UOL Notícias Internacional
 

22/02/2005

Veneza se volta ao futuro para salvar o passado

The New York Times
Elisabeth Rosenthal

Em Veneza
Quando Jane de Mosto deixa o táxi aquático e sobe a escada do antigo palazzo da sua família, seu olhar está velado pelo pesar. A outrora gloriosa Casa da Mosto é agora pouco mais que uma ruína encharcada de uma construção. As águas cada vez mais salgadas, e cujo nível sobe incessantemente, de Veneza estão à beira da porta e devoram as paredes.

Pierluigi Cipelli/The New York Times

Jane da Mosto atravessa o Grand Canal, onde fica o palácio de sua família em Veneza
"Um dia ela simplesmente despencará no canal", afirma da Mosto, pesquisadora do Corila, um consórcio de grupos que estudam a ecologia de Veneza na esperança de salvar a cidade.

"Não me agrada pensar em como será Veneza daqui a 100 anos. É algo triste e devastador. Talvez seja construída uma barreira que a separe do mar, transformando-a em um lago estanque. Ou poderá se tornar uma cidade subaquática, onde os turistas apreciem a paisagem em barcos com fundos de vidro".

A lagoa de Veneza é um dos ecossistemas mais delicados e instáveis do mundo, um lugar único onde a salvação de um habitat natural moribundo é fundamental para a preservação da cultura e da história: há centenas de obras de arte e estruturas arquitetônicas de preço incalculável na área, e tudo se perderá caso a lagoa sucumbir.

E isso gerou discussões acaloradas aqui sobre planos radicais em andamento para salvá-la --planos que exploram os limites do conhecimento científico humano e da evolução da engenharia.

No centro da polêmica está a tensão entre aqueles que acreditam no poder da tecnologia humana para domar as forças da natureza, e aqueles que temem que os mestres-engenheiros italianos possam apenas complicar os problemas de Veneza.

A peça central do ambicioso plano do governo italiano --denominado Projeto Moisés, em uma referência ao personagem bíblico que teria separado as águas do Mar Vermelho-- é uma série de 78 enormes represas submersas que ficariam assentadas no fundo do Mar Adriático. Barreiras maciças que subiriam mecanicamente acima da superfície quando fosse necessário bloquear as marés extraordinariamente altas. Tais marés, que atualmente costumam ocorrer umas poucas vezes por ano, causam em Veneza uma devastação que é rápida e, às vezes, desastrosa, como foi a inundação de 1966.

Um projeto fundamental do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, as barreiras de alta tecnologia contam com um peso político equiparável às suas dimensões físicas --cada uma delas pesa 300 toneladas-- e ao preço total das obras, de US$ 4,5 bilhões.

"Tais barreiras se constituem em uma grande intervenção ambiental em uma escala nunca antes vista", diz Alberto Scotti, o principal engenheiro de projetos, que está confiante e tomado de um senso de pragmatismo em relação ao plano controverso que vem gerando tantas reclamações.

Os críticos temem que as barreiras maciças posam perturbar ainda mais o delicado equilíbrio natural. Eles observam que as barreiras nada fazem para atenuar a deterioração diária --um resultado de forças mais sutis na lagoa moribunda, algo que exige soluções menos espalhafatosas.

O terreno que afunda vagarosamente e o nível da água que sobe pouco a pouco fizeram com que as paredes de certas casas ficassem permanentemente encobertas pelo mar. O teor crescente de sal nos canais ameaça as fundações da cidade. A morte da vida aquática no fundo da lagoa transformou aqueles que eram canais variados em condutores de rápidas correntes de água que invadem a cidade todas às vezes em que ocorre uma tempestade marinha.

"No momento, todos estão concentrados na barreira --o que é muito assustador, já que se trata de uma solução não testada e de pouquíssima flexibilidade", reclama da Mosto.

"Muitos cientistas acham que as represas darão conta do recado, e muitos pensam que não", acrescenta ela. "Não sou capaz de dizer qual seria a solução, mas é preciso também estabilizar o ambiente. E o que sei é que a lagoa é extremamente complexa, e que quanto mais recorrermos a soluções diversas e reversíveis, melhor".

Armado de incontáveis modelos de computador e estudos de viabilidade, Scotti se coloca atrás do seu desenho. "Checamos tudo em termos de modelos", explica com um traço de exasperação. "Temos modelos da morfologia da lagoa. Somos capazes de reproduzir o vento, o clima e as marés. E os nossos modelos sugerem que esse projeto funcionará e que não terá impacto negativo sobre o meio ambiente".

Remediar os já existentes problemas de Veneza já é uma obsessão --e um trabalho intensivo-- para autoridades municipais e moradores.

Recentemente, na Squero di San Trovaso --centro das famosas fábricas de gôndolas-- os canais foram drenados para a realização de reformas. Dezenas de funcionários da Insula, uma parceria da iniciativa privada com o poder público que zela pelos canais, estão consertando cada centímetro de paredes, remendando áreas danificadas e injetando espuma nas estruturas, através de mangueiras de um verde brilhante, a fim de reforçá-las.

