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24/02/2005

MoMA estreará exposição de paisagismo urbano

The New York Times
Nicolai Ourossoff

Em Nova York
Há muito que os paisagistas se sentiam marginalizados ou desvalorizados por seus colegas arquitetos. Mas com a lenta dissolução dos limites entre as duas profissões, os paisagistas estão desenvolvendo algumas das idéias mais potentes de como cidades decadentes podem ser reanimadas.

Bradford Centre Regeneration/NYT

Centro da cidade britânica de Bradford em projeto unido de arquitetos e paisagistas
"Groundswell", uma exibição que estréia na sexta-feira (25/02) no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York mostra os resultados dessa mudança gradual. Englobando quase duas décadas de design contemporâneo em paisagismo, esta ampla exibição mostra 23 projetos --desde praças e parques até esforços de renovação urbana de grande escala.

O retrato que emerge é de um dos períodos mais frutíferos em paisagismo em mais de cem anos, com visões que vão desde o hiper-real até o atávico. (O minimalismo faz uma aparição, mas parece mais uma advertência do que uma inspiração.)

Se houver um subtexto para a exibição, de fato é um desejo franco de lidar com o cenário pós-industrial, especificamente seu legado de violência e decadência. Muitos dos projetos parecem ter sido criados a partir de horrores fabricados pelo homem: o local de uma explosão terrorista, o centro de uma cidade destruído pela guerra, aterros e locais de desolação industrial. O otimismo da mostra está embasado no poder do paisagismo de agir como agente de cura.

Apesar disso, um dos pontos fortes da exibição é não ser pregadora. Mesmo o mais tóxico dos cenários é considerado parte de um ciclo maior de decadência e renovação. E todos são explorações da memória comum -uma tentativa de lidar com os pontos negros da história em vez de encobri-los.

O mais lírico dos exemplos é o impressionante Cemitério Igualada, no subúrbio de Barcelona, aberto em 1996. (Também foi uma das primeiras comissões importantes de Enric Miralles, arquiteto do novo Parlamento Escocês, que morreu de tumor no cérebro aos 45 anos em 2000). Um caminho tortuoso entra pela terra, cercado pelos túmulos dos dois lados, dentro de paredes de concreto.

A intenção é levar você mais fundo na memória. Mas fala também ao esquecimento. Construído em uma zona industrial decrépita, o cemitério oferece uma forma de escapar do ritmo incansável da modernização para um mundo interior mais íntimo. O arranjo assimétrico dos caminhos é um antídoto à arregimentação de uma cultura saída da linha de produção.

O relacionamento entre escavação e memória reaparece no "Jardim do Perdão" de Gustafson Porter, no centro de Beirute, um bairro virtualmente destruído pela guerra civil de 16 anos do Líbano.

O projeto em construção oferece algumas das imagens mais assombrosas da mostra. O jardim aparece em meio às ruínas medievais que foram recuperadas durante a restauração do centro. Uma série de terraços desce para o sítio recém escavado, que é dividido por uma antiga estrada romana. As fundações antigas cerca jardins menores dentro do parque.

Como o cemitério em Barcelona, o projeto evoca uma viagem espiritual. As ruínas expostas sugerem uma escavação das memórias compartilhadas da cidade; os jardins sugerem cura. Nos dois projetos, a terra é imbuída de significado sagrado.

Essa abordagem contrasta fortemente com os projetistas que adotam fervorosamente a artificialidade de nosso mundo pós-industrial. Desses, talvez o resultado mais inovador seja Shouwburgplein (1996), em Rotterdam. A praça projetada pela West 8 Urban Design and Landscape tira sua inspiração do ambiente misterioso do porto industrial.

A superfície da praça, elevada ligeiramente em relação às ruas, é pavimentada com tábuas de madeira, metal e borracha. Uma fileira de "mastros de luz", inspirada nos gigantescos guindastes ao longo do píer, marca o limite norte do projeto, com braços musculares de aço subindo e descendo como bombas de petróleo.

Com a elevação da praça, permitiu-se que a luz passasse para os níveis de estacionamento subterrâneo da praça -mais um lembrete de que a pessoa não está em terra firme. No entanto, a praça também reflete a história de Roterdã.

Importante porto da Segunda Guerra Mundial, a cidade foi atingida por bombardeiros americanos e britânicos durante a ocupação alemã. Seus píeres industriais, blocos residenciais modernos e áreas comerciais sem personalidade são emblemas de uma cidade do pós-guerra.

Jeroen Musch/The New York Times

Novo design de praça em Roterdã, na Holanda
Em vez de ignorar o passado, os arquitetos tiraram inspiração dele. O balançar gentil dos mastros de luz oferecem alívio ao ritmo frenético da vida urbana. A superfície vaga da praça evoca as piazzas nuas de um filme de Antonioni. Mas em vez de alienação urbana, o ambiente é de intensa intimidade, um silêncio inesperado no centro da cidade.

Outros projetos adotam o artificial de forma igualmente ardente. As linhas ondulantes e sensuais do projeto do Foreign Office Architects para um parque na costa em Barcelona, concluído em 2004, poderiam ter sido inspiradas no trabalho anterior de Miralle. Mas suas pesadas paredes de concreto, que deveriam evocar dunas de areia, têm uma estética radical industrial. Assim como a praça do West 8, encaixa-se confortavelmente em seu contexto pós- industrial.

Similarmente, o modelo proposto pela Field Operations para um parque em Staten Island é uma admissão sagaz da função do local como aterro para os dejetos da cidade por mais de um século. A superfície de desenho delicado do modelo, decorada com alfinetes marcando as várias atividades do parque -golfe, caiaque, equitação, futebol- é verde néon, como se estivesse brilhando com os venenos aprisionados por debaixo. É assustadoramente bonito.

Tal abordagem pode parecer um pouco sombria em comparação com as imagens pop do projeto de Alsop para o centro da cidade de Bradfort, no Norte da Inglaterra. Como resposta ao declínio da população em antigas cidades industriais, o projeto é repleto de idealismo social. O plano inclui a derrubada do centro abandonado da cidade e sua substituição por um parque, que serviria para misturar os bairros racialmente divididos da cidade.

Há também trabalhos menores na mostra --demais para serem mencionados. Os designs minimalistas, em particular tendem à repetição, especialmente quando aderem ao formalismo rígido que marcou grande parte do paisagismo de 1980. (O projeto de Peter Walker William Johnson & Partners para a praça Keyaki em Saitama City, Japão, assemelha-se assustadoramente com seu atual projeto para o parque memorial do antigo World Trade Center).

Mesmo assim, em sua lealdade rígida à técnica, esses projetos são úteis para contrastar com trabalhos mais aventureiros.

Como um todo, a mostra, organizada por Peter Reed, curador do MoMA de arquitetura e design, ressalta o debate refrescante sobre como lidar com o legado do modernismo. Esses arquitetos, muitos ainda com 40 anos, são mais aptos a extrair a beleza negligenciada do passado do que se ater a descrições maniqueístas. Além disso, eles aceitam que a violência e decadência fazem parte inescapável da existência urbana.

Além de seu alcance estético, os projetos têm ressonância porque são respostas profundamente sentidas à realidade contemporânea. Isso é otimismo urbano sem comerciais. Paisagistas infundem esperança na desolação de grandes cidades Deborah Weinberg

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