UOL Notícias Internacional
 

23/02/2005

Bush mostra preocupação com plano da UE de suspender embargo de armas à China

The New York Times
Elisabeth Bumiller

Em Bruxelas, Bélgica
Uma forte disputa com a Europa ganhou destaque nesta terça-feira (22/02), quando o presidente Bush disse que há "profunda preocupação" nos Estados Unidos de que a suspensão do embargo de armas imposto pela União Européia contra a China mudaria o equilíbrio das relações entre China e Taiwan.

A questão é um dos poucos desacordos a vir à tona durante a viagem de Bush para reparar as relações transatlânticas. Ele e os líderes europeus têm se esforçado para amenizar o mal-estar resultante da invasão ao Iraque, e minimizaram o conflito que surgiu nos últimos meses devido ao embargo às armas. Ao mesmo tempo que expressava sua preocupação na terça-feira, Bush insistia em estar disposto a ouvir as posições européias sobre o assunto.

Em seu argumento público mais explícito, o presidente disse que o fim da proibição permitiria a transferência de tecnologia militar crítica para os chineses, o que "mudaria o equilíbrio das relações entre a China e Taiwan, e isto é motivo de preocupação".

O governo também teme que tal tecnologia, especialmente sistemas avançados de radar e comunicações, poderiam ser transferidos para outros países.

Bush falou em uma coletiva de imprensa conjunta com o secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, após um encontro de cúpula dos líderes da aliança em que concordaram em ajudar a treinar oficiais de segurança para o Iraque.

Para a Europa, o fim do embargo, que foi imposto em 1989 após a repressão da China aos manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen, abriria um novo mercado lucrativo para as vendas de armas. Mas os líderes também insistiram que a permissão da venda seria uma forma importante de forjar laços com a China.

O presidente da França, Jacques Chirac, disse na terça-feira que a Europa permanece firme em seu desejo de colocar um fim à proibição. Ele disse que "pretendemos remover os últimos obstáculos em nossas relações" com a China. Mas ele também disse que o embargo só será suspenso "sob condições que a Europa e os Estados Unidos definirão juntos".

Autoridades de ambos os lados disseram que por trás das palavras diplomáticas se encontra uma profunda divisão filosófica, e que os americanos estavam adotando uma linha-dura contra a disposição européia de envolver os chineses em negociações e promessas.

É quase certo que a União Européia suspenderá o embargo de 15 anos até junho, mas ela tem tentado aplacar os temores americanos dizendo que limitará a transferência de tecnologia avançada aos chineses desenvolvendo um novo e rígido "código de conduta" para exportação de armas.

Bush disse estar interessado em avaliar tal código de conduta, e chegou até mesmo a dizer em seu segundo dia da viagem de quatro dias a Bélgica, Alemanha e Eslovênia que estava em uma "viagem para escutar". Mas ele expressou ceticismo quanto à capacidade dos europeus de apresentar uma proposta para coibir a transferência de tecnologia aos chineses capaz de agradar aos Estados Unidos.

"Se conseguirão ou não, nós veremos", disse ele.

Um alto funcionário do governo Bush, que informou os repórteres na noite de segunda-feira, foi ainda mais claro sobre a oposição do governo. "Nós continuamos preocupados", disse o funcionário. "Eu não devo deixar vocês de forma alguma com a impressão de que mudamos nossa opinião. Nós apenas ouvimos os europeus. Eu espero que um diálogo -um diálogo amistoso e sério sobre estas questões- prossiga."

As autoridades do governo Bush temem a possibilidade da suspensão do embargo permitir que os europeus vendam tecnologia avançada para os chineses, e que desta forma estes possam passar para a "próxima geração" de capacidade de guerra, desenvolvendo o tipo de sistemas militares sofisticados que os Estados Unidos têm usado no Afeganistão e no Iraque.

Tais sistemas poderiam incluir sistemas avançados de radar e comunicações aerotransportados, possivelmente semelhantes aos da aeronave americana E-8C Joint Stars, que ajuda a dar aos combatentes a capacidade de redirecionar rapidamente as tropas e os ataques aéreos no campo de batalha.