Veneza precisa ser preservada como um barco. É preciso retirá-la da água para consertá-la", explica Giorgio Barbarini, piloto de um táxi aquático. "Veneza está se desfazendo porque é difícil preservar toda uma cidade desse tipo".

Pierluigi Cipelli/The New York Times

Trabalhadores consertam o canal de Squero di San Trovaso, que foi esvaziado para as obras
Sob um ponto de vista evolucionário, a decadência de Veneza talvez seja inevitável. Lagoas, com os seus pântanos e águas turvas, são ecossistemas costeiros transitórios, que tendem a se transformar em lagos de água doce ou a se agregarem ao mar adjacente com o passar do tempo. Esse processo é acelerado quando o homem coexiste com este fragmento instável de natureza --como tem feito por bem mais de mil anos.

Os venezianos há muito manipulam a água a fim de protegerem a sua cidade, tendo desviado rios já no século 14.

Mas as rápidas mudanças no ecossistema ocorreram com a modernização no século 20, criando a crise de hoje. A partir dos anos 30, uma zona industrial e outras áreas foram criadas por meio do bombeamento de água subterrânea do pântano, o que acelerou seriamente o processo de afundamento. O tráfego de navios e a poluição que se seguiram erodiram várias dos dispositivos fundamentais de defesa da lagoa que durante séculos ajudaram a manter o mar sob controle.

Por exemplo, o fundo da lagoa, antigamente caracterizado por uma textura vegetal rugosa, está praticamente liso e desprovido de vegetação, o que permite que as águas movimentadas por tempestades marinhas penetrem na cidade.

O resultado é que o nível médio da água em Veneza está 23 centímetros mais elevado do que há um século, e talvez um metro mais alto do que 250 anos atrás, segundo os pesquisadores do Corila. A água que antigamente era salobra agora está tão salgada quanto o mar.

Da Mosto diz que o aquecimento global ainda não contribuiu substancialmente para a elevação do nível da água aqui. As previsões sobre o possível efeito do fenômeno no Mar Adriático variam bastante.

Alguns cientistas acham que a elevação provocada pelo aquecimento global será de apenas oito centímetros, enquanto que outros sugerem que o aumento pode ser de quase um metro.

A água já invade rotineiramente praças e igrejas. Ela penetra nas casas pelas tubulações de esgoto. E corrói paredes de cassa que não foram feitas para ficarem submersas. Embora as fundações dos palazzos de Veneza tenham sido construídas com materiais resistentes à água, as paredes são de tijolos porosos.

"Muito dinheiro foi investido no conserto do reboco e na reconstrução das paredes, tijolo por tijolo", conta da Mosto. "Mas em alguns anos tudo estará despencando".

Frente a essa situação, os especialistas do Projeto Moisés muitas vezes se mostram perplexos frente à resistência encontrada na cidade que se comprometeram a salvar. Foram anos de negociações com autoridades municipais e grupos ambientalistas antes que as construções pudessem ser iniciadas em maio de 2003.

Scotti observa que o projeto envolveu não só as polêmicas barragens, que estarão prontas por volta de 2010, mas também planos para o reforço de paredes para protegê-las de inundações menos intensas, e trabalhos para a recuperação de pântanos.

Os críticos alegam que essas medidas não passam de paliativos mal desenvolvidos.

"A população daqui simplesmente aceita as inundações como parte da vida", diz Scotti. "Mas viver nessa condição os coloca em grande desvantagem em relação ao povo de Milão e Roma. Isso significará para os moradores locais uma mudança de vida".

Os desafios de engenharia enfrentados por Scotti são enormes, tanto no que diz respeito à força das marés quanto à exigência do governo para que as barragens (que estão bem afastadas, em pleno mar) sejam invisíveis quando não estejam em uso, uma decisão que, segundo muita gente, é desnecessária, e que acrescentou milhões de dólares ao custo do projeto.

A construção está nas suas fases iniciais, e as equipes constroem agora quebra-mares para atenuar as marés. Com o tempo, milhares de hastes de aço serão afixadas no fundo da lagoa. Para sustentar as barragens, blocos de cimentos de 60 metros de comprimento, 40 metros de largura e 11 metros de altura serão colocados sobre o leito marinho.

É exatamente a dimensão do projeto que aterroriza os céticos, que temem que uma obra de tal magnitude prejudique ainda mais a lagoa. Embora a lagoa de Veneza tenha sido exaustivamente estudada por cientistas, grande parte do trabalho foi feita em nível local sem coordenação com outros órgãos ou apresentação em periódicos científicos, diz da Mosto. Como resultado, o complicado ecossistema continua pouco compreendido.

Mas os projetistas garantem que vão construir vagarosamente e com cuidado extraordinário para criarem um novo local seguro para os venezianos - ainda que tal local não se harmonize com o formato natural da lagoa.

"Vejam bem, não há mais nenhum meio-ambiente natural a ser recuperado aqui em Veneza", diz Scotti. "O local foi modificado pelo homem durante centenas de anos".

'O importante é criar uma lagoa com várias possibilidades de vida", acrescenta. "O formato não será natural. As plantas não serão as mesmas. Haverá material artificial. Não existem livros que ensinem como se construir uma lagoa". Processo de submersão da cidade pode ser natural e inevitável Danilo Fonseca

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