados vão além -compram um imóvel. David Parker, 51, consultor de revistas de Nova York, comprou uma cobertura duplex em Copacabana em maio, depois de várias viagens de um mês ao Rio. A cidade, para ele, não é apenas um destino de férias, mas um segundo lar, possibilitado pelas teleconferências.

"Você faz um compromisso com o Rio", ele me disse. "Se você volta, é porque se apaixonou pelas pessoas, a cultura e o estilo de vida. Não é só porque é um lugar divertido de passar o final de semana."

Mesmo assim, se você quiser encontrar cariocas, venha equipado com espírito festivo.

Às 22h30 na noite de sexta-feira em dezembro, o Rosa Shopping, um shopping a céu aberto, em uma avenida de shoppings estilo americanos e restaurantes Outback, estava cheio, com cariocas vestidos com a marca popular de surf Osklen e as mulheres com jóias coloridas e saias e blusas de lojas como Farm, flertando e bancando bebidas. Um guitarrista tocava do lado de fora no Nó de Corda, onde a cachaça saía com mel -pronta para dar um onda de açúcar junto com o barato do álcool.

Parecia que toda a população jovem da Barra da Tijuca, esta área cheia de malls da cidade, estava concentrada nas calçadas de pedra, mas me disseram que o lugar estava vazio. Eu tinha chegado tarde demais; a multidão maior já tinha partido para os verdadeiros destinos da noite -boates e festas privadas.

Sky Lounge, possivelmente um destino final para alguns naquela noite, foi igualmente pouco impressionante à primeira vista, apenas um espaço confortável com clarabóias, decorado simplesmente com sofás baixos e cadeiras. Mas é um dos pontos mais quentes deste verão, citado com reverência (apesar de estranhamente pronunciado - esquilonge) por quase todos que encontrei.

Não é barato: as bebidas, como a infusão de maçã com canela, saem por absurdos US$ 5 (cerca de R$ 15), mas isso não afasta as multidões, especialmente nas noites de final de semana. Na maior parte das noites, a música é americana, livre de samba, o que coloca os gringos em pé de igualdade, por uma vez, com a multidão majoritariamente carioca.

Já no início da segunda-feira, metade da multidão estava beijando o namorado, namorada, amigo, ou possivelmente um estranho, fazendo lembrar uma passagem de "Malu de Bicicleta", um romance do autor brasileiro Marcelo Rubens Paiva: "Era aquela fase da festa em que beijar na boca era como pedir emprestado um isqueiro."

A atitude casual em relação ao beijo pode confundir os turistas. Muitos cariocas têm uma imagem negativa dos americanos, não pela guerra no Iraque (apesar de isso não ajudar), mas pela quantidade incrível dos turistas que vêm achando que vão encontrar uma orgia generalizada. (Muitos na praia de Copacabana e em seu alter-ego noturno, a boate Help, acabam com prostitutas que fingem não ser prostitutas.)

"É outra coisa triste sobre o turismo no Brasil, que os homens vêm para cá procurando isso. Tem tantas outras coisas. Somos realmente liberais e temos muito calor humano, então as pessoas confundem isso e tiram vantagem", disse Fabiana Doria, carioca de 24 anos, que conheci em Ipanema.

Horas antes do pico nas boates, os cariocas começam suas noitadas em algum botequim, bares charmosos com cardápios surpreendentemente completos, considerando que poucos clientes parecem pedir outra coisa além de caldinho de feijão e petiscos. Um dos mais populares é o Jobi, no bairro chique do Leblon, a sudoeste de Ipanema, onde os garçons devem fazer aulas de ioga para conseguir passar pelas mesas lotadas. Três mulheres de 20 e poucos anos que conheci na fila, em recente sexta-feira, me ajudaram a chegar a uma mesa no fundo para beber um chope, a bebida dos botequins. Elas pediram uma pizza calabresa espetacularmente puxa-puxa e uma sopa de feijão, e o garçom registrou o consumo de chope com descansos para copos jogados na mesa a cada rodada.

As mulheres, que se apresentaram como Elizabeth, Renata e Tatiana, logo encontraram outra amiga, Gisela. Como todos que conheci, receberam o estranho com sotaque cômico prontas a explicar os mistérios da vida no Rio, como por que os clientes do botequim são tão obcecados em decidir qual lugar tem o melhor chope, quando a maior parte deles vende marcas nacionais como Brahma. ("É a forma como eles tiram", disse Renata.)

Elas começaram uma animada discussão sobre os homens cariocas, com várias reclamações -a maior parte das quais, tive que informá-las, serviriam para os homens em geral. Quando parti, a contagem de descansos de chopes estava em 13.

O próximo passo da noite freqüentemente envolve música, e meus conselheiros pré-viagem me recomendaram um lugar imperdível: Comuna do Semente, um minúsculo clube aberto e fechado várias vezes, que agora opera uma organização sem fins lucrativos, com um ambiente boêmia e uma filosofia anti-globalização que abole a Coca-Cola.

O Semente fica na Lapa, bairro famoso por seus clubes noturnos e lar da mais agitada vida noturna da cidade. O espaço íntimo do Semente, perto da rua agitada, fica praticamente sob o aqueduto de arcos brancos, uma espécie de Pont du Gard brasileira do século 18, que atravessa e simboliza o bairro.

Na quinta-feira em que lá fui, Yamandu Costa se apresentou no violão e Gilberto Monteiro no acordeom. Eu nunca tinha ouvido falar deles, mas logo ficou claro que eu era o único. Uma emoção encheu a sala quando começaram sua intensa jam session de ritmos brasileiros e argentinos. Fãs acrobatas ouvindo do lado de fora se equilibravam nas janelas.

Apesar da energia musical palpável, eu estava feliz de estar no Rio na época certa do ano para um evento musical inteiramente diferente, mais popular: a preparação das escolas de samba para sua competição de carnaval.

Em estilo tipicamente carioca, o que era chamado de "ensaio" da Mangueira, uma das escolas mais populares, era na verdade uma série de festas exuberantes intermináveis, aberta a todos. Foi longa a corrida de táxi até a favela, um dos bairros pobres e cheios de crime do Rio que a classe média alta do Baixo Gávea e Rosa Shopping geralmente evita a todo custo. O Rio afluente estava lá com força, entretanto, naquela noite de sábado, pagando US$ 7,50 (cerca de R$ 20) para entrar.

Do lado de fora, os que não podiam ou não queriam pagar, riam e dançavam samba e funk brasileiro, um gênero urbano carregado em conteúdo sexual, em ruas festivas, lotadas e ligeiramente assustadoras. Mas a principal atração estava dentro da quadra, um salão extraordinariamente rosa, como seriam os ginásios escolares se a Barbie mandasse no mundo.

O lugar estava lotado -assim pensei, confundindo milhares de pessoas dando voltas como multidão. Em retrospecto, a capacidade de dar voltas deveria ter indicado o contrário. "Está vazio", disse minha amiga Carolina. "Espera dar meia-noite."

Uma banda de samba tocava alegremente de um balcão; as pessoas dançavam, bebiam e faziam carinhos com abandono, apesar da luz dura. Vários bares improvisados vendiam com rapidez cerveja e caipirinha (e sua prima de morango, caipifruta) enquanto a multidão continuava chegando.

Mulheres brasileiras com vestidos largos cor-de-rosa dançavam alegremente; turistas louros pulavam sem jeito. Alguns não dançavam, mas não havia divisões entre vasos de flores e entusiastas do samba. Todo mundo se misturava e pelo menos se balançava ao som da música com a mesma animação amigável.

Perto da meia-noite, mal dava para se mexer. Finalmente, todos concordamos que estava lotado. Deborah Weinberg

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