"O governo não está preocupado a esta altura que os europeus possam começar a vender caças, mísseis e tanques aos chineses", disse Robin Niblett, diretor do programa europeu do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

Em sua coletiva de imprensa, Bush também disse aos europeus que quando estabelecerem seu novo código de conduta, eles precisarão "vendê-lo ao Congresso dos Estados Unidos".

O presidente, que mencionou os problemas com o Congresso durante um pequeno jantar que deu a Chirac, na noite de segunda-feira, se referia à crescente preocupação tanto de republicanos quanto democratas no Congresso sobre os planos da Europa de suspender o embargo.

O senador Richard G. Lugar, republicano de Indiana e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, disse em uma entrevista ao "Financial Times", na sexta-feira, que apoiaria a imposição de restrições à venda de tecnologia militar avançada americana para a Europa a menos que haja fortes garantias da Europa de que tal tecnologia não será desviada para a China com o fim do embargo. Ele também disse que se a suspensão do embargo resultar em tal desvio, ele apoiará restrições às vendas de tecnologia americana de armas para a Europa.

No início deste mês, a Câmara dos Deputados aprovou uma resolução, por 411 votos a favor a 3, que condena os planos da União Européia.

Andy Fisher, o porta-voz de Lugar, disse em uma entrevista por telefone, na terça-feira, após os comentários feitos por Bush, que Lugar está mais preocupado com a transferência de tecnologia militar avançada da China para um "elemento inamistoso", que poderia usá-la contra os Estados Unidos.

O relatório anual do Departamento de Defesa sobre as forças armadas da China, do ano passado, levantou outro efeito possível da suspensão das vendas de armas européias. Ele disse que apesar de que Rússia provavelmente continuará sendo a principal fornecedora de armas avançadas para a China, com a Europa atuando como "uma fornecedora emergente".

As novas vendas também "ampliarão o poder de negociação da China nas compras", tornando disponíveis sistemas de armas mais avançados e tecnologia. Os líderes europeus dizem que as mudanças que estão fazendo em seu código de conduta para exportação de armas, adotado pela primeira vez em 1998, limitará substancialmente as vendas de tecnologia para a China.

Entre as mudanças propostas está o compartilhamento de informação, o que significa que a União Européia informaria aos Estados Unidos sobre quaisquer vendas de armas para a China que estariam proibidas sob o embargo. Tal informação teoricamente permitiria aos Estados Unidos rastrear as vendas e potencialmente impedir que as armas caíam em mãos erradas.

O governo Bush respondeu que deseja maiores detalhes das autoridades européias sobre como o código de conduta reformulado funcionaria na prática.

"A União Européia fez certas declarações, certas afirmações sobre o efeito hipotético da suspensão do embargo de armas -isto é, nenhum aumento qualitativo, nenhum aumento quantitativo", disse o alto funcionário do governo no briefing aos repórteres. "Assim, nós gostaríamos de saber o que isto significa, como será mantido, como será aplicado segundo a situação do mundo real."

O governo Bush também é contra a suspensão do embargo porque, em sua opinião, os chineses ainda estão envolvidos em violações de direitos humanos, como a prisão de dissidentes, o que provocou inicialmente o embargo.

"Os motivos para a imposição do embargo de armas -isto é, Tiananmen e as prisões- não mudaram", disse o funcionário do governo. "As pessoas presas ainda estão na prisão, a situação dos direitos humanos não está significativamente melhor."

Mais tarde, Bush se reuniu com líderes europeus no quartel-general da União Européia, e em uma coletiva de imprensa posterior reiterou que os Estados Unidos não estão à beira de uma guerra com o Irã. Mas ele não descartou, como não fez no passado, a ação militar.

"Esta idéia de que os Estados Unidos estão se preparando para atacar o Irã é simplesmente ridícula", disse ele. E então acrescentou, provocando risadas na sala: "E tendo dito isto, todas as opções estão na mesa".

Bush tinha um jantar de trabalho com líderes europeus, e depois seguiria na quarta-feira para encontros com o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, em Mainz. Na quinta-feira, em Bratislava, Eslováquia, ele se encontrará com o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin. Americanos temem fim do equilíbrio de forças do país com Taiwan George El Khouri Andolfato

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