UOL Notícias Internacional
 

23/02/2005

Emigrantes mexicanos usam remessas de dólares para ganhar força política

The New York Times
Ginger Thompson

Em Valparaíso, México
Menos de dois meses depois de eleito, o prefeito Alberto Ruiz Flores subiu em seu caminhão e partiu em uma viagem de 26 horas pela fronteira do sul da Califórnia, levando uma lista de projetos públicos para um churrasco em um quintal em Oxnard.

O motivo? Pedir dinheiro para cerca de 400.000 mexicanos que abandonam seu país a cada ano para trabalhar nos EUA, incluindo metade de sua cidade no México Central. Os que deixaram Valparaíso fazem remessas de cerca de US$ 100.000 (em torno de R$ 250.000) por dia; em um mês, a quantia se equipara ao que a prefeitura gasta no ano.

Uma semana depois, Ruiz estava em um restaurante em Aurora, Illinois, para uma reunião com um operário e um pintor de cartazes, mexicanos que arrecadaram centenas de milhares de dólares para Valparaíso. Na semana seguinte, ele convidou líderes dos imigrantes em Dallas e Las Vegas a participarem da coroação anual da rainha de beleza.

"Considero-me o prefeito de Valparaíso e daqueles que, como vocês, tiveram que deixar a cidade em busca de uma vida decente", diz Ruiz no início de cada encontro. "Vocês mostraram com sua generosidade que ainda fazem parte do México. Sem vocês, quem sabe onde estaríamos."

Para Ruiz, a política não pára na fronteira dos EUA. O mesmo acontece em todo o México, Caribe e América Latina, onde cada vez mais políticos como ele respondem por eleitorados compostos de pessoas em casa, que votam, e pessoas no exterior, que abrem as carteiras.

Hoje, mais do que nunca, as remessas enviadas pelos imigrantes legais e ilegais estão se traduzindo em força política. Suas comunidades nos EUA estão mais organizadas e ativas e tornaram-se forças sociais e políticas importantes demais para serem ignoradas.

O fenômeno fez de Washington o principal campo de batalha para o lobby entre os salvadorenhos para que apoiassem o Acordo de Comércio Livre da América Central; Nova York tornou-se um Estado crucial nas eleições da República Dominicana, que permite que seus cidadãos votem dos EUA; e Chicago é uma parada obrigatória para políticos mexicanos em campanha.

Nesta terça-feira (22/2), na Cidade do México, o poder do emigrante foi mais consolidado quando a Câmara dos Deputados aprovou legislação permitindo que votem nas eleições mexicanas, mesmo nos EUA. Assim, quem tiver cidadania americana votará nos dois países.

A medida abre caminho para que 10 milhões de mexicanos votem nas eleições presidenciais no próximo ano, em uma onda que pode ter impacto significativo na inexperiente democracia do país. Outros países como Venezuela, Colômbia, Brasil e Honduras também permitem que seus emigrantes votem.

Para o México, a logística da enorme medida continua obscura; os congressistas estimaram que as urnas nos EUA custarão, no mínimo, US$ 50 milhões (em torno de R$ 125 milhões). A medida, que foi aprovada por grande maioria e deve passar facilmente no Senado, também provê verbas para os partidos políticos mexicanos fazerem campanha nos EUA. No entanto, eles ficam proibidos de receber doações no exterior.

A influência econômica dos emigrantes já é indiscutível. O Banco Inter-Americano de Desenvolvimento estima que eles enviaram mais de US$ 45 bilhões (aproximadamente R$ 112 bilhões) para a América Latina e o Caribe no ano passado, excedendo o investimento estrangeiro e a assistência oficial ao desenvolvimento pelo terceiro ano consecutivo.

O México --onde pessoas competem com o petróleo como maior produto de exportação-- recebeu cerca de US$ 17 bilhões (em torno de R$ 43 bilhões) em remessas, quase o dobro da quantia de quatro anos atrás.

Oscar Chacon, do grupo de advocacia para o imigrante, Enlaces America, chama o fenômeno de uma revolução silenciosa, por uma rede de mais de 500 organizações familiares que estão fazendo o que mais de uma década de livre comércio e investimento estrangeiro não conseguiram -estreitar a diferença entre ricos e pobres.

Hoje, esses grupos estão usando o poder que vem com suas remessas para fazer exigências ainda maiores aos políticos em todos os níveis. Seus líderes reuniram-se com assessores do presidente Bush para promover a reforma da imigração e com os presidentes da América Latina para exigir de tudo, desde o poder de votar no exterior e concorrer para cargos em sua terra natal até bolsas escolares e seguros de saúde.

"Antes, a voz dos emigrantes era fraca", disse Efrain Jimenez, ex-mecânico de automóveis que hoje dirige uma infra-estrutura de vários milhões de dólares em Zacatecas, financiada por imigrantes na Califórnia. "Tínhamos o dinheiro, mas não tínhamos organizações. Agora, temos centenas delas", disse ele. "Nenhum presidente pode nos ignorar."

Até agora, os imigrantes perderam mais batalhas políticas do que ganharam, especialmente nos EUA, onde o projeto de reforma de imigração de Bush que envolvia um programa de trabalho temporário foi suspenso. Cerca de 3 milhões de trabalhadores mexicanos teriam sua estadia nos EUA legalizada por prazo determinado.

Mesmo assim, disse Chacon, os emigrantes estão levantando dinheiro para desenvolver obras públicas no México. Eles formaram comitês de ação política em apoio aos candidatos e, em números pequenos, mas crescentes, estão voltando para casa para concorrer a cargos públicos.

Alguns são prefeitos, outros são membros dos conselhos da prefeitura e vereadores. Levam com eles novas idéias e perspectivas, tiradas de sua estada nos EUA, e exigências de ética contábil em governos há muito tidos como corruptos ou ineficazes.

Assim como o México, a maior parte dos países proíbe os partidos políticos de receberem doações de campanha no exterior. No entanto, nos últimos anos, os imigrantes nos EUA formaram comitês de ação para patrocinar viagens de campanha de candidatos mexicanos para os EUA. E enviam delegações de volta para casa, para ajudar os candidatos.

Poucos lugares compreendem essas mudanças melhor do que Zacatecas, Estado central mexicano onde Ruiz é prefeito. Depois de mais de um século de emigração, Zacatecas está inextricavelmente ligado aos EUA. Hoje, mais de metade das pessoas do Estado moram no norte da fronteira, a maior parte na Califórnia, Illinois e Texas.

O processo político se amplia

Enquanto os outros debatem se devem ou não dar aos emigrantes o direito de votar, Zacatecas já está permitindo que voltem para casa e concorram a um cargo público.

A governadora de Zacatecas, Amália Garcia, viajou aos EUA ao menos quatro vezes desde que tomou posse, em setembro. Ela passou uma semana em novembro em Los Angeles, ouvindo as reclamações dos emigrantes no Consulado do México, discutindo oportunidades de investimento com líderes empresariais mexicanos e ajudando a coroar a nova Miss Zacatecas no Baile anual zacatecano.

Em sua visita corrida, pediram que explicasse por que dá tanta atenção aos mexicanos tão distantes. Ela respondeu: "Considero Zacatecas um Estado binacional. Apesar da razão por nosso povo ter emigrado ser dolorosa, essas pessoas garantiram nossa estabilidade social."

O sul da Califórnia é a capital da diáspora mexicana e uma sementeira para a política mexicana, liderada pelos Clubes da Federação Zacatecana e homens como Guadalupe Gómez.

A federação se reúne em um prédio cinza decadente, na seção de City Terrace, a oeste de Los Angeles. O prédio parece mais um depósito abandonado do que um ponto de poder transnacional. E seus líderes são mecânicos de automóveis, carteiros, administradores de hospitais, agentes imobiliários e consultores de impostos.

Quase todo mundo que quer ser alguém na política zacatecana passou por suas portas. Acordos presidenciais foram assinados ali. Campanhas políticas foram lançadas ali.

A federação proclama ser apolítica. Mas foram precisamente seus laços com o governo de Zacatecas que a tornaram um dos grupos de migrantes mais bem sucedidos em arrecadação de fundos nos EUA -e ajudou homens como Gómez, que passou de consultor de impostos para um agente político de poder.

Hoje, em seus esforços de lobby, cruza com os presidentes Vicente Fox e Bush. Acompanhando esse pai de quatro filhos, de 44 anos, vê-se um mundo sem fronteiras, onde o espanhol é a língua principal.

Um dia ele está em Los Angeles discursando para um salão cheio de prefeitos da Guatemala, que buscam seus conselhos para estimular seus emigrantes a investirem nos projetos públicos em casa. No dia seguinte, está dando os mesmos conselhos a um grupo de prefeitos mexicanos em Zacatecas.

Em 1998, Gómez estabeleceu um comitê de ação política que foi crucial para eleger o primeiro governador de oposição em Zacatecas, ajudando o Estado a romper as quase sete décadas de domínio autoritário do Partido Revolucionário Institucional. Dois anos depois, ele ajudou Fox a conquistar o apoio dos emigrantes mexicanos em sua histórica campanha para se tornar o primeiro presidente de oposição democraticamente eleito do país.

Em um acordo negociado por Gómez e outros líderes da federação, cada dólar enviado para casa era acrescido de três outros dólares dos governos municipal, estadual e federal, em um programa chamado Três por Uno.

Gómez então negociou com Fox a nacionalização do programa. Pela primeira vez, os emigrantes mexicanos não só enviaram dinheiro para casa, mas puderam falar sobre como gostariam que fosse investido.

"Não queremos que qualquer um decida para nós do que nossas comunidades precisam", disse Gómez. "Não vamos ao México pedir ajuda. Estamos oferecendo ajuda. Queremos ter um papel no futuro. Se o México um dia vai sair do Terceiro Mundo, precisamos fazer parte disso", disse ele. Participação deles na renda de regiões de origem é cada vez maior Deborah Weinberg

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