UOL Notícias Internacional
 

25/02/2005

EUA impõem censura a familiares de prisioneiro que teria planejado matar Bush

The New York Times
James Dao e

Eric Lichtblau

Em Washington
Os pais de Ahmed Omar Abu Ali, o estudante norte-americano acusado de planejar o assassinato do presidente Bush, disseram na quinta-feira (24/02) que o governo norte-americano restringe o acesso deles ao filho, ao impor limites sobre aquilo que podem dizer publicamente a respeito das conversas mantidas durante as visitas na prisão.

Mas autoridades do Departamento de Justiça afirmam que as restrições se constituem em um procedimento padrão em casos sensíveis como o de terrorismo, como forma de impedir que os suspeitos detidos passem mensagens em código aos seus cúmplices.

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, as autoridades impuseram fortes restrições sobre cerca de 12 acusados de terrorismo, incluindo Sheik Omar Abdel Rahman, um prisioneiro cuja advogada, Lynne F. Stewart, foi condenada há duas semanas por transmitir mensagens do seu cliente.

Na última segunda-feira, a família de Ali, que ficou detido sem acusações formais durante 20 meses na Arábia Saudita antes que autoridades norte-americanas o trouxessem de volta aos Estados Unidos, a fim de responder a acusações de que teria apoiado terroristas, disse que o governo pediu a um dos seus advogados que concordasse com um conjunto de condições rígidas antes que os familiares pudessem visitar o preso em Alexandria, no Estado da Virginia.

Os familiares disseram ter sido informados que, para verem Ali, teriam que concordar em não passar para a mídia nada que o detento lhes dissesse, em aceitar a presença de um agente do FBI aos encontros e em falar somente em inglês.

A família está se recusando a acatar as restrições, que ela afirma serem uma tentativa injusta de silenciá-la por parte do Departamento de Justiça. Os familiares reclamaram nos últimos meses junto à mídia da prolongada detenção, e possível tortura, de Ali na Arábia Saudita.

"Não vou assinar nenhum papel", disse na quinta-feira Omar Abu Ali, o pai do suspeito, após uma audiência no tribunal vinculada a um processo que a família moveu contra o governo dos Estados Unidos. "Eles não estão permitindo que o vejamos --nós não temos contato com ele há três anos, lutamos todo esse tempo para trazê-lo de volta, e merecemos vê-lo".

Funcionários do Departamento de Justiça disseram que os familiares terão liberdade para ver Ali caso concordem com as restrições que estão sendo consideradas.

"A família tem acesso ao réu, de forma consistente com os procedimentos padrão em um caso que envolve preocupações relativas à segurança nacional", afirmou Bryan Sierra, porta-voz do Departamento de Justiça.

Um funcionário do departamento, que pediu que não fosse identificado, confirmou as restrições citadas pela família, incluindo a proibição de que façam qualquer comentário junto à mídia sobre aquilo que Ali lhes disser. Mas o funcionário disse que o departamento ainda está avaliando a questão, e que não tomou decisões finais sobre quais restrições serão impostas.

"Se, por exemplo, a família informar à imprensa que Ali lhes disse algo como 'O céu está claro, mas amanhã choverá', isso poderia ser uma mensagem para terroristas", disse o funcionário. "Eles podem sair e falar com a imprensa sobre o filho, a sua inocência, ou qualquer coisa que desejem, mas precisam concordar em não transmitir nada que possa consistir em uma mensagem".

O funcionário disse que o Departamento de Justiça se preocupou com a possibilidade de que, ainda que os familiares não soubessem estar passando uma mensagem em código, e o fizessem inadvertidamente, isso poderia colocar em andamento uma operação terrorista.

Após os ataques de 11 de setembro, John Ashcroft, então procurador-geral, ampliou as restrições relativas aos presos nos casos de terrorismo, adotando as chamadas "medidas administrativas especiais", a fim de conferir ao Departamento de Justiça o poder de monitorar as conversas entre cliente e advogado, contanto que o advogado fosse informado sobre o fato com antecedência.

Os advogados de Ali contam com permissão para vê-lo desde que ele retornou aos Estados Unidos na segunda-feira, mas as autoridades disseram que as conversas entre eles e o cliente não foram monitoradas. E, ao contrário do que ocorreu em casos de réus supostamente envolvidos em casos mais sérios de terrorismo, Ali não ficou acorrentado ou confinado durante esses encontros.

Os advogados de defesa disseram que durante uma reunião Ali lhes mostrou o que pareciam ser marcas de chicotadas em suas costas. Familiares disseram na quinta-feira que Ali lhes informou que, enquanto ainda estava preso na Arábia Saudita, os seus carcereiros em Riad às vezes o chicoteavam por três dias seguidos, o mantinham na solitária por meses a fio, vendavam-lhe os olhos e se negavam a fornecer-lhe alimentos por longos períodos.

A família sustenta, como parte do seu processo contra o governo federal, que autoridades norte-americanas estavam cientes dos abusos e que, mesmo assim, orquestraram efetivamente a sua detenção com a cooperação dos sauditas.

Mas, na última quarta-feira, o Departamento de Justiça, em uma audiência relativa ao caso, negou as alegações de tortura. Os promotores afirmaram que Ali informou às autoridades durante o seu período de detenção que foi "bem-tratado" e que um médico norte-americano que o examinou no início da semana, após a sua custódia ser transferida para os Estados Unidos, disse não ter encontrado evidências de quaisquer maus-tratos físicos.

O Departamento de Justiça disse: "As evidências indicam que as alegações do réu de que sofreu maus-tratos são uma total invenção, com o objetivo de desviar as atenções do seu envolvimento criminoso com uma célula da Al Qaeda na Arábia Saudita".

Em um sumário com seis acusações protocolado na última terça-feira, os promotores acusaram Ali de fornecer apoio material e recursos aos terroristas, incluindo equipamento e treinamento técnico, enquanto estudava na Arábia Saudita em 2002 e 2003. Embora ele não tenha sido diretamente acusado de tentar matar o presidente, o sumário diz que o apoio de Ali a Al Qaeda "seria utilizado como preparativo e para a execução do assassinato do presidente dos Estados Unidos".

Os promotores afirmaram que Ali e um cúmplice saudita ligado à Al Qaeda, e que foi morto, falaram sobre maneiras de fazer com que Ali atirasse em Bush ou detonasse uma bomba próxima ao presidente. O pai do suspeito disse na quinta-feira que as acusações são "totais mentiras". Objetivo do governo é evitar a transmissão de instruções cifradas Danilo Fonseca

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