UOL Notícias Internacional
 

24/02/2005

Bush vai dizer a Laura: "Querida, encolhi o dólar"

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Nova York
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
Eu só tenho uma curiosidade a respeito da viagem do presidente Bush à Europa: Será que ele e Laura foram fazer compras?

Se este foi o caso, eu queria ser uma mosca e pousar na parede para assistir ao momento em que Laura deve ter dito a George:

"George, você se lembra de quanto custavam esses chocolates belgas quando nós estivemos aqui, quatro anos atrás? Esta caixa de chocolates com hortelã custava US$ 10 [R$ 25,85]. Agora, ela custa US$ 15 [R$ 38,78]? O que aconteceu com o dólar, George? Por que o valor do euro aumentou tanto agora, querido? Mas o Rumsfeld não havia dito que a Europa estava velha? Se nós não tivéssemos o Air Force One, nós jamais poderíamos ter bancado esta viagem com o nosso salário!".

O dólar está despencando! O dólar está despencando!

Mas a equipe de governo de Bush continua explicando ao mundo, basicamente, que, a menos que os mercados transformem a queda do dólar numa crise arrasadora da Bolsa de Valores de Nova York e numa guerra comercial, o país não irá aumentar as suas taxas, nem cortar as suas despesas nem reduzir o seu consumo de petróleo, seguindo procedimentos que poderiam encolher seriamente o nosso orçamento e os déficits da nossa balança comercial, e reverter a desvalorização do dólar.

Esta administração está feliz por deixar o dólar cair e aposta que os mercados globais irão empurrar ainda mais a divisa americana para baixo, mas de maneira "ordenada".

Muito bem. Você já chegou a conversar um dia com alguém que faz comércio com divisas? Neste campo, a noção de proceder de maneira "ordenada" nem sempre faz parte do roteiro. Eu não sou de fazer previsões, mas tudo isso poderia começar logo a tomar um rumo muito "desordenado".

Segundo constata David Rothkopf, um antigo alto-funcionário de departamento do Comércio durante a administração Clinton, apesar de todas essas discussões em torno da Previdência Social, vale notar que muitos americanos não dependem apenas dela para garantir a sua aposentadoria. Aquilo com que muitos americanos estão contando é manter a propriedade ou tornar-se proprietários das suas casas e aumentar o seu valor.

Além disso, aquilo que andou alimentando o boom e a "bolha" da construção civil foram as taxas de juros reduzidas, que assim se mantiveram por muito tempo. Caso continuarmos assistindo a uma queda continuada do dólar --e alguns analistas avaliam que ele ainda precisa perder mais 20% do seu valor até se estabilizar-- será inevitável assistirmos paralelamente a aumentos substanciais, e doloridos, das taxas de juros.

"Levando-se em conta a quantidade de pessoas que andaram renegociando o financiamento das suas casas, baseando o cálculo da sua dívida em taxas de juros flutuantes, a depreciação do dólar é o tipo de espada de Dámocles que vai se aproximando cada vez mais da sua cabeça", explica Rothkopf.

"E, num momento em que pode acontecer toda e qualquer ruptura repentina no mercado --a qual poderia ser provocada por qualquer evento, desde um ataque terrorista até os sinais de que algum país importante desistiu de vez de continuar comprando dólares, passando a se desfazer deles--, a bolha poderia estourar de uma maneira muito desagradável".

Por que essa espada estaria se aproximando da cabeça desses proprietários endividados?

Porque os mercados globais estão se dando conta de que nós temos duas vulnerabilidades de marca maior, as quais esta administração não está interessada em resolver: nós estamos importando petróleo em quantidades excessivas, o que faz com que a força do dólar continue sendo solapada à medida que os preços do petróleo continuam a subir, e nós estamos importando capital em excesso, porque nós não estamos poupando dinheiro como deveríamos e que nós estamos gastando excessivamente, tanto a sociedade como o governo.

"Quando as pessoas indagam o que vem sendo feito para remediar a estas duas vulnerabilidades, elas enfrentam muitas dificuldades para obter uma resposta satisfatória", constata Robert Hormats, o vice-diretor da corretora Goldman Sachs International.

"Não existe nenhuma política energética e nenhum esforço real vem sendo empenhado no sentido de reduzir a nossa demanda insaciável por capitais estrangeiros. Os Estados Unidos emprestaram cerca de 80% do total das economias mundiais no ano passado, em grande parte para financiar o nosso consumo".

E esta é a principal razão que explica por que cerca de "43% de todos os bônus do tesouro americano, sejam eles notas de débito ou obrigações, estão agora nas mãos de estrangeiros", analisa Hormats.

Enquanto isso, os detentores estrangeiros de todas essas obrigações estão assistindo ao nosso debate. Eles estão acompanhando as decisões de um país que continua a se recusar a aumentar as suas taxas, e de uma administração que fala em levantar um empréstimo adicional de US$ 2 trilhões (R$ 5.171.400 trilhões), de modo que os americanos possam investir uma maior parte de sua Previdência Social em ações na Bolsa.

Se isso for mesmo acontecer, tal empréstimo iria com toda certeza enfraquecer mais ainda o dólar, o que acabaria depreciando o valor dos bônus do Tesouro americano, os quais foram adquiridos por esses estrangeiros.

Nesta segunda-feira (21), o Banco da Coréia (do Sul) anunciou plano para diversificar mais as suas reservas com ativos que não sejam vinculados ao dólar, após ter passado anos a fio adquirindo em quantidades excessivas títulos do governo americano, os quais se revelaram pouco rentáveis e se encontram agora em processo de franca depreciação.

O temor de que esta decisão pudesse se transformar numa tendência de maior vulto provocou uma venda-liquidação generalizada nos mercados de ações americanos nesta segunda-feira. Para acalmar os mercados, os coreanos anunciaram no dia seguinte que eles não tinham a menor intenção de vender os seus dólares.

Pois então, ótimo. Agora estou aliviado.

"Estes países não precisam se desfazer dos seus dólares --eles precisam reduzir as aquisições que eles fazem desta divisa, uma vez que o dólar poderia ser seriamente prejudicado com isso", avalia Hormats. "A Coréia é o quarto maior detentor de dólares nas suas reservas. Assim, nós não queremos ver outros países se inspirarem neste seu processo de diversificação e chegarem á seguinte conclusão: 'O melhor que nós temos a fazer é diversificar também as nossas reservas, para que nós não sejamos os últimos a pular desse trem'. Você se lembra? O colapso do mercado de ações de outubro de 1987 teve início devido a uma crise da moeda".

Quando um país vive de tempo emprestado, de dinheiro emprestado e de energia emprestada, ele apenas se coloca na posição de implorar aos mercados para que estes lhe imponham a sua disciplina, da maneira que estes bem entenderam, e quando estes bem entenderem. Conforme eu já disse, geralmente os mercados fazem isso de maneira ordenada --exceto quando eles o fazem de maneira diferente. Estrangeiros podem determinar uma depreciação maciça da moeda Jean-Yves de Neufville

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