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21/02/2005

Após a cremação, existe todo um universo de possibilidades

The New York Times
Por Barry Rehfeld
As pessoas estão adotando novos tipos de rituais, cada vez mais criativos, para a sua própria morte; esta nova prática pode permitir às funerárias aumentarem o seu faturamento.

No próximo mês, um foguete deverá ser disparado a partir da base da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia. A bordo, estarão 125 "passageiros". O seu destino: permanecer em órbita em volta da Terra por muitos anos. Centenas de membros da família e de amigos desses "passageiros", oriundos do mundo inteiro, assistirão a esta viagem do seu ente querido - na verdade, de parte dos seus restos, que estarão cremados. Entre esses viajantes de um novo tipo estarão um produtor de filmes, um homem e uma mulher casados e três adolescentes.

Tanto na morte como na vida, as tradições estão desmoronando. Assim, muitos membros da geração do "baby boom" americano do pós-Guerra, conhecidos por serem pessoas de grande independência de pensamento, estão indo às compras para adquirir um pacote que inclui uma cremação e destinos finais de todo tipo para eles mesmos, ou as suas próprias cinzas, as dos seus parentes e até mesmo as dos seus bichos de estimação.

A incineração, um procedimento que é hoje escolhido por 28% dos americanos, andou ganhando terreno sobre o enterro tradicional ao longo das últimas três décadas. O seu baixo custo - menos de US$ 1.000 (R$ 2.560) segundo associações de consumidores - é citado com maior freqüência como sendo a razão principal desta mudança de comportamento. Mas a simplicidade está longe de ser a marca registrada de todas as cremações.

As cinzas chegam a ser inseridas dentro de bombas de fogos de artifício, ou ainda são incorporadas dentro da estrutura de concreto de recifes artificiais instalados no fundo do mar, colocadas dentro de balões aeróstatos, ou mesmo diluídas dentro da pintura utilizada para pintar retratos; elas podem também ser comprimidas no interior de diamantes sintéticos. E não é tudo: ocorre também que elas sejam depositadas dentro de buracos de campos de golfe ou embutidas em chamarizes para patos, dentro de cápsulas de balas ou depositadas dentro de bolas de basquete.

"O que é importante é que todos os procedimentos solicitados pelo cliente são executados", explica Charles Chafer, o diretor-executivo da Space Services Inc., a companhia com sede em Houston que promove as viagens de foguete. "Você obtém exatamente aquilo que deseja. As pessoas que nós atendemos sempre amaram o espaço".

Até hoje, o método de Chafer permanece exclusivo, por uma única razão muito simples: os vôos espaciais não seguem um calendário regular. Ele conseguiu organizar apenas quatro lançamentos desde 1997. O mais recente, em 2001, de um foguete que transportava as cinzas de 50 pessoas, tornou-se o primeiro a não completar a missão de girar em órbita em volta da Terra; o foguete espatifou-se no oceano Índico. Mesmo assim, as cinzas de 46 das 50 pessoas que estavam naquele vôo farão parte da viagem do próximo foguete - Chafer costuma reservar algumas cinzas para um segundo vôo, em caso de necessidade.

Esta viagem vem sendo organizada há três anos, e um eventual atraso não seria nenhuma surpresa. O empreendimento associa interesses públicos e privados. O foguete Falcon I, de US$ 6 milhões (R$ 15.372,6 milhões), é financiado por Elon Musk, um co-fundador da PayPal (empresa presente em vários países do mundo especializada em intermediar pagamentos efetuados em transações pela Internet). Este último firmou um contrato com o governo federal para que este transporte um dos seus satélites de telecomunicações para o espaço; a Space Services pagou para ter as cinzas incluídas entre os elementos embarcados no foguete.

A Space Services cobra US$ 5,300 (R$ 13.580) para inserir sete gramas de cinzas dentro de um pequeno contêiner do tamanho de um batom cosmético a ser instalado dentro do foguete (uma alternativa consiste em pagar US$ 995 (R$ 2.550) para ter um grama de cinzas inserido dentro de um contêiner menor).

