UOL Notícias Internacional
 

22/02/2005

Questões sociais acirram a disputa pelo Oscar

The New York Times
Michael Janofsky

Em Washington
Ao entrar no cinema Avalon, na última quarta-feira (16/02) à noite, o público passava pelo balcão de pipoca e por uma mesa com preservativos e panfletos. Mas isso não era incomum para uma apresentação privada de "Vera Drake", filme britânico do diretor Mike Leigh, sobre uma londrina, em 1959, que rompe a lei fazendo abortos.

Grupos que promovem o direito ao aborto, como o Planned Parenthood Federation of America, que patrocinou a apresentação, adotaram o filme como advertência às mulheres, caso a Suprema Corte derrube a decisão judicial de Roe contra Wade, que legalizou o aborto nos EUA.

"Temos que assegurar que, em nossa geração, o relógio não volte para trás. Este é um filme para acordar, despertar a consciência para a dura realidade diante de nós", disse uma líder local do Planned Parenthood, Jatrice M. Gaiter, ao apresentar o filme.

O departamento de marketing da Fine Line Features, que distribui "Vera Drake" nos EUA, ficou satisfeito com a atenção recebida pelo filme, indicado para três categorias do Oscar -apesar de Leigh desconfiar de quem acha seu filme polêmico. Em uma entrevista por telefone, o diretor disse que "Vera Drake" não tinha a pretensão de ser um "filme de aborto", mas um que faça "pensar na questão moral do aborto".

Em uma disputa bastante acirrada, várias empresas de Hollywood viram-se em uma corda bamba, ao buscarem atenção para filmes intimamente associados a questões sociais difíceis sem alienar as partes do debate ou explorar o sofrimento humano para conquistar o prêmio.

As campanhas pareceram ganhar intensidade nas últimas semanas, enquanto publicitários, produtores e artistas associados aos filmes nomeados para a estatueta lutaram por votos entre os aproximadamente 6.000 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Sob as regras da academia, é proibido solicitar diretamente o apoio dos votantes, cujas cédulas devem ser entregues até esta terça-feira (22). Mas de acordo com Ric Robertson, executivo da academia, "há alguns anos campanhas inteligentes vêm encontrando formas de atingir seu objetivo, com um nível impressionantemente alto".

Este ano viu o lançamento do documentário contra Bush, de Michael Moore (Fahrenheit 9/11), que não recebeu nenhuma nomeação para o Oscar, e a "Paixão de Cristo" de Mel Gisbson, que foi nomeado para cinematografia, música e maquiagem. A rica mistura de filme e política parece ter levado a promoção dos filmes a lugares inusitados.

Don Cheadle, por exemplo, indicado para Oscar de melhor ator por seu papel em "Hotel Ruanda" ficou tão perturbado com a matança de 1994, parte central do filme que viajou ao Sudão, no mês passado, com uma delegação do Congresso e com o homem retratado por ele no filme, Paul Rusesabagina. Eles visitaram uma região onde mais de 70.000 pessoas foram mortas na guerra civil.

Quando o programa "Nightline", da ABC News, passou recentemente uma reportagem sobre o Sudão, Cheadle foi o narrador, para deleite do setor de marketing da distribuidora do filme, que ajudou a fechar a colaboração.

"Queríamos aproveitar todas as possibilidades que tivéssemos para chamar a atenção ao filme", disse Eric Kops, vice-presidente executivo de publicidade da MGM e United Artists.

"Mar Adentro", filme espanhol dirigido por Alejandro Amenabar e indicado para a categoria de melhor filme estrangeiro, e "Menina de Ouro", de Clint Eastwood, indicado para melhor filme, alimentaram debates sobre o suicídio assistido.

Eastwood negou acusações de que seu filme, distribuído pela Warner Brothers, glorifica esse tipo de ato emocionalmente carregado. Já a distribuidora americana de "Mar Adentro", história verdadeira de um tetraplégico que busca ajuda para morrer, pensou em fazer eventos promocionais com a mulher que admitiu tê-lo ajudado. Ramona Maneiro disse aos repórteres, na Espanha, que adiou sua confissão até que expirasse a possibilidade de processo judicial.

"Quando ela admitiu, pensamos em tirar vantagem", disse Marian Koltai-Levine, vice-presidente executiva de marketing da Fine Line. Mas a empresa hesitou, porque Maneiro fala apenas espanhol. "Queríamos ter certeza de usar a oportunidade certa", acrescentou.

Planejamento familiar

Talvez nenhum relacionamento entre um filme e grupos de interesse foi mais proveitoso para ambos quanto "Vera Drake", da Fine Line. Leigh foi nomeado por direção e roteiro e Imelda Staunton como atriz principal. O filme foi lançado nos EUA em outubro, para coincidir com as últimas semanas da campanha presidencial, de acordo com Leigh.

A Fine Line desenvolveu uma campanha de marketing que incluiu mais de 100 apresentações privadas, a maior parte delas para grupos de mulheres, disse Koltai-Levine.

O grupo Planned Parenthood usou uma sessão do filme, no mês passado em Los Angeles, como oportunidade para lançar um "plano de defesa da escolha" e combate ao que o grupo descreve como um "ataque sem precedentes" do presidente George W. Bush e de outros, "para implementar um programa contra a escolha".

Karen Pearl, presidente nacional interina da Planned Parenthood, disse que o filme ajudou a recrutar membros, levantar verbas e "lembrar-nos do que passa uma mulher para lidar com uma gravidez não planejada".

Grupos contra o aborto observaram a mesma coisa. O reverendo Flip Benham, diretor nacional da Operação Resgate, um grupo que faz campanha contra o aborto, o homossexualismo e o suicídio assistido, disse que sua organização "provavelmente" vai falar contra "Vera Drake". "Se o Planned Parenthood está defendendo o filme, vai nos servir de instrumento", disse Benham.

Leigh não sabe se o interesse gerado pelos grupos ajudará "Vera Drake" a ganhar um Oscar. Mas "muitas pessoas tiveram experiências ligadas ao aborto", disse ele. "Isso, por si só, é responsável por grande parte da reação ao filme." Esse é o caso de "Vera Drake", "Mar Adentro" e "Hotel Rwanda" Deborah Weinberg

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