Vôos anteriores transportaram os restos dos despojos de Timothy Leary e de Gene Roddenberry, o criador de "Star Trek".

Alice Beach, uma psicóloga escolar aposentada que mora em Palo Alto, na Califórnia, decidiu planejar uma despedida de um tipo totalmente diferente quando ela estava morrendo de câncer, dois anos atrás. Nos meses que precederam a sua morte, aos 83 anos, ele disse à sua sobrinha que ela gostaria "de se despedir no meio de uma grande explosão", por ocasião de um espetáculo de fogos de artifício, um método do qual ela tinha visto a publicidade na Internet. Depois da sua morte, a sua sobrinha, Laura Beach, pagou à companhia Angels Flight ("Vôo de Anjos"), com sede em Castaic, na Califórnia, US$ 3.500 (R$ 8.968) para produzir esse espetáculo.

Durante uma noite clara, em agosto passado, a sobrinha, junto com cerca de vinte amigos e parentes, viajou até a praia pública de Dockweiler, nas proximidades da pista de pouso do aeroporto internacional de Los Angeles. Bebendo champanhe e ouvindo, com os seus MP3-players iPod, Marlene Dietrich interpretando "Falling in Love Again", eles assistiram às explosões coloridas de mais de uma dúzia de fogos de artifício que continham os restos incinerados de Alice Beach, disparados acima do mar. "Nós gostamos muito deste espetáculo", comentou Laura Beach. "Alice havia realizado muitas coisas interessantes, e aquilo foi uma celebração da sua vida".

Joanie West, 66, de Crystal River, na Flórida, e o seu marido, Clyde, 72, dirigem uma empresa, a Eternal Ascent Society (Sociedade da Ascensão Eterna), que utiliza balões de alta altitude para dispersar os restos de pessoas falecidas. Ela lança balões biodegradáveis de pouco mais de 1 metro e meio de diâmetro, inchado de hélio, equipado para transportar cinzas de seres humanos ou de animais de estimação, ou ambos. Os balões flutuam a uma altitude de cerca de 9.000 metros, onde eles congelam e estouram, dispersando o seu conteúdo pelos ares.

O casal West começou recentemente a transformar a sua atividade numa franquia. "Por menos de US$ 20.000 (R$ 51.242), qualquer outra empresa pode adquirir a operação completa", explica Joanie West. Cinco franquias já foram abertas para prestar este serviço ao longo dos últimos dois anos.

A companhia Eternal Reefs (Recifes Eternos), com sede em Decatur, na Geórgia, mistura as cinzas com concreto para construir recifes artificiais, os quando são colocados no fundo do mar. Os preços vão de US$ 495 (R$ 1.269) para restos de bichos de estimação a US$ 4.995 (R$ 12.798) para restos humanos, sendo que o custo varia em função do tamanho dos blocos de concreto.

Neste ano, a companhia planeja modelar uma série de recifes e instalá-los em oito localizações em alto-mar, ao largo de vários Estados americanos, tais como Nova Jersey ou o Texas; ela também pretende aumentar o número de locais em alto-mar, para instalar mais recifes ao largo da costa do oceano Pacífico, no ano que vem. A companhia só instala os recifes em locais aprovados pelos governos federal, estadual e local.

Além disso, uma empresa de Chicago, a LifeGem, oferece comprimir uma pequena quantidade de carbono proveniente de despojos incinerados dentro de um diamante. Um anel dotado de um diamante amarelo pode custar de US$ 2.500 (R$ 6.435) para uma jóia de um quarto de quilate até US$ 14.000 (R$ 35.870) para uma jóia de pouco menos de um quilate.

Alguns consumidores que têm idéias tão pessoais quanto originais estão determinados a pagar o que for preciso para torná-las realidade. Mike Baty, um executivo da companhia Stewart Enterprises, com sede em Jefferson, na Louisiana, que possui funerárias, cemitérios e incineradores, conta que organizou recentemente uma cremação e uma cerimônia fúnebre de um gênero diferente. Esta envolvia um cavalo de corridas, as cinzas do seu proprietário e várias doses de uísque bourbon da marca Wild Turkey.

Segundo conta Mike Baty, membros e amigos da família se reuniram na estrebaria do proprietário falecido, onde uma refeição e bebidas foram servidas dentro de uma tenda. Depois disso, um dos seus cavalos puro-sangue foi tirado do seu estábulo e trazido por um dos empregados do haras. As cinzas do proprietário foram então colocadas sobre o dorso do animal. Em seguida, duas doses de uísque Wild Turkey - a sua bebida predileta, e também o nome do pássaro (peru selvagem) que ele gostava de caçar - foram derramadas sobre os restos do falecido por um outro empregado. Por fim, foi dada uma pancada forte ao cavalo que, deixando um rastro de poeira de cinzas, saiu cavalgando pelo pasto.

Na ocasião, Mike Baty forneceu a cremação assim como a tenda, as cadeiras, as mesas, e ainda ajudou a preparar a refeição assim como um livro de recordações com fotos. O custo total deste "ritual" não chegou a se equiparar, em dólares, ao preço de uma cerimônia fúnebre tradicional, mas o faturamento para a companhia Stewart - que Baty avalia entre US$ 3.000 (R$ 7.687) e US$ 4.000 (R$ 10.249) - foi mais elevado que o montante que a companhia teria recebido apenas para uma cremação.

Assim, tais opções inovadoras poderiam ajudar a melhorar a situação financeira da indústria funerária como um todo.

"As cremações são menos lucrativas para a indústria do que as cerimônias fúnebres tradicionais", as quais custam, em média, US$ 6.500 (R$ 16.654), excluindo-se os custos de um túmulo no cemitério, informa Stephen Prothero, um professor da universidade de Boston que é o autor de um livro sobre a cremação, "Purified by Fire" ("Purificado pelo Fogo"). "Mas as empresas estão descobrindo que elas podem conseguir algum dinheiro com elas, inventando novos procedimentos, e elas estão se adaptando", acrescenta Prothero.

No parque comemorativo de Catawba, há um sítio de propriedade da companhia Stewart, situado perto de Hickory, na Carolina do Norte, que se encontra à proximidade de um percurso de golfe onde um torneio da liga PGA de golfe profissional costuma ser organizado anualmente. Ali, um colega de Mike Baty, Chuck Gallagher, construiu no verão passado um percurso de golfe com buracos que vão conter cinzas humanas, quando o percurso de competição será inaugurado nesta primavera.

O gramado foi construído por cima de dois grandes ossuários, ou seja, de contêineres que pode conter as cinzas de muitas pessoas. Assim, os visitantes poderão depositar os restos dos seus entes queridos dentro de um dos dois buracos do percurso, os quais são conectados aos ossuários.

Além disso, os usuários podem jogar as suas partidas sem precisar se preocupar de perder a bola dentro do buraco, uma vez que este é formado por uma espécie de copo furado, cujo orifício é pequeno demais para deixar a bola passar.

Em volta do gramado estão sendo instalados lotes individuais onde poderão ser depositadas cinzas ou construídos "columbariums" para famílias (pequenas estruturas ou muros dotados de encaixes dentro dos quais são depositadas as cinzas). No caso, esses "columbariums" terão a forma de sacos de golfe e serão de bronze. Os preços para esses lotes são mais altos nas fileiras mais próximas do gramado, ou "green".

Barry Laney, 54, um vendedor de computadores e um jogador de golfe de bom nível, que reivindica um handicap de 8, pôde ver esse gramado por ocasião de um enterro, e ele já comprou já comprou o seu lugar na fileira mais próxima do percurso.

"Eu apenas achei que era uma boa idéia", conta. "Tenho dois filhos que já são adultos, e eles jogam golfe também, então, imaginei que eles poderiam treinar e jogar quando eles estivessem visitando o local. Eles poderão fazer alguns "putts" (acertar alguns buracos) enquanto estarão falando comigo. Contei isso para os meus amigos. Eles de mostraram interessados. Espero que eles também se animem a comprar o seu lote. Eu não quero ficar sozinho". Jean-Yves de Neufville